5pra1: Roberta Flack

A grande sequência de discos de uma cantora que, com suavidade afiada, romantismo e jazz, tornou-se uma das vozes mais marcantes do soul na década de 1970

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Fotos: ABC PHOTO ARCHIVES/DISNEY/GETTY

A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.

 

A missão de fazer um 5pra1 da Roberta Flack foi sofrida. Não pela qualidade das músicas – pelo contrário, o catálogo desta gigante do soul é ridículo de bom –, mas, sim, pela sofrência de suas baladas mais famosas. Ainda que alguns discos tenham veias mais jazzy, outros mais blues, o choro é livre e inevitável. A imersão na obra de Roberta Flack nos transporta para momentos lentinhos de um filme confortável de sessão da tarde: uma dança romântica, uma volta pra casa depois de uma briga com a paixão, uma chuva que cai enquanto a personagem está em seu apartamento de tijolos nova-iorquino, sozinha, repensando a relação.

Roberta Flack, de fato ,teria sua música vinculada ao cinema, mas em cenas bem diferentes das que surgem, de imediato, à imaginação. Além de figurar em Boogie Nights (1997) com a canção “Compared to What”, ela fez a trilha sonora original de Bustin Loose (1981), comédia protagonizada por Richard Pryor. Apesar de subestimado na carreira de Flack, o disco apresenta a artista se enveredando por gêneros inéditos até ali em sua carreira. Há o jazz fusion de “Qual E Malindrinho (Why Are You So Bad)”, com percussões do gigante brasileiro Dom Um Romão, e a introdução à parceria com Peabo Bryson, que acompanharia a artista em um disco colaborativo dois anos depois.

Mas não teve jeito: para mergulhar em Roberta Flack, a sequência arrasadora que começa em First Take (1969) e termina em Killing Me Soflty (1973) é inescapável, e a primeira metade dos anos 1970 comanda a viagem. O estilo pouco espalhafatoso, a voz singela e marcante e o romantismo embalado em uma união entre gospel, soul, jazz e toques requintados de orquestrações clássicas – tudo isso está presente, na melhor forma, nesse período. Os primeiros discos de Flack exemplificam com maestria aquilo que se convencionou chamar de Quiet Storm, um estilo-onda-linguagem-subgênero do soul que usa andamentos lentos, arranjos sofisticados, é sedutor, romântico e queridinho das rádios. De Smokey Robinson a Luther Vandross ou de Al Green a Alicia Keys, essa tempestade silenciosa cai sobre muitos artistas até hoje e, no fim dos anos 1970, veio como uma espécie de resposta, enraizada no R&B, ao soft rock radiofônico. Flack, especialmente no período aqui contemplado, adiciona complexidade harmônica e um certo mel pop ao sentimentalismo. Além de apresentar uma força interpretativa que a faz tomar posse das composições de outros artistas.

Filha de um organista da igreja, Flack começou a tocar piano cedo o suficiente para conseguir uma bolsa de estudos de música na Howard University. Logo ela assinaria com a Atlantic Records, após ser descoberta cantando em um clube de jazz. Uma diva discreta do soul, ela seguiu ganhando novos admiradores principalmente por meio das baladas românticas, classudas e jazzeadas da década de 1970 – e a ser perpetuar através de releituras de artistas como The Fugees, D’Angelo, John Legend Beyoncé e Kanye West.

First Take (1969)

O quarteto liderado por Roberta no piano abre o disco com o blues dinâmico de “Compared to What”, num disco que tende mais ao jazz do que ao soul que a consagraria. “The First Time Ever I Saw Your Face” e “Hey, That’s No Way to Say Goodbye”, são folks de cortar o coração; o primeiro se tornaria um sucesso dois anos depois, quando sua aparição no filme de Clint Eastwood, Play Misty for Me (1971), o levou ao topo das paradas pop e rendeu a Flack seu primeiro prêmio Grammy de Gravação do Ano. Flack também incluiu duas músicas de seu amigo de faculdade e futuro parceiro de dueto, o lendário Donny Hathaway. First Take apresenta uma artista de grande capacidade de interpretação vocal e ressonância emocional, sendo, na visão da crítica especializada, uma das estreias de soul mais fascinantes da época.

