Dirty Projectors, um cantinho, um violão

Dave Longstreth fala sobre a nova formação da banda e a paixão pela música brasileira, celebrada no recente EP “Super João”, uma homenagem a João Gilberto

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Fotos: Jason Frank Rothenberg

Se Dirty Projectors dispensa introduções em relação a sua história ou discografia, a nova fase merece uma atençãozinha especial. Ela começou durante a turnê de Lamp it Prose (2018), quando a banda recebeu o reforço de três musicistas para os shows – Maia Friedman, Felicia Douglas e Kristin Skipp. A química deu tão certo que todas elas integram a formação atual do grupo.

Para marcar este seu novo momento, Dirty Projectors decidiu então produzir um ciclo de cinco EPs, cada um deles focado em um integrante diferente da banda. O primeiro, Windows Open, explorou o vocal e a musicalidade da guitarrista Maia Friedman. Na sequência, a tecladista e percussionista Felicia Douglas esteve à frente do grupo com Flight Tower. Ambos os lançamentos mostram uma musicalidade mais leve e descompromissada, que flerta com o Pop em canções deliciosas, como “Overlord” e “Lose Your Love”.

Por último, o membro-fundador Dave Longstreth reuniu os elementos que compõem sua musicalidade em Super João, EP que traz, já no título, uma homenagem do músico a João Gilberto. Nele, a Bossa Nova se faz presente como influência ao longo das quatro faixas, seja diretamente (no single “Holy Mackerel”) ou em algumas harmonias e timbres aqui e ali.

Foi sobre todo esse contexto que Dave falou ao Monkeybuzz por telefone. Entre reações tímidas aos elogios que recebia, risadas no meio da conversa e bastante empolgação ao falar de música, Dave reforçou o quanto ama o som feito no Brasil – não apenas o de nosso Super João.

 

Como brasileiro, me sinto na obrigação de começar te perguntando sobre sua relação com João Gilberto. Que papel ele tem na sua formação musical?

João Gilberto é o tipo de música que meus pais colocavam para tocar em casa quando eu era criança, então eu cresci ouvindo aquele violão de nylon. Logo, ele teve sim uma grande parte na maneira com que eu ouço música. Sempre gostei da maneira com que ele canta, como ele encaixa a voz suavemente na harmonia e como fica bom com o violão.

Quando eu ouço Super João, tenho a impressão de que você está falando dele como uma espécie de bode expiatório, porque é resultado de uma investigação interna sua. Ou seja, está falando de você mesmo.

Eu não tinha pensado nisso, gostei da ideia (risos). Acho que tem a ver sim, porque quando eu estou escrevendo para Dirty Projectors, quando a música ainda é só uma semente de ideia, eu desenvolvo a composição no violão de nylon. É um costume que eu tenho desde sempre, de trabalhar a música primeiro em sua característica mais elementar – voz e violão. Então, cantar sobre a obra dele é, de certa forma, falar de como eu componho.

"Sou imensamente influenciado por música brasileira. Eu amo a polirritmia e as harmonias que são naturais do som que vocês fazem. Caetano é meu herói. Ouço muito todos os grandes, como Gal Costa e Hermeto Pascoal. Tenho ouvido bastante Tim Bernardes e também Chico Bernardes. Gosto muito da música dos dois, e acho legal o fato deles serem irmãos." (Foto: Jason Frank Rothenberg)

Quando você hoje olha para trás, o que você nota de João Gilberto no que Dirty Projectors já lançou?

Hmmmmm, boa pergunta. Acho que eu gostaria mais de ouvir o que você encontra de João Gilberto nos outros discos.

Vou ser sincero: não tive tempo de percorrer a discografia inteira, mas pensei que seria interessante te perguntar isso.

(Risos) Mas você tem razão, deve haver algo muito subterrâneo ali nas músicas que sempre remetem a ele. Na hora de produzir Super João, reuni as características que eu sempre admirei em seu trabalho e foi a hora de trazê-las à frente.

Sobre esta nova fase, eu admito que nunca curti tanto Dirty Projectors como hoje em dia. O que você mais gosta nesta nova formação?

Que bom ouvir isso. Quando estávamos montando a turnê de Lamp It Prose, vimos que a inclusão de Maia, Felicia e Kristin soprava uma nova vida às nossas músicas, principalmente porque suas vozes são maravilhosas (risos). Lançar esses EPs foi uma forma de valorizar cada um na banda. Então, acho que o que eu mais gosto é de tê-las conosco.

Quando vejo esses EPs focados em um só integrante, penso que a soma dos cinco EPs mostra mais do que é a banda do que um grande álbum com todos juntos. Era essa a ideia para a maneira com que as capas se comunicam – as partes que formam algo maior?

Pois é, faz sentido. A ideia da capa veio da minha esposa, Theresa. Pegamos pinturas do meu irmão, que é artista plástico, e transformamos meu estúdio em uma galeria de artes para as fotos. O interessante é que as fotos foram feitas em dezembro, antes da pandemia, mas, por mostrarem cada integrante isoladamente, elas se comunicam muito bem com o momento atual.

Por falar em arte, você dirige os clipes da banda. Como tem sido essa experiência?

Eu tenho adorado dirigir os clipes. Tem sido um desafio legal e também tenho aprendido muito sobre produção de filmes. Meu favorito é o de “Overlord”, que gravamos em Nova York em fevereiro, e acabou sendo um dos últimos registros que temos nos espaços públicos antes do isolamento.

Para terminar, além de João Gilberto, você consome mais música feita no Brasil?

Ah, sim, sou imensamente influenciado por música brasileira. Eu amo a polirritmia e as harmonias que são naturais do som que vocês fazem. Caetano é meu herói. Ouço muito todos os grandes, como Gal Costa e Hermeto Pascoal. Tenho ouvido bastante Tim Bernardes e também Chico Bernardes. Gosto muito da música dos dois, e acho legal o fato deles serem irmãos.

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MARCADORES: Dave Longstreth

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.