Kimbra e sua Insaciável Busca Criativa

Novos singles da cantora neozelandesa apontam caminhos diferentes dos anteriores

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Quem lembra da cantora e compositora neozelandesa Kimbra apenas por sua colaboração no mundialmente conhecido hit Somebody That You Used To Know, do cantor Gotye, está cometendo um bárbara injustiça. Reduzi-la a essa música é simplificar um universo de referências e sonoridade a apenas um fato. Com dois discos em sua história, pudemos observar que a jovem possui uma capacidade muito bem firmada de dosar diferentes elementos de sua formação e reunir em uma mistura bem feita, sem pontuar demais uma estética, nem diminuir o valor de um outro gênero musical de sua escolha.

Entretanto, em seus dois últimos singles (respectivamente Everybody Knows e Top Of The World), parece que começou a haver uma predileção pelas construções eletrônicas, fato que fizeram alguns entusiastas se perguntarem se aquela versatilidade de outrora teria se esgotado, rendendo-se ao Pop como sua construção primária. Apesar de pertinente, estas dúvidas poderiam nos apontar para uma espécie de avaliação injusta para com Kimbra e uma rápida análise de sua carreira pode nos revelar que esta mudança talvez não tenha sido tão súbita e avassaladora como parece.

Primeiramente, é preciso entender que Kimbra é, acima de qualquer categorização, uma musicista e, assim, tudo o que ela sente é transformado em linguagem musical. Dessa forma, a partir do momento em que, aos dez anos, ganhara do pai uma guitarra, a compositora começou a experimentar as melhores formas de transmitir o que desejava e isso a levou a investigar as coisas de uma forma intensa. Seu primeiro disco, Vows (2011) é uma prova muito clara disso, mostrando composições que se movimentam livre entre os limites do Indie com doses de Pop e arranjos elaborados.

Parte deste repertório de Kimbra também advém das inúmeras participações em composições de outros artistas, indo muito além de Somebody That You Used To Know. Alguns exemplos incluem Asleep In The Sea, da banda As Tall As Lions, onde ela parece ter aprendido bastante sobre a utilização do ambiente em suas composições e, na canção I Look To You da dupla Miami Horror, o Pop e o groove certamente entraram com força em suas referências. Obviamente não se pode atribuir exclusivamente a estes artistas o fato de terem repassado estas estéticas à cantora neozelandesa. As oportunidades parecem terem sido aprofundadas na mente de Kimbra e Vows mostra como ela aproveitou isso com todo o ânimo e entusiasmo evidente em sua obra de estreia.

É a partir de seu segundo disco que começamos a entender um pouco melhor os caminhos que levaram a estruturação de seus novos singles. The Golden Echo (2014) é uma espécie de continuação da dinâmica multirreferencial de Kimbra mas, agora, ao invés de múltiplas sonoridades coexistindo, é como se ela organizasse tudo ao redor de gêneros Eletrônicos. Isso não foi feito de uma forma tão abrupta assim, já que a longo das doze canções presentes no disco, conseguimos perceber nuances características da época de Vows. Por exemplo, a faixa Carolina, apesar de possuir uma batida sintética, capta bem o espírito Indie e o mistura com vocais super processados. Ou até mesmo a parceria com o cantor Bilal, que incorpora uma linguagem mais R&B à lista infinita de Kimbra, brincando com timbre mais espalhafatosos e batidas menos rígidas em sua estrutura.

Assim, chegamos a 2017, quando Kimbra disponibilizou dois singles de seu futuro terceiro disco, intitulado Primal Heart e previsto para ser lançado em abril de 2018. De uma abertura intensa para sonoridades diversas e afunilando cada vez mais para a música Eletrônica, a simplicidade parece ter imperado nestas duas canções. Com sintetizadores oitentistas e uma pegada Ambient mais abstrata, Kimbra agora desloca seu eixo de percepção central para apenas um gênero ao invés de transitar por eles. Dessa forma, ela consegue concentrar a dose de experimentação que sempre foi sua marca registrada em um ambiente mais delimitado e, assim, parece ela vai fundo. Por exemplo, Top Of The World estuda melhor o uso das frequências baixas em prol de um impacto mais estarrecedor, enquanto Everybody Knows é precisa em administrar um minimalismo sem abrir mão do aspecto dançante e Pop de sua música.

Com essa rápida análise, o “abandono” de suas raízes não parece algo tão impactante assim. Na verdade, é até errôneo nomear esta dinâmica como uma renúncia. Isto é uma progressão natural do aspecto investigativo da neozelandesa, sempre buscando linguagens mais precisas e afinadas ao seu gosto e imaginário. Dessa forma, seu terceiro disco pode nos revelar ainda mais surpresas e é justamente isso que torna Kimbra uma artista tão plural e relevante no Pop mundial.

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ARTISTA: Kimbra
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.