Rico Jorge, do esboço à arte final

“Rascunhos & Resenhas”, novo EP do músico mineiro, vem de experimentações que surgiram desde o ano passado – “edits, variações rítmicas e músicas que talvez ficassem esquecidas”; além de destrinchar o projeto, Rico comenta a influência da música caipira em sua produção e fala sobre desejos, esperanças e criação em meio à melancolia

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Fotos: Isadora Nunes

Rico Jorge nunca quis se fechar em apenas um nicho. Sua ideia (como ele contou em entrevista ao Monkeybuzz em 2019) é sempre expandir e dialogar cada vez mais com o público. Seja em suas produções, nas apresentações em formato live ou DJ sets, em seu trabalho na rádio Veneno ou no desenvolvimento do selo Ser & Ver, Rico cria caminhos para se encontrar – consigo e com o público. “Os universos são os lugares em que vou me encontrando, passeando onde dá, experimentando onde posso e transformando o que consigo. No fim, tudo acaba sendo energia para alcançar mais pessoas com meu som e trazer outras possibilidades vivenciadas”, conta.

Apesar de produzir há 12 anos, o mineiro sempre “batucou” em casa com seus dois irmãos. Sua mãe (felizmente) insistiu em colocá-los para estudar instrumentos e, desde então, o músico mineiro se aprimorou na guitarra e no violão. “Minha mãe sempre usou a música como uma válvula na minha vida, apresentando sons e incentivando a pira de tocar”. O violão, por sua vez, é um artefato fundamental para Rico, dono de uma sonoridade peculiar e envolvente, na qual se unem influências caipiras, a reverência ao terreiro e a percussão afro-brasileira. E tudo se amarra em um encontro entre o electro e as cordas do violão, além de ecos de Minas Gerais e do cerrado.

Rascunhos & Resenhas, seu novo EP teve, segundo ele, um processo de produção dos mais tranquilos. “Juntei alguns sons que surgiram de experimentações desde o ano passado e criei meio que esse catálogo de volumes. Um trabalho despretensioso, com edits, variações rítmicas músicas que talvez ficassem esquecidas na minha cabeça”, explica.

Além de destrinchar o novo projeto em um faixa a faixa, Rico fala de seus desejos, esperanças, da influência do espaço e de como conjurar força criativa em meio à melancolia.

O EP tem elementos de funk, break e baixos de rave UK. Mas fica nítido o lado percussivo, que remete ao sertão/cerrado. Eu também vim do triângulo mineiro e sei que as raízes sonoras de lá são bem marcantes. Gostaria de saber se Uberlândia e região contribuíram para o seu estilo sonoro de hoje. O que você ouvia na infância? Quais são as suas maiores influências da música caipira? O espaço reflete diretamente em você?

Massa demais! Lá [no Triângulo Mineiro] a música caipira e sertaneja dominam toda esquina, passei boa parte da adolescência escutando música caipira porque a minha galera escutava. De Milionário e José Rico, Xavante & Xavantinho, até um lugar mais Tavinho Moura me pegam e carrego até hoje. O espaço me transforma, não consigo estar num lugar e compor coisa de outro, mas minha base permanece ali contribuindo, por mais que eu tente fugir.

Rascunhos & Resenhas foi lançado pelo selo musical Ser & Ver, do qual você é um dos responsáveis principais do projeto. Como surgiu a ideia? Veio de uma vontade antiga ou de uma necessidade? Quais são os maiores desafios de ter um selo? E os benefícios?

Ser & Ver partiu de uma necessidade que até hoje não tenho muito controle. Tentava lançar meu som por outros selos, mas sempre tinha que puxar o som para a ideia da label. Isso é massa, mas me limita, tento construir um lugar de sonoridade própria que dê espaço para somar artistas que pensam próximo. Hoje a gente passa por uma renovação de identidade e tenho domínio dos processos, o que antes era bem foda de realizar sozinho, então vamos ter lançamentos mais frequentes por ai!

A faixa 5, “Aquela do Hilton”, é a sua versão de “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, do Hyldon. Para você, qual a importância de um remix ou diferentes versões de uma faixa? Como você desenvolve sua assinatura e, ainda assim, preservar certas “marcas” da produção original?

Desenvolvemos bastante nossos próprios sons nos últimos anos. Mesmo com a escassez de equipamentos, o nível de possibilidades para você se expressar nas ferramentas aumentou sinistramente. Isso acaba encorajando artistas a criar suas próprias assinaturas sem fixar num edit ou remix pra se conhecer. O que é importante, mas ainda mais importante, é conseguir samplear algo que já é belo e deixar atualizado e tão belo quanto.

