Flutuando no caos

Gumes vence a timidez expressa em seu EP de estreia para entregar primeiro disco sucinto com reflexões sobre amadurecimento, relacionamentos e política. Ouça “Adorei Você”

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Fotos: Isabela Yu

“Acho que cansamos de gritar e resolvemos conversar um pouco”, reflete Lucas Tamashiro, guitarrista e vocalista da Gumes, ao comparar a atmosfera de bb (2018), EP de estreia da banda paulistana, com debut Adorei Você, que o Monkeybuzz lança com exclusividade nesta sexta-feira. A reflexão pode facilmente ser aplicada às questões trazidas pela chegada da vida adulta, os relacionamentos e hoje, mais do que nunca, ao momento político que Brasil vive. 

Se por um lado, as letras enxutas e poderosas, de teor confessional, e as palhetadas relaxadas em guitarras levemente distorcidas continuam representando a essência do grupo; por outro, Adorei Você é mais temperado, objetivo e sucinto que bb. A nova cara é resultado da soma de mudanças em aspectos pessoais, artísticos e técnicos de Tamashiro, Thales Castanheira (guitarra), Otto Dardenne (baixo) e Yann Dardenne (bateria). “Acredito que agora estamos menos tímidos e crescemos como jovens adultos e artistas. Os meninos trabalham com produção, eu estou fazendo terapia, isso muda nosso olhar sobre as confusões internas e a visão de mundo”, explica o vocalista. 

Além disso, o processo criativo para o primeiro disco foi bem diferente que o do EP. “Como foi um prolongamento do nosso TCC da faculdade de produção, regravamos o bb várias vezes por conta própria. Isso resultou em algo mais visceral, com mais sobreposições, e menos redondo. Já para o ‘Adorei’ contamos com a produção do Gabriel Arbex [guitarrista da banda de Hardcore Zander], que fez toda a diferença, porque tivemos um prazo para gravar, de pouco mais de um mês. Foi preciso muita disciplina e organização das ideias. Ter alguém orientando tornou o álbum mais bem acabado e direto ao ponto”, conta o vocalista. 

“Acredito que agora estamos menos tímidos e crescemos como jovens adultos e artistas. Os meninos trabalham com produção, eu estou fazendo terapia, isso muda nosso olhar sobre as confusões internas e a visão de mundo” – Lucas Tamashiro

O primeiro single do LP foi “Caramba”, lançado no finalzinho de agosto. No som, a banda discorre sobre a percepção de que às vezes a melhor opção é deixar as coisas acontecerem de forma natural no refrão “E eu que pude insistir / Não consigo mais resistir”. A adição de elementos eletrônicos em cima da base tradicional composta por baixo, guitarra e bateria mostra a maturidade dos paulistanos, que também trabalhou com as teclas, sintetizadores e instrumentos de sopro no novo disco. 

Em “Impossible”, Tamashiro divaga sobre a difícil fuga das possibilidades que se têm; em “Boas Maneiras”, elabora sobre a figura de seu pai; e em “Star”, imagina que está conversando com sua versão criança. “Vazei” também é um ponto alto das sete faixas do “disquinho” ou “EPzão” – nas palavras do vocalista –, com brisas sobre realidade x fantasia. Na quarta track, “Como o Céu”, os acordes viajantes são muito bem complementados pelo saxofone do músico Vinícius Rodrigues. Por fim, “Sábio” é uma reflexão sobre “ser doidão e querer continuar tocando” e, segundo Tamashiro, é a faixa que define a temática do debut. 

Em Adorei Você, a atmosfera mais carregada e toda a gritaria de bb fica para trás e é substituída por um diálogo, mais leve, mas que continua sincero. “O disco tem um quê de afetivo e pode ser que fale só de relacionamentos, amorosos ou não, pessoais ou alheios, reais ou fantasiosos, mas também sentimos uma leve conotação política, sobre o espaço de cada um e como isso pode ser invadido ou não. Também pode ser os dois, afinal, o cuidado com as pessoas começa com quem está do seu lado. No EP, falávamos um pouco de morte, e agora tem uma brisa sobre tempo”, diz Tamashiro. 

À paisana

A combinação do mood flutuante, com um ar de quem “sonha acordado”, além de certo desprendimento, levou o responsável pelo selo Pug Records, que lançou bb, a cunhar a seguinte definição para as músicas da Gumes: “brisas à paisana para fins terapêuticos”. A descrição vai bem de encontro às intenções do grupo, que não deseja ser associado a nenhum gênero específico. 

Desde o início, sobressaem-se na sonoridade da banda influências gringas e nacionais do Indie, Emo e o Hardcore noventistas que reverberaram nos anos 2000, assim como a neo-psicodelia e o Dreampop que vêm predominando nesta década. Tudo isso é herança da passagem dos integrantes por grupos do chamado “Rock triste” da cena paulistana, como Raça, Ombu e Goldenloki.

 

Tamashiro reforça que é impossível passar imune pelas principais referências que nos rodeiam, mas que eles estão sempre ouvindo de tudo, do Rock mais underground ao Pop. Além disso entram em cena também acenos a clássicos e a contemporâneos música brasileira e internacional – os britânicos do 1975 e Cartola têm estado bastante presentes em suas playlists, por exemplo. O vocalista também revela uma admiração enorme pelos trabalhos de Luiza Lian e Rodrigo Amarante. 

“A ideia é deixar a parada o mais aberto possível, sem a intenção de atingir um público certo, para conquistar não só quem está dentro da cena, mas também gente de outras idades e classes sociais, e deixar que as pessoas tirem suas próprias conclusões. Eu lembro que quando apresentamos as músicas do EP pela primeira vez na faculdade, o porteiro disse que gostou ficou com uma delas na cabeça. É esse tipo de reação que gostamos de ver”, declara. Assim, a Gumes segue simplificando questões difíceis com tranquilidade e sem exagero, tentando encontrar seu espaço em meio à efervescência de artistas diversos na capital onde o caos reina. Para os próximos meses, a banda deve realizar o show de lançamento do disco na Casa do Mancha, em São Paulo. 

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ARTISTA: Gumes

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