Quando Phoenix Emociona

“Somewhere” sabe usar muito bem a música da banda de Thomas Mars, marido da diretora Sofia Coppola, em função da história

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Toda a ansiedade em ver Phoenix lançando um novo disco (Bankrupt! sai em abril) me fez lembrar de Somewhere (2010), filme mais conhecido por aqui por seu título original do que por Um Lugar Qualquer, o título que a distribuidora brasileira escolheu. Para sua trilha, a banda de Thomas Mars, marido da diretora Sofia Coppola, foi a escolhida não pelo seu estilo dançante e animado que a consagrou, mas por outros méritos.

Por falar em casamento, família é um dos temas centrais da obra, que conta a história do ator Johnny Marco (Stephen Dorff) e sua relação com sua filha de onze anos, Cleo (Elle Fanning, irmã mais nova/fotocópia de Dakota), com quem ele é obrigado a conviver sob o mesmo teto depois que sua ex-mulher sofre um colapso nervoso. Nas mãos dos hollywoodianos de sempre, essa trama poderia virar uma daquelas comédias bobinhas. Mas, contada por Sofia, a história ganha traços completamente diferentes.

Pra mim, Somewhere é um filme muito sensível. Digo isso no sentido de que todo o roteiro, todo o arco dramático, pode acabar se perdendo com seus longos planos e um ritmo um tanto quanto lento (principalmente para quem gosta de produções mais agitadas ou fragmentadas), mas pode ser percebido emocionalmente.

Johnny é um cara entediado como muitos que conhecemos – talvez mais famoso e rico do que com quem convivemos, mas há muito dele nas pessoas ao nosso redor. O tédio de uma vida com menos sentido do que gostaria, a adolescência prolongada que parece nunca ir embora com medo das responsabilidades da vida adulta e, principalmente, o medo de sentir o peso disso tudo.

É aí que Love Like a Sunset, música que Phoenix colocou no excelente Wolgang Amadeus Phoenix (2009), cai como uma luva. A faixa dupla (com partes 1 e 2) tem por si só uma progressão emocional muito definida, como se levasse quase sete minutos mesmo para que ele consiga organizar seus pensamentos, juntar a coragem e verbalizar o que tem para dizer.

Outro aspecto interessante da trilha é que muitas das músicas são diegéticas – ou seja, estão tocando ali naquela hora e lugar em que os personagens estão. Entre elas, estão faixas de The Police, do trabalho solo de Julian Casablancas, Foo Fighters e até Kiss.

Somewhere é um daqueles filmes muito plástico e muito humanos ao mesmo tempo. Vale a pena sentar e entrar na história para aproveitá-la ao máximo – e a música tem um papel bem importante nesse processo.

Julian Casablancas – I’ll Try Anything Once

The Police – So Lonely

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.