Emicida: “Queria que o Disco Fosse Muito Autobiográfico”

Rapper une experiência pessoal e boa música para dar voz à causa maior que ambas

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Emicida carrega grande humildade em suas palavras – das rimas às entrevistas -, mas é o tipo de pessoa que entra em uma sala e o mundo parece parar para vê-lo. Isso certamente tem a ver com o status de “celebridade” que nossa cultura impõe a figuras que estão na mídia, mas vai além disso. Trata-se da sensação de estarmos na presença de um personagem de uma narrativa épica, um artista que é também um símbolo para algo muito maior: A desmistificação e consequente luta contra os problemas de racismo e desigualdade social no Brasil.

Foi assim quando ele trocou algumas palavras ao Monkeybuzz durante as gravações do programa Vevo Sessions na última segunda, 14 de setembro, mas eu já tinha testemunhado esse fenômeno em diversas outras ocasiões em que estivemos juntos – de eventos de lançamentos a bastidores de festivais.

Naquela noite, ele apresentou as músicas de seu mais novo álbum, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, além de alguns sucessos antigos, para uma plateia formada por fãs na companhia dos excelentes músicos que o acompanham na atual turnê. “Eles me dão vontade de fazer música”, revela ele, “Eu não ando com ninguém que não me dê vontade de fazer música”.

E eis algo interessante: Seu discurso é sempre impressionante, como o conteúdo revelado desde redes sociais até no meio do show (durante lançamento do disco em São Paulo, ouvi – com lágrimas nos olhos – sua constantação: “Quando 18 pessoas morrem em uma cidade e ninguém fala nada, essa cidade também está morta”), mas o valor orgânico de sua música nunca é perdido. A letra vem no “papo reto” e as batidas e arranjos acompanham tudo à altura – não só dentro do esperado no Rap.

“Eu tenho o hábito de escutar um monte de coisas diferentes”, revela, “eu gosto da forma com que a música brasileira foi construída, da forma com que se conta histórias. Acho que o Samba, principalmente, tem grandes contadores de histórias”. Logo antes, ele havia contado que a música que mais tem ouvido é a clássica As Rosas Não Falam, de Cartola, e cita ainda Donga, Pixinguinha, Moacir Santos e Zé Keti (ou seja, só os grandes do gênero) como influências – “Eles fizeram a música com tanto cuidado, com tanto amor, que me inspira a ser cuidadoso e apaixonado em tudo o que eu for fazer também, sabe?”.

Se essas menções poderiam surpreender alguns que esperavam nomes do Hip Hop, quem conhece seus discos sabe que eles esbanjam tanto essa liberdade criativa, quanto suas raízes no som feito também por minorias em outra época (“música de favela”, nas suas palavras) em suas crônicas, algo bem parecido com o que Emicida tem feito, ainda que devidamente apropriado aos tempos de hoje não só em conteúdo, mas também em forma.

“A gente tem uma coisa chamada material humano que é muito rico”, diz o rapper, “aquilo resulta em histórias fantásticas. Aí você estuda e se dedica para que a atmosfera musical que vai cercar aquilo seja tão elegante quanto”. Sobre essa pesquisa das músicas, ele comenta (assim como muitos gostam de ressaltar) que sua parceria com o DJ Nyack é fundamental. “Ele me fez ser um cara pesquisador de novo”, comenta, “às vezes eu fico meio preguiçoso, mas ele é um cara que não para e eu fico meio mal de estar perto dele, aí eu vou e estudo também (risos)”.

Para suas composições, é notável o quanto Emicida – ou melhor, Leandro – sabe colocar-se em primeiro plano e falar de suas próprias experiências, daí criando esse personagem que hoje ganha cada vez mais destaque. “Eu queria que o disco fosse muito autobiográfico”, revela, “minha música mesmo na grande maioria das vezes é isso, desde as batalhas de freestyle”.

“Me colocar nesse lugar de pessoa comum pra me conectar com todas as pessoas, que são pessoas comuns” é o que ele explica que queria, apontando para ele e para mim enquanto fala. “Não queria soar como o rapper famoso, conhecido, queria me conectar com cada um pelo que todo mundo tem, pelas coisas que a gente tem e que fazem a gente ser igual”, completa.

Tal conexão é conquistada logo na primeira faixa, a emocional Mãe. “É pra pessoa baixar a guarda, entendeu?”, explica ele sobre a música, “Vai ter muita coisa ali pra se conversar e você precisa estar com o coração aberto, com a alma limpa, chorar lava a alma”. Acima de qualquer função narrativa dentro da obra, acaba sendo mais uma prova do fator humano em sua arte, principalmente com a participação de Dona Jacira, sua mãe (que antes já havia se destacado em Crisântemo, do álbum anterior).

E é assim, nessas correlações criadas com o ouvinte a partir de suas rimas pessoais que mostram o sofrimento de quem sempre viveu na pele o racismo e a desigualdade social, que ele continua escrevendo seu personagem para ajudar a mudar toda uma História (com H maiúsculo mesmo). Quando chega a produção para avisar que o programa já iria começar (era transmissão ao vivo), ele se desculpa pela “correria” com cara de quem ainda tinha muito pra contar – algo que suas músicas sempre provam.

Prestar atenção no que Emicida canta é também ajudar a reconhecer a luta que ele representa e sua voz, ou direito e necessidade a uma, na sociedade. A causa é nobre por si só. Quando ele entra na jogada e expõe seu personagem acompanhado de tamanha qualidade musical, fica difícil não comprar a briga. Ainda bem.

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ARTISTA: Emicida
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.