O Enigma Frank Ocean

Artista é um dos nossos favoritos graças à sua autenticidade

O Enigma Frank Ocean
Featureflash Photo Agency / Shutterstock / Max Fleishman

Christopher Edwin Breaux, mais conhecido por seu codinome Frank Ocean, é um artista fácil de entender, mas, ao mesmo tempo, intrigante. Saído de uma carreira de “escritor fantasma”, compondo para terceiros, logo se destacou entre alguns dos jovens mais proeminentes do coletivo Odd Future. Do lançamento de sua primeira mixtape, Nostalgia, Ultra, em 2011, passando por participações especiais ao lado de gente do cacife de Kanye West e Jay-Z, até a consagração de seu debute Channel Orange, Ocean é integrante do time de melhores artistas contemporâneos que temos, enquanto, à sua maneira, difere daqueles com os quais compartilha seu espaço. Enigmático, responde com autenticidade àquele que talvez seja um dos maiores paradoxos na vida de uma estrela nos dias de hoje: como ser quem simplesmente se é?

Ocean, dentro do universo Pop no qual está inserido, encontrou seu modo de responder ao dilema da autenticidade. “A obsessão das pessoas em ouvir logo um novo trabalho de Frank Ocean é justificável”, nos disse Lucas Repullo em sua resenha sobre Blonde, o novo álbum do compositor, e eleito um dos melhores trabalhos do ano. Seja em sua atividade artística, seja em seus desaparecimentos premeditados do universo do mercado da fama, Ocean fala diretamente com o seu público, e preenche uma demanda que não tem sido tão fácil de se encontrar entre os grandes da música: a da honestidade.

Em Blonde, tudo se divide em dois. Tudo habita um universo tenso entre dois pólos. “I’ve got two versions” nos diz uma voz grave no videoclipe da música Nikes, faixa que, por sua vez, não é exatamente a mesma que encontramos na gravação do disco. Blonde, seu título, no feminino, difere do masculino Blond, que lemos em sua capa. Se a sexualidade humana dissolve-se em um espectro de infinitas combinações entre dois extremos, as relações humanas também estão divididas entre o mundo real e o virtual. Nessa tensão, Ocean parece se perguntar o tempo todo “quem sou eu?”.

A faixa Facebook Story nos conta como um relacionamento acabou por conta de um desentendimento relacionado ao Facebook. Andre 3000, em Solo (Reprise), fala com desgosto sobre rappers que não escrevem suas próprias letras. Be Yourself é um telefonema de uma mãe que aconselha o ouvinte a “ser você mesmo”.

Nesse entremeio, Ocean critica com amargura uma vida da qual não abdica. Do hedonismo do abuso de drogas até a futilidade da paixão por carros, a arte de Ocean é Pop e exige uma leitura sofisticada enquanto exibe um esteticismo efêmero - imagens rápidas, de visualidade apelativa - como a do Tumblr (principal rede social, aliás, pela qual o artista se comunica com seu público).

A resenha de Blonde ainda nos diz que “Ocean passou os últimos anos questionando ilusão e realidade, sexualidade, solidão, consumismo, identidade e nos entregou essa reflexão mesclando simplicidade e complexidade melódica com naturalidade e nos apresentando uma experiência multimídia completa, cheia de referências.” De fato, Ocean soa tão sedutor aos nosso ouvidos por isso. Ele é um artista íntegro, dividido em vários. Não oferece uma resposta simples para o drama de ser humano, pois sê-lo é ser complexo e contraditório, no entanto, oferece um amparo acessível para nós com uma música que fala a mesma língua de seu público.

Artista: Frank Ocean

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