Se você pudesse realizar um desejo, qual seria?

No nosso cenário de catástrofe atual queria muito que tivéssemos mais recursos de subsistência na cultura. Queria ver minha galera, tua galera e outras que criam de lugares de resistência, distantes e com alma coletiva na frente do poder para assim conseguirem assegurar mais pessoas.

O que você faz quando tem um “bloqueio” na hora de produzir e compor?

Hoje aprendi os horários e a didática que eu funciono melhor pra criar, então quando dá ruim já levanto e vou fazer outra coisa. Uns anos atrás eu ficava entrando na autodestruição até o trem sair e claramente saía mal. 

Notei uma linha de pensamento nos nomes dos seus lançamentos: “Rascunhos & Resenhas, “Doce & Bença”, “Nó & Vapor”, “Ser & Ver”… Seria uma coincidência? Como é o seu processo de escolher nomes para os seus registros?

Acho que acaba sendo uma coincidência! Mas gosto de palavras e de criar essa dualidade. A parte que mais me divirto é dar nome pras minhas crias.

Como você vê a evolução da sua sonoridade do EP Desgraça Pouca para esse?

O Desgraça Pouca tem uma sonoridade bem densa, complexa e raivosa depressiva do início da pandemia, escuto ele como um limbo. Acho que o Rascunhos & Resenhas é um lugar ainda autoral, mas cru, como se fosse um catálogo do Rico mesmo, várias possibilidades, técnicas e sentimentos.

Você passa uma mensagem sobre força, política, alma e coletividade. Estamos no ano de uma das eleições mais importantes da história do país – como estão suas expectativas e, mais do que isso, sua esperança?

Sendo materialista é difícil ter esperança no momento que a gente vive, mas a melancolia me faz enxergar longos processos e pequenas possibilidades daqui a um tempo. Por agora temos de ser resistência e lutar pelos nossos, cavando onde for e usando, no meu caso, a cultura, o social, o som, o corpo como ferramenta que vire produto e seja escola pro amanhã.

HOJE CEDO AMANHECEU CINZA

Essa é das mais antigas, lembro de criar um beat meio torto na bateria eletrônica e depois entrar com o arpejo e baixo. O que trouxe essa atmosfera nublada foi uma manhã chuvosa e que vai esquentando até o violão chegar, bem melancólico.

REMELEXO

Essa aí já é energia purinha, estralada, timbres altos, agudos que chegam a embaraçar quem escuta de primeira. Usei um baixo meio oscilante que lembra uma coisa UK e fui suavizando o estralo com umas camadas melódicas.

PONTO COLORIDO

Ponto Colorido traz um beat de funk com variações de instrumentação nos pontos, pego um pouco da ideia do funk de BH que é mais melódico e preencho os espaços com instrumentos harmônicos, a guitarrinha chega a ter um pé no reggae.

 PERCUSSIVIDADE BATENTE

Essa é a irmã da anterior, parte dos samples de vocais de funk, baixos como camadas e do nada entram uns synths bem jazz sertão, dá pra sacar?

AQUELA DO HILTON (VERSÃO)

Um dia acordei com essa do Hyldon na cabeça só que numa versão drum n bass. Achei acapella dela até numa qualidade boa, baixei o pitch porque sentia essa voz mais grave chegando e segui a linha das outras, sempre variando os pontos e trazendo o baixo preenchendo a melodia.

 NÓ & VAPOR

Foi a última que produzi. Pensava em algo bem percussivo, mas seguindo também a linha do funk e puxando pra um garage, até pro grime nuns momentos. O synth melódico me remete a um som que tocaram no último festival que participei, um timbre e cadência lisérgica trazendo mais cor. A letra fala sobre ser seu próprio patrão, a mentira neoliberal de que somos responsáveis pelo nosso próprio sucesso.

TÓQUIN

Tenho um carinho por essa, BPM mais baixo, das mais antigas. O Tóquin, que é essa melodia principal, me remete aos caminhões de gás passando na rua tocando músicas monofônicas e tristes. O baixo ajuda nessa atmosfera e o que vai entrando traz um swing dub para composição.

 FECHAMENTO

Foi feita para fechar mesmo e traz de tudo. Linhas de baixo complexas, vocais de funk, synths do sertão, breaks dando o movimento e umas manipulações pra estourar no final. Amo a voz que finaliza.



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ARTISTA: Rico Jorge
MARCADORES: Lançamento