A Internet e a Música Deste Século

Documentário “H∆SHTAG$” retrata movimentos musicais influenciados pela cultura digital e ajuda a compreender a arte criada atualmente

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A marca de energéticos Red Bull e seu braço de ações musicais Red Bull Music Academy realmente tem criado ações muito legais, que vão além do tipo de criação de conteúdo que as marcas conseguem fazer. Uma das mais recente e importantes foi a série de mini-documentários H∆SHTAG$, que se propõe a discutir, apresentar e investigar alguns artistas cujo som foi de fato influenciado por alguma das mudanças trazidas com a popularização da Internet.

Logo de cara, percebemos o quanto a marca conseguiu entender a essência da música contemporânea e barrar qualquer tipo de crítica que poderia ser feita ao destaque dado a estes artistas e às classificações a que foram submetidos. Cada episódio tem o curioso título de Don’t Call It: (nome do estilo), reflexo desta, às vezes justa e às vezes injusta, aversão que fãs e músicos tem tido a qualquer criação e delimitação de um artista por gênero. Em segundo lugar, a produção acertou em interferir o mínimo possível, deixando os próprios artistas contarem suas histórias de como foram influenciados pelas novidades digitais, antecipando-se a mais uma leva de reclamações de alguns trolls que poderiam questionar a real importância que a série estaria dando para estes movimentos que possivelmente nem trazem tantas novidades assim.

Este documentário, como toda boa peça cultural, chegou na hora certa para ajudar na reflexão e na formação de uma opinião mais concreta e menos precipitada sobre o quanto a Internet tem colaborado para o surgimento de novos artistas ou, perdoem a heresia, para o surgimento de novos estilos musicais.

Diversos estudiosos da cibercultura defendem algo muito válido e que pode clarear a cabeça de muita gente no que diz respeito a este impacto que a Internet teve em como as coisas são feitas. Todos são contra essa ideia de um determinismo de qualquer ferramenta digital na forma que as coisas são feitas. O filósofo francês Pierre Levy costuma usar para descrever a maneira de pensar da maioria utilizando a metáfora bélica de um míssil caindo sobre algum local, impactando e modificando tudo que estava ao seu alcance. Realmente não é bem assim, a Internet veio para condicionar a produção cultural, ou seja, ela influencia, positiva ou negativamente e é um fator a se levar em consideração ao pensar em como as coisas foram feitas, mas não muda por completo tudo que se conhecia anteriormente.

Outra característica importante de ressaltar ao pensar na cibercultura é que ela não cria elementos que substituem o previamente existente, apenas modifica, repensa, readapta aquilo para os novos padrões e necessidades do momento. Com a música não é diferente, e é isso que o projeto H∆SHTAG$ consegue retratar tão bem.

Ouvir música nova é bom e as pessoas devem exercitar esse costume e se abrir para estas novidades. Não é tão importante discutir mais se realmente novos estilos estão se formando, se aquilo é realmente um som inovador ou não ou se está reaproveitando fórmulas antigas. O importante, na verdade, é as pessoas continuarem fazendo música de todo jeito, em todo lugar a toda hora É assim que novas experimentações serão feitas e o espaço para uma possível inovação quem sabe, pode um dia acontecer (se é que já não está acontecendo).

Os filmes mostram histórias curiosíssimas do quanto pessoas de diferentes lugares conseguem realmente se comunicar e contribuir com a sonoridade do outro, criando cenas dentro do não-lugar que é o ciberespaço. A lógica que era usada anteriormente para definir um estilo, uma cena, um movimento musical ou cultural como foi o Grunge ou o Punk, talvez não seja mais útil atualmente. Sendo assim, novas teorias e linhas de pensamento devem ser criadas para classificar isso, ou quem sabe, eliminar de vez as classificações.

O importante é ter a consciência de que a Internet, a tecnologia acessível e todas as suas ferramentas estão sim influenciando a música, aumentando a facilidade de experimentação e os “estilos” citados no documentário como Alt R&B, Post Dubstep, Cloud Rap, Beats, Tumblrwave e Blog Pop estão aí para provar isso, colaborando com fãs, com artistas de diferentes lugares, com diferentes backgrounds, criando a música da década de 10, seja ela nova, velha, usada ou reciclada, o importante é continuarem fazendo e continuarmos ouvindo música.

Obs. todos os vídeos utilizados para ilustrar este texto são de artistas citados no documentário. Assista abaixo à série completa.

A maior parte deles está entre nossos favoritos aqui no site, então aproveite para conhecer melhor nomes como How To Dress Well, Mount Kimbie, Sepalcure, Flying Lotus, TNGHT, Shlohmo, XXYYXX, Charli XCX, AlunaGeorge, entre outros.

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Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.