De Jaloo a Hurtmold, Tem que Pensar Fora da Casa

Festival Fora da Casinha mostrou com segunda edição sua relevância para o independente do país

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Por trás do portão, lembro de alguns sofás com cheiro de “tempo” na área externa, com o emblemático mural na sala que serve de palco dentro da Casa do Mancha – espaço cultural destinado à música independente em São Paulo que, com nove anos de existência, já é digno de ostentar o título de “tradicional”. Hoje, os sofás velhos se foram, a área comum recebeu uma bem-vinda atualização e o mural foi reformado sem perder sua essência. É curioso como essa pequena história vem ao encontro da expansão pela qual o local passou nos últimos tempos, sobretudo no ano passado com a criação do festival Fora da Casinha, se firmando para além de seus muros como uma verdadeira instituição que ajuda a legitimizar a música dita alternativa sobretudo na cidade, mas também no país como um todo, e tudo isso sem perder a cara que tem e sempre teve.

Prova disso é foi a segunda edição do evento, que ocorreu em São Paulo no domingo, 7 de agosto, com onze variadas atrações ao longo da tarde e início da noite a cerca de dois quilômetros da rua Felipe de Alcaçova, onde a casa fica, no espaço Unibes Cultural. Lá, Mauricio Pereira fez as vezes de mestres de cerimônias e inaugurou a festa em show refinado, emblematicamente com a vanguarda paulistana abençoando a tarde que ali iniciava. “Acho que ele representa bem a coerência, a subsistência da música independente, a força de continuar fazendo um trabalho contínuo, estruturado, que não necessariamente precisa estar nos grandes meios de comunicação pra se manter regular e relevante”, conta Mancha Leonel (o morador original da Casa), que chama o músico de “patrono do festival”.

Em seguida, Luiza Lian, Ventre e Kiko Dinucci trouxeram seus trabalhos para cada um dos palcos, sendo também grandes exemplos do clima que cada um deles abrigaria ao longo do dia: Luiza mais animada e dançante no auditório, a banda carioca em uma atmosfera mais contemplativa no teatro e Dinucci fazendo as vezes de cantor-compositor no lounge. “A curadoria foi pensada nesse sentido, são três palcos que tem movimentos diferentes, estéticas diferentes, mas que se complementam e traçam um bom panorama do que está sendo feito, o que está sendo produzido de qualidade dentro do cenário independente”, afirma o produtor e criador do festival.

A próxima trinca foi também, provavelmente, o horário mais variado do dia (e, talvez não tão curiosamente assim, o que teve os shows mais disputados): Jaloo com seu Pop Eletrônico muito dançante, Hurtmold (“a melhor banda do Brasil”, como disse Hugo Noguchi, Ventre, ao final de sua apresentação) e Anelis Assumpção com Dustan Gallas. Muitos não conseguiram entrar nas duas apresentações dos lugares fechados, em parte pela dificuldade de comunicação do horário de abertura (no caso do auditório) ou do acesso ao mezanino (no teatro). “Na primeira edição, a gente aprendeu que o festival precisa de uma organização muito detalhada, muito cuidadosa”, conta Mancha, que explica também que “a gente tentou melhorar isso pra fechar as contas também, chegar num equilíbrio financeiro” e, a dois dias do evento, não sabia dizer se ele conseguiria se pagar.

Manter o festival subsidiado pelo público, sem um grande patrocinador, como é de costume em eventos do porte, é descrito pelo produtor como “o grande acerto”. “Trabalhar com bandas independentes, bandas nacionais que a gente já conhece, que a gente já trabalhou, que entendem a nossa proposta é o pilar de sustentação”, explica, “é o que a gente tá mantendo e pretende continuar mantendo sempre”. Um show como o de Maglore, por exemplo, que mandou hit atrás de hit para um público que dançava e cantava todas, prova que a curadoria foi certeira dentro desses nomes com quem já havia trabalhado, mas que também tem peso com o público – isso em uma noite que ainda teve Juliana Perdigão, Cidadão Instigado e As Bahias e a Cozinha Mineira, três provas da variedade e da relevância da Casa para o que é feito no país hoje.

“Repetir o festival neste ano, pra mim, é antes de mais nada uma prova de resistência”, conta Mancha, e daqui de fora, como alguém que frequentou o evento sem saber do orçamento trabalhado ou sem a informação se as contas bateram ou não ao final, a impressão absoluta é a de sucesso – nas atrações certeiras, na pluralidade do som, no mapeamento do Brasil feito com a curadoria (cada banda subia ao palco e dizia de onde era, antes de agradecer pela oportunidade e elogiar o trabalho ali feito) e na escolha de colocar naturalmente representatividade de gênero e etnia, por exemplo, sem precisar discursar com palavras.

A Casa do Mancha já não é mais a mesma sem os sofás, após ter recebido o agito do bairro durante a Copa do Mundo há dois anos e por ser um nome conhecido (e reconhecido) por todos ligados de alguma forma à música independente na cidade. De todas as coisas que não mudaram, como o festival mostra, fica sua relevância para amparar público e músicos que teriam dificuldade de encontrar teto em outro lugar.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.