The Internet: Um Organismo Vivo

Obra do coletivo traz viagem incessante e instigante pelo R&B, Funky e Experimental

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Falar sobre o coletivo de rap Odd Future (OFWGKTA!) ser um rico e hiperprolífico universo de referências talvez já tenha se tornado um pleonasmo. Entretanto, esta grande riqueza criativa se comportou de tal forma que, dentro desse microcosmo, surgiu um organismo vivo tão complexo quanto o coletivo: The Internet. Formado originalmente pela vocalista e compositora Syd The Kid e o DJ/produtor/compositor Matt Martians, o grupo foi o primeiro lançamento oficial do selo Odd Future Records, uma estreia que viria a despertar a curiosidade de veículos da mídia e do público geral.

Hoje, sete anos após sua formação, a banda tem uma obra de não apenas três discos fantásticos, mas de parcerias arrebatadoras e projetos solos tão ambiciosos quanto a própria The Internet. Em meio a toda estas produções, é comum se perder durante o êxtase de conhecer sua discografia, e é justamente aí que este guia entra: para organizar um caminho a trilhar pelos recém-chegados ao universo The Internet, bem como uma sugestão para fãs de longa data revisitarem esta rica discografia que se reinventa a cada nova audição.

O macrocosmo: The Internet

O grupo sempre esteve presente produzindo faixas de Odd Future, em parceiras com Tyler The Creator, Earl Sweatshirt e Frank Ocean. Mas sua primeira aventura como The Internet foi marcado pelo tímido e por vezes esquecido Purple Naked Ladies (2011), disco de estreia da banda. Apesar de não tão bem recebido pela crítica, que insistia no argumento de amadorismo e falta de maturidade artística, este é um trabalho essencial para entender o ponto de partida e como as referências do grupo se desenvolveram ao longo dos anos. Há uma aura bastante etérea e volátil nas suas composições e é possível perceber uma experimentação voltada mais para a criação de texturas únicas do que arranjos e estruturas mais fixas; um elemento que perdura por toda a obra conseguinte. Temos aqui o registro mais “psicodélico” de The Internet, um que certamente vale a pena ser apreciado.

2013 foi um ano importante e decisivo para o The Internet, pois foi nele que seu segundo disco fora lançado. Responsável pela descoberta e revelação para cenários internacionais, Feel Good foi melhor aceito pela crítica do que seu antecessor, apesar de ainda ter algumas nuances críticas sobre a falta de unidade e do disco se comportar mais como uma jam session do que um registro formal. De qualquer forma, Feel Good mostrou o talento único dos músicos e o domínio pleno do universo sonora da R&B.

Talvez seja o mais suave dos três trabalhos lançados até hoje, evidenciados com harmonias leves e arranjos bastante entrosados. Nesse momento, o grupo começou a se distanciar mais da proposta inicial do coletivo Odd Future, tornando-se um coletivo por si só já que seus músicos estavam envolvidos com outros projeto também. Este é um ótimo disco para apresentar a alguém que nunca ouviu falar da banda pois é um meio termo entre as diferentes fases da banda. Se esta pessoa preferir algo mais experimental, volte uma casa e escute Purple Naked Ladies. Entretanto, se ela preferir um R&B concreto e sem muita improvisação, avance uma casa e aprecie Ego Death (2015).

Feel Good marca a grandiosidade alcançada pelo grupo. É certamente o trabalho mais acessível da banda e o maior considerando sua duração, o que permite ao ