Entrevista: Cambriana

Uma das maiores revelações brasileiras para 2012, a banda goiana nos contou sobre a gravação do disco, planos para o futuro e suas primeiras apresentações ao vivo

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Desde 2010, Luis Calil já planejava em sua mente o que seria o Cambriana – sem o nome definido, mas já desde aquela época com os primeiros rascunhos do que vira a ser a banda. Com a entrada e parceria de Wanderson Meireles em meados de 2011, formou-se a grande dupla criativa do grupo.

O som deles transita entre o Indie Pop e o Freak Folk, tendo como influências desde Radiohead até Grizzly Bear, passando ainda por momentos de Brian Eno e Death Cab For Cutie. Com seu mais novo disco, House of Tolerance, lançado no começo do ano, já são apontados como uma das grandes promessas da música brasileira para 2012.

A viagem de ouvir o álbum é curta, porém intensa. Em suas dez músicas distribuídas pelos 38 minutos de disco, o ouvinte é convidado a passear pelas mais diversas emoções e sonoridades. Com certeza um dos discos mais completos do ano, e provavelmente estará nas listas dos melhores de 2012.

Nós do Monkeybuzz fizemos uma entrevista com Luis Calil para saber mais sobre os primórdios da banda, planos pro futuro e como foram as primeiras apresentações de banda. Aproveite e ouça o álbum House of Tolerance abaixo e, depois, confira nossa resenha do disco.

Monkeybuz: Como foi começar sendo uma banda de um homem só e virar uma banda com mais integrantes? Luis Calil: Na verdade, o Israel e o Rafael (guitarristas) já tinham tocado comigo num projeto anterior, onde nós fazíamos apenas covers, então eles meio que já eram da banda. Mas como eu fiz as músicas basicamente sozinho, pensando somente no resultado final e utilizando as inúmeras possibilidades de gravação e edição que existem hoje, traduzir elas pro formato “banda” tem sido um pouco complicado – tanto que somos seis pessoas ao vivo pra dar conta de tudo.

Mb: De onde surgiu a parceria entre Luis Calil e Wanderson Meireles? Como vocês os conheceram? Luis: Não faço a mínima idéia de como nos conhecemos. Já faz anos – provavelmente em algum fórum ou comunidade ridícula na Internet. Nós temos gostos parecidos e tínhamos interesse em tentar arriscar algo mexendo com música. Então, a nossa colaboração acabou acontecendo bem naturalmente, de palpitar sobre as idéias do outro até começar a por a mão na massa e as desenvolver.

Mb: Com certeza, a Internet teve um papel importante na divulgação do disco. Como vocês veem essa ferramenta para uma banda nova? Luis: A Internet não teve um papel importante – ela foi o único papel. Não tocamos shows, não mandamos cópias do disco pra rádios ou revistas, não fizemos anúncios, nada. A divulgação ocorreu inteiramente nas mídias sociais, o que é o padrão pra um artista independente hoje em dia. Então, chamar a Internet de uma ferramenta é meio que subestimá-la. Ela mudou completamente (e pra melhor, na maioria das vezes) o meio musical, tanto em termos de distribuição quanto de divulgação. Se você tá pensando em iniciar um projeto artístico hoje, a Web é muitas vezes o único primeiro passo que você pode dar.

Mb: Os EPs geralmente são lançados alguns meses antes do disco. Qual foi a idéia de lançar EP e disco no mesmo mês, com um intervalo tão curto? Luis: O plano original nem envolvia lançar um EP. Nós lançamos os dois primeiros singles, The Sad Facts e Big Fish, e dois lados-b, e depois disso seria apenas o disco. Alguém deu a idéia de reunir todas as músicas que a gente tinha lançado até então num pacote só, para facilitar pra quem ainda não tinha escutado ou baixado nenhuma. Foi mais uma questão prática do que estética. Mas eu gosto da idéia de EPs, acho que dá pra fazer coisas incríveis nesse formato menor (por exemplo, o fantástico Fall Be Kind do Animal Collective), e pretendemos lançar outro ainda esse ano, mais bem planejado.

Mb: Uma pergunta que todo mundo deve fazer é de onde veio o nome da banda. Cambriana tem alguma alusão ao período geológico? Luis: Essa pergunta me fez checar o dicionário preocupado pra ver se “cambriana” tinha algum outro significado idiota. Não tem (ufa). O período geológico é fascinante, e eu adoro biologia, evolução, etc, mas a gente escolheu o nome principalmente porque a palavra em si é bonita, evocativa, fácil de falar. A sugestão foi do Wanderson, então ponto pra ele.

Mb: A ótima produção do disco pode fazer até com que alguns nem acreditem que ele foi gravado em casa. Qual foi o principal motivo para terem feito o álbum de maneira caseira? E como foi o processo de gravação em geral? Luis: Valeu! O motivo principal de termos feito o álbum em casa foi falta de dinheiro. Ou pelo menos o motivo inicial, porque no pouco tempo que eu passei em estúdio (pra gravar vocais e violão), achei a experiência chata e estressante. O ambiente geralmente não é confortável, existe aquela pressão por causa do tempo limitado, incerteza sobre a qualidade das execuções, etc. Em casa, tudo é feito com mais calma, de forma que o processo fica até divertido. Se você tá insatisfeito com um take da guitarra, você pode repetir ele 486 vezes até suas digitais sumirem dos dedos, sem se preocupar com absolutamente nada. É outra história. A banda agora pretende conseguir mais equipamentos de gravação, pra gente poder fazer tudo independentemente, onde e quando quisermos.

Mb: Como estão sendo as primeiras apresentações ao vivo e como foi estrear logo de cara em um festival, o Grito Rock? Luis: Tenso. Geralmente, uma banda cansa de tocar ao vivo até ela começar a reunir um público pra ela. Nós tivemos a sorte e o azar de chamar um bocado de atenção antes de pisarmos no palco juntos, então foi tudo bastante corrido, pouco tempo de ensaio e preparação. Mas a recepção tem sido muito boa, e nós estamos ficando mais confiantes como banda. Tenho certeza que os shows vão ficar cada vez melhores.

Mb: A grande questão da música é se expressar, e alguns se expressam melhor em português e outros em inglês. Qual o motivo para todas as composições serem em inglês? Luis: Eu acho que você respondeu sua própria pergunta, haha. Como eu sempre ouvi mais música cantada em inglês (tanto dos EUA, quanto da Inglaterra, quanto de vários outros países cujo inglês não é a língua principal), pra mim é muito mais natural cantar e compor em inglês. Quando eu tento algo em português, parece que eu to entrando num território diferente, e perco a confiança, fico achando que soa bobo. E, claro, o legal do inglês é que ele é meio que “universal”, então nós teoricamente estamos aumentando a acessibilidade das músicas. Se a gente fracassar por aqui, ainda dá pra mudar pro México ou pra África do Sul e começar de novo.

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ARTISTA: Cambriana
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts