David Bowie e o Resgate do Futuro que Ficou Pra Trás

Em mais de quatro décadas de carreira, o camaleônico músico ajudou a definir os conceitos da música enquanto redefinia a si mesmo

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O termo “estrela” é usado há mais de um século para definir artistas com grande reconhecimento, seja de público, crítica, ou ambos. Tem a ver com o “brilho”, a influência e o carisma que faz com que sejam tão notados. Existe na palavra também uma conotação quase mitológica. Esses pontos de luz estão acima de nossas cabeças

Referências estelares fazem ainda mais sentido quando o assunto é David Bowie, já que seu alterego Ziggy Stardust é, além de um grande marco em sua carreira, um verdadeiro monumento na história da música recente junto ao seu disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, um alien que visita a Terra como um rock star. O maior hit desse lançamento não poderia ter outro nome: Starman.

Esse foi seu maior sucesso desde 1969 e seu Space Oddity, que também tinha em comum a temática espacial – um tema recorrente naquela época, com a chegada do homem a Lua e aquela sensação de “o futuro é agora”. Essa sensação foi enterrada pelo Pós-Modernismo (e a impressão de que o tal futuro não significou muita coisa) e parece estar sendo retomada ultimamente, já que um novo milênio pode apontar para novas perspectivas para a humanidade, além de invenções como o Google Glass, que dão ao nosso tempo essa mesma cara.

Em vista disso, é o momento certo para Bowie retornar aos holofotes, já que ficou uma década sem entrar no estúdio após seu Reality (2003). E de tanto lidar com mitologias e ficções-científicas, agora aos 66 anos, o britânico parece investir em outra realidade: a própria – seja como camaleão, mito ou ser humano.

Se o auto-conhecimento é uma das maiores dádivas da experiência, o homem nascido David Robert Jones tem mostrado ao mundo que sabe utilizar desse dom. Na verdade, se tem algo que parece rondar sua figura é um grande controle sobre sua identidade. “Camaleão” é como ele foi apelidado, mas enquanto o animal se camufla, Bowie se redefine da maneira que o momento lhe propõe.

Quando criança, ele sempre mostrou aptidão para as artes e descobriu na música – e na resposta que as pessoas tem a ela – um poder admirável. Antes mesmo da consagração absoluta, ele já atuava em filmes e conseguiu estar em produções suficientes para ninguém ter medo de chamá-lo também de “ator”, embora essa faceta esteja também ligada frequentemente ao seu ofício como músico, como para a trilha do filme Labirinto, no qual vivia também o papel de protagonista.

Musicalmente, o gênio também segue livre pela identidade que bem escolher. Mais Pop aqui, mais experimental ali, pode ser Glam Rock se quiser, Art Rock ou qualquer nome que ele ou qualquer um bem entender. O que não falta é o conteúdo.

Esse é outro aspecto interessante do músico voltar à cena agora. Em uma época em que tantos artistas e bandas investem em formatos, alguns trabalhando estéticas do passado hoje de uma maneira superior a como elas eram em seu tempo original, Bowie pode ensinar as novas gerações que música boa pode (ou até deve, se você preferir assim) comunicar mais do que uma opção de estilo.

Ao que parece, com os dois singles lançados e mais algum material divulgado, seu The Next Day, o novo álbum, parece apontar mais para o passado do que algum “próximo dia”. Ele canta sobre relacionamentos que já foram, sobre o tempo em que morou em Berlim e até mesmo sobre a figura de estrela que ele mesmo ajudou a criar.

Para trazer à tona tudo isso, o músico mais uma vez mergulha em introspecção e deixa claro qual o personagem que ele assume hoje: o dele próprio, com cada uma dessas facetas. Como o ótimo contador de histórias que é, ele sabe cativar com a fantasia de suas narrativas musicais para cativar nossa atenção.

Se algum desses elogios parecer em algum momento exagerado, uma rápida audição nessas músicas que recheiam o artigo, ou em qualquer outro de seus hits ou discos, revela uma agrabilidade que define muitos dos nossos parâmetros para avaliarmos hoje o que é bom e o que não é na música.

Como o brilho das estrelas percorre tantos anos/luz para alcançar nossa vista, quando vemos um ponto luminoso no céu, ele já se extinguiu há muito tempo, daí aquela história de “ao olharmos as estrelas, enxergamos o passado”. No caso de David Bowie, ele é a estrela que dita o presente já há quatro décadas – e isso não deve mudar tão cedo.

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ARTISTA: David Bowie
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.