Cadê: Engenheiros do Hawaii – “Revolta dos Dândis” (1987)

Segundo lançamento foi responsável por colocar esses gaúchos no mapa do Rock no Brasil

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O segundo disco de Engenheiros do Hawaii colocou a banda gaúcha no mapa nacional do Rock. É engraçado porque o grupo jamais foi capaz de colher algum elogio da mídia especializada, mas chegou a ultrapassar medalhões do estilo ao longo dos anos 1980, especialmente Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Titãs. Mais curioso é observar que o grupo deixou de lado influências musicais comuns a quase todas essas formações e, talvez sem muito planejamento a princípio, adentrou terrenos dos anos 1970, do Blues e do Folk Rock mais literário e aliou tudo isso a uma forte identidade com o que parecia ser (para o resto do Brasil) a vida numa cidade fora do eixo Rio-São Paulo, no caso, a capital gaúcha, Porto Alegre.

Um olhar mais atento vai mostrar que Humberto Gessinger (baixo, voz), Carlos Maltz (bateria) e Augusto Licks (guitarra, entrando na banda neste segundo disco) não eram exatamente representantes da cena roqueira da cidade. Eram nerds que resolveram montar uma banda dois anos antes (ainda sem Licks, mas com Marcelo Pitz e Carlos Stein) para tirar sarro com os estudantes de engenharia da UFRGS, que usavam bermudas floridas. Para isso encarnaram pela única vez, as levadas de Ska de Paralamas, o Hardocore baixos teores de Legião Urbana inicial e emolduraram canções como Segurança, Toda Forma de Poder ou Sopa de Letrinhas, necessárias para insinuar o nome do grupo e fazê-lo capaz de competir num cenário que desconhecia a produção Rock de regiões como o Sul ou o Nordeste. Com o título Longe Demais Das Capitais, ficava evidente a intenção de Engenheiros do Hawaii, algo que seria o principal mote de Revolta dos Dândis. A capa amarela já apresenta ao público a estética de Gessinger, uma espécie de Jânio Quadros do Rock brasileiro da época. O sujeito nunca frequentou rodas de amizade, sempre assumiu signos imagéticos anacrônicos como um cabelão louro setentista (que lhe valeu o apelido de Paquita), apego a camisas de clubes de futebol (no caso, o Grêmio de Futebol Porto Alegrense), se valendo somente do apoio do público que conquistou aos poucos. A doutrinação começaria com este trabalho.

O grande diferencial da banda a partir deste segundo disco foi a capacidade de Gessinger assumir uma postura que aspirava ser a de um Bob Dylan dos Pampas para adolescentes. Enquanto isso, Licks fornecia um cimento guitarreiro versátil o bastante para executar funções de base e solos, Maltz segurava a onda nas baquetas sem muita firula. A Gessinger cabia prover o núcleo “ideológico” da coisa, desde as letras com doses generosas de lirismo urbano exótico a um visual conservador, exposta na capa amarelíssima do disco.

Aqui a banda inaugurava uma trilogia com os motivos da bandeira gaúcha, com as cores restantes, vermelho e verde, estampando capas de outros dois discos da carreira, Ouça O Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém, de 1988 e Várias Variáveis, de 1991). O fato é que seis das onze canções do álbum foram sucessos nacionais em diferentes intensidades. E havia detalhes interessantes a observar. A gaita generosa, que abre as duas versões da faixa título, é um elemento inédito no Rock da década, cortesia de Augusto Licks, que tinha experiência de músico da banda de Nei Lisboa. A própria autorreferência passa a ser um elemento poderoso no arsenal do grupo.

As duas Revoltas… fizeram bastante sucesso, mas o poder de fogo do grupo seria apresentado na forma de três verdadeiros OVNIS musicais para a época: Terra de Gigantes, uma balada com voz e guitarra, tinha letra com críticas pesadas à postura da própria juventude de época, recentemente exaltada até pelas próprias bandas do período. O verso “a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes” era uma porrada no próprio público que, curiosamente, não se viu ali, gerando um mecanismo de admiração e quase messianismo pelo que Gessinger dizia ali. Além dela, Refrão de Bolero, aquela do verso “seus lábios são labirintos, Ana, que atraem os meus instintos mais sacanas”, foi fazer sucesso nacional na aurora da MTV, três anos mais tarde (com uma versão ao vivo), gerando renovado interesse pelo disco. A grande canção do disco é, sem dúvida, Infinita Highway. É uma espécie de canção da estrada para quem nunca caiu na vida, mas que era absolutamente nova e brilhante em 1987.

Seus mais de seis minutos de duração foram parar no rádio e nos programas de televisão sem qualquer corte ou edição, num tempo em que a canção não poderia ter mais que três, quatro minutos. A letra é uma sucessão de figuras de linguagem sobre desamor, ritos de passagem e olhar pessimista para o futuro, que funcionava em lugares díspares como grandes ginásios (onde a banda passou a se apresentar após o sucesso) ou rodinhas de violão. Antes de Faroeste Caboclo, épico quilométrico da Legião Urbana, Gessinger já pavimentara o caminho para este tipo de sucesso meio menestrel, meio messias, meio Oswaldo Montenegro Rock.

Revolta dos Dândis é um disco que traz o grande mérito de ter uma personalidade musical própria. Não se comunica com nada produzido no país na época, mas é extremamente bem gravado, cortesia da produção de Reinaldo Brito e do próprio Humberto Gessinger. Quando a MTV se instalou no país e concentrou em si o privilégio de lançar e divulgar bandas, Engenheiros do Hawaii já era a maior banda brasileira em termos de público. Seu ápice seria com o álbum O Papa É Pop, que também marcaria uma lenta decadência e esgotamento dessa estética “gessingeriana”.

Quase toda a discografia da banda pode ser encontrada à venda e o valor não atinge o patamar de raridade ou item de colecionador. Revolta… é, queiram ou não, um clássico do Rock nacional oitentista e merece ser ouvido.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.