CocoRosie – Cine Joia, SP

Duo de irmãs faz um show bizarro mostrando seu Freak Folk, que chamou a atenção pelas performances e qualidade das musicistas

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Fotos: Fernando Galassi/Monkeybuzz
Nota: 4.0

Sabe quando alguém te chama para ir em uma exposição de arte moderna, no melhor estilo abstrato e incompreendido? Aquela sensação de “nossa, o que exatamente está acontecendo aqui?” permeia sua mente por todo o percurso da galeria e, por menos que você entenda o que está vendo, os críticos de arte e pessoas intelectuais à sua volta estão fazendo uma cara de apreciação (e até mesmo de êxtase) diante daquelas peças enigmáticas que fazem com que você se sinta hostilizado em dizer que não entendeu bulhufas da proposta artística. Ontem no Cine Joia, foi assim para muita gente que não conhecia tão a fundo o trabalho de CocoRosie ao vivo, porém com uma brutal diferença: ninguém lá parecia hostilizado ou incomodado. Muito pelo contrário.

O show começou com um atraso e uma forma inusitada. Por uns cinco minutos, o local foi preenchido com uma frequência grave de barulhos que se repetia num loop imperceptível e deixava os fãs bem ansiosos pela entrada das duas irmãs. Sucedeu que uma figura oriental com chapéu característico entrou e começou a fazer mais barulhos nos sintetizadores e teclados ao fundo do palco, deixando todos mais confusos e ansiosos ainda, até que finalmente uma figura alta e saltitante entrou, deixando todos histéricos. Era Sierra. Logo depois entrou Bianca e o restante da banda para tocar Child Bride.

Já percebemos que não se tratava de um show comum por uma série de elementos no palco. Não havia presença de bateria, quem ficou encarregado de carregar o ritmo do Freak-Folk das irmãs foi um beatboxer que, embora ficasse tímido atrás das duas mulheres doidas, compensou com um impressionante controle e elaboração de timbres que arrancaram elogios dos presentes (com direito até a um solo de “bateria” que fez os ossos tremerem, tamanha a frequência grave com a qual ele brincava). Outro elemento que chamou a atenção, foi o varal de roupas armado atrás das integrantes, que suspendia uma série de figurinos que eram trocados várias vezes durante a apresentação das músicas, dando um ar extremamente performático por parte das irmãs, que interpretavam e dançavam exaustivamente.

Tecnicamente falando, CocoRosie é uma banda que impressiona muito ao vivo. As duas souberam demonstrar seu potencial vocal cada a uma sua maneira, porém igualmente impressionantes. Bianca com um timbre mais freak e áspero exercia um ótimo controle e Sierra, com uma voz mais lírica e mais técnica, mostrava todo o poder hipnotizante que ela produzia com bastante reverb em sua voz. Houve algum problema de microfonia, mas não foi nada gritante que prejudicasse o show como um todo, que foi preenchido tanto com faixas de seu novo disco Tales Of A Grass Widow como de discos mais antigos, como Noah’s Ark.

Em resumo, foi uma apresentação que chamou a atenção. Fãs oldschool do duo puderam ouvir famosas faixas tocadas ao vivo, como Werewolf, End Of Time e K-Hole entre outras, e as pessoas que não conheciam tanto o trabalho (o equivalente aos leigos de arte moderna em exposições) ficaram paralizados com a incrível performance das integrantes, seja pela qualidade das músicas, danças que capturam a essência das músicas ou todo o fator da imprevisibilidade durante o evento. Ainda não entendi a proposta, mas sei que é belo.

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ARTISTA: CocoRosie
MARCADORES: Show

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.