A eterna viagem ao torto da BIKE

“Quarto Templo” é a combinação de quatro EPs da banda que, ao lançar seu novo disco, fez um faixa a faixa exclusivo para o Monkeybuzz

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“Estamos rumando para algo cada vez mais experimental, para o torto”. A declaração de Diego Xavier (voz, guitarra, baixo e violões) sobre os passos da BIKE – quase que uma sentença para os artistas que escolhem fazer música Psicodélica – se reflete já nos primeiros minutos de Quarto Templo (2019), quarto álbum de estúdio da banda paulista.  

Quatro é também o número de anos de atividade do grupo e de partes em que as faixas do disco foram liberadas nas plataformas. A ideia surgiu da intenção de Diego e Julito Cavalcante (voz, guitarra e violões) de falar sobre os quatro elementos da natureza, e foi com esse foco que o trio, completado com Daniel Fumega (bateria), focou as jams de criação. “Conforme as composições foram nascendo, começamos a brincar com o significado, que encaixa em outros “quartos”: as quatro estações, os quatro pontos cardeais, ¼ de doce…”, brinca Diego. 

Se nas letras predominaram as citações às nuvens, ao vento, ao fogo e às plantas, herança de Their Shamanic Majesties’Third Request (2018), a sonoridade aparece renovada – e tem a ver com o que a banda vivenciou nos últimos dois anos. Desde 2017, na sequência do lançamento de Em Busca da Viagem Eterna (2016), a BIKE é convidada para tocar fora do país, o que já rendeu três turnês e passagens por festivais europeus: Primavera Sound 2017 (Espanha); Nox Orae 2018 (Suiça); MIL 2019 (Portugal); e The Great Escape 2019 (Inglaterra). 

A proximidade a novos artistas da cena internacional, alguns já admirados pelos integrantes e outros que acabaram se tornando referências, ampliou seus horizontes sonoros. O resultado foi que, em Quarto Templo, as influências da banda, que passam por Syd Barret/Pink Floyd, Can, Sonic Youth, Walter Franco, Jards Macalé, Clube da Esquina e o movimento udigrudi pernambucano, se misturaram com o noise de artistas como Wooden Ships,1000 Russos, DC Fontaines, Viagra Boys e IDLES.

Dessa vez, também, o grupo decidiu ousar na produção. Ao invés de tomar a frente e voltar ao Estúdio Wasabi, em São José dos Campos, onde foram desenvolvidos 1943 (2015), Em Busca… e Their Majestic…, o trio gravou no estúdio A9, em São Paulo, sob a mentoria de Apollo Nove (Planet Hemp, Otto, Rita Lee) e o DJ e produtor da cena eletrônica paulistana Renato Cohen.

Construído pelo lendário engenheiro de som Roy Ciala, o A9 foi equipado com teclados, órgãos, sintetizadores, compressores, EQ’s e microfones que estiveram em sessões de Jimi Hendrix, John Lennon, David Bowie e Lou Reed. Assim, grande parte da instrumentalização que foi gravada digitalmente nos outros álbuns, pode ser substituída por aparelhos analógicos. Todas as teclas e synths são performadas por Apollo, enquanto os beats de Cohen entraram em algumas faixas. 

“É muito diferente quando você tem o instrumento original. Às vezes um defeitinho já dá uma diferença única no som. Estar rodeado de ‘brinquedos’ do Apollo e equipamentos trazidos pelo Roy foi como estar em um parque de diversões”, relata Diego. Para Julito, foi um desafio equilibrar o apego às origens à vontade de experimentar e aceitar a visão de profissionais de outro universo musical. Mas no final valeu a pena: “Lá tem o Melotron que era da Rita Lee na época dos Mutantes. Isso é muito louco”.  