Destaques: “Compared To What”, “Hey That’s No Way To Say Goodbye”, “The First Time I Ever Saw Your Face”

Chapter Two (1970)

Se você é millennial (que nem eu), é neste álbum que está a música de Roberta Flack que você vai reconhecer primeiro. É que “Do What You Gotta Do”, segunda canção do disco, teve seus quatro primeiros versos interpolados em “Famous”, um dos hits de The Life of Pablo (2015). Além de um ótimo álbum, foi em Chapter Two que Flack provou ser mais do que uma cantora de um hit só, transitando com destreza entre os tons de jazz do primeiro álbum e outros gêneros. Sua voz suave, atraente e sedutora era capaz de transmitir uma gama de sentimentos complexos, como raiva, angústia, arrependimento (às vezes, isso tudo misturado). É a partir deste disco que Roberta Flack se torna uma voz fundamental no soul e R&B no dos anos 70. O projeto ganhou versão remasterizada em 2020, comemorando os seus 50 anos de lançamento.

Destaques: “Reverend Lee”, “Do What You Gotta Do”, “Gone Away”

 

Quiet Fire (1971)

Quiet Fire se mostra um título apropriado para o terceiro álbum de Roberta Flack, já que, aqui, os vocais de gospel da artista fervem sob a superfície, como a lava de um vulcão inativo. Se nos primeiros discos ela tem uma interpretação vocal que une os traços suaves de Nina Simone à presença sólida de Aretha Franklin, neste álbum ela abandona essas propriedades para partir para um etéreo canto gospel, em intensidades delicadamente medidas, suspiros e frases alongadas. O órgão (instrumento tocado pelo pai de Roberta) aparece com uma merecida e confortável presença neste disco, uma vez que Flack tem intimidade familiar com o instrumento. É o caso de “To Love Somebody”, versão do hit dos Bee Gees. Flack mergulha em souls pesados em “Go Up Moses” e “Sunday and Sister Jones”, achando espaço ainda para completar o trio moderno da música sulista com músicas country. Um dos melhores de Roberta Flack, também recebeu versão remasterizada e expandida em 2021.

Destaques: “Bridge Over Troubled Water”, “Sunday And Sister Jones”, “Will You Still Love Me Tomorrow”

 

Roberta Flack & Donny Hathaway (1972)

Roberta Flack e Donny Hathaway eram colegas de turma na Howard University, parceria que foi tragicamente interrompida com o suicídio de Donny em 1979. Antes, eles gravaram dois álbuns de dueto clássico, sendo este, de 1972, talvez o trabalho mais pop e digerível de Roberta Flack. O single “Where Is the Love” apareceu bem pelas rádios urbanas contemporâneas por quase todo o ano e o cover de “You’ve Got A Friend” é uma das versões mais celebradas do clássico de Carole King. O disco performou muito bem, e sua sequência, oito anos depois e depois da morte de Hathaway, deriva para caminhos mais marcados por fortes e funkeadas linhas de baixo. Entre os dois álbuns, a dupla ainda emplacou o hit “The Closer I Get To  You”, uma balada presente no disco solo de Flack, Blue Lights in The Basement (1977).

Destaques: “Be Real Black For Me”, “Where Is The Love”, “For All We Know”

 

Killing Me Softly (1973)

Killing Me Softly continuou a tradição de Chapter Two e Quiet Fire, e a faixa-título é, até hoje, o maior sucesso da carreira da artista. Em 1996, a canção recebeu uma versão do The Fugees na voz de Lauryn Hill, a respeito da qual a Flack comentou, em entrevista para o The Guardian: “Ela fez um excelente trabalho. Eu não vou me apegar a uma música e morrer sangrando sempre que alguém fizer um cover […] Eu também tive sucesso com ela, mas não fui a primeira pessoa a gravá-la”. Flack gravou sua versão inspirada pela original da cantora Lori Lieberman, e colocou a faixa no número 1 do Pop Chart da Billboard – onde ficou por cinco semanas. Ela ganhou dois Grammys por conta do single, que também arrebatou o gramofone de canção do ano, além de ser introduzida ao Hall da Fama do Grammy, em 1999. Um álbum muito baseado em pianos e baladas melancólicas percorrendo um repertório no qual a faixa-título rouba a cena.

Destaques: “Killing Me Softly”, “Jesse”, “When You Smile”

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ARTISTA: Roberta Flack