Entre as faixas estruturadas em camadas de efeitos nas guitarras, teclados, sintetizadores e vocais, e as temáticas galgadas na força dos quatro elementos, a ardência do fogo e a intensidade do vermelho causaram as sensações mais arrebatadoras nos integrantes. Diego destaca o riff de baixo e a letra densa de “O fogo anda comigo”; Julito, a simplicidade e o “cuidado especial” de Renato Cohen em “Vermelho como brasa”; e Daniel, a expressão rítmica pulsante do bumbo e a letra objetiva de “Divinorum”.

Convidamos a BIKE a escrever um pouco sobre as músicas no faixa a faixa a seguir: 

“Divinorum”

Diego: É um mantra de purificação. O Julito apareceu com o riff e o Daniel fez uma releitura de baião. O Arp e o subgrave do Moog Taurus deram a textura ardente que queríamos. É uma ode e a sálvia divinorum, 

Julito: Eu ficava tocando sempre esse riff, até que o Daniel encaixou esse beat incrível nela.

“O fogo anda comigo”

Diego: Estudos do motorik? Uma pitada de post-punk? Uma das músicas mais à flor da pele que já fizemos. 

Julito: Talvez nossa música mais rápida e tensa até hoje. Acho que tinha um pouco daquela raiva de início de 2019, depois de tantos golpes no país nos últimos anos. Fala sobre estar sempre atento.

“O velho caminho das nuvens brancas”

Diego: Um mantra leve como o trajeto das nuvens. Mas, às vezes, a tempestade chega. Acabou não entrando no Their Shamanic Majesties’ Third Request.

Julito: É a continuação de “Nuvem”, do terceiro álbum. Uma brisa leve entre o fogo e a terra selvagem.

“Vento solar”

Diego: Com certeza a música que mais mudou do disco até sua versão final. Era pra ser somente um interlúdio, mas com os sintetizadores do Apollo ela ganhou novos ares.

Julito: Uma música curta e calma e uma letra pra sair da paranoia.

“Vermelho como brasa”

Diego: A última palavra da frase é sempre a que inicia o próximo verso. Psicodelia com violões. Elemento terra. O trabalho do Cohen é latente nessa faixa. 

Julito: Uma canção psicodélica que teve um cuidado especial do Renato. Surgiu uma ideia de letra partindo da frase “vermelho como brasa”, em que a primeira e a última palavra de cada frase se repetiam, dando uma sensação de liberdade, de desbravar novos lugares. Isso tem muito a ver com o que fazemos com a banda desde o começo, cair na estrada, viajar e seguir um fluxo continuo de produção. 

“A casa do colapso nascente”

Diego: Uma canção que a dupla Cohen & Apollo transformou num rochedo poderoso. 

Julito: Quando “vermelho como brasa” entrou no repertório do disco novo e já tínhamos decidido que ele seria dividido em quatro partes, logo veio essa música que soa quase como uma continuação. Há elementos parecidos na base: violões, um MOOG que cresce a cada estrofe e uma drum machine complementando a bateria.

“Olho d’agua grande”

Diego: A jam que tocávamos na primeira turnê pela Europa. Uma música muito densa e com muita pressão como o fundo do mar. 

Julito: A primeira jam que entrou no nosso repertório em determinado ponto da primeira turnê europeia. Paramos de tocar, mas sentimos que combinaria com “Boca do Sol”, então reformulamos e escrevi uma letra. O nome é de uma cidade no interior de Alagoas.

“Boca do sol”

Diego: A continuação do monstro marinho de olhos marejados e boca flamejante. Os mentirosos que prejudicam a nós e nosso mundo hão de ser queimados e suas cinzas jogadas no fundo do mar. 

Julito: Essa música conversa com muitas coisas que já fizemos desde o começo e soa como se fosse diferente de tudo que já fizemos. Ela ganhou uma letra depois de gravada e ganhou outra letra depois e regravamos, “Boca do Sol” seria algo como “no olho do furacão”, que é exatamente onde o país se encontra.

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ARTISTA: BIKE
MARCADORES: Lançamento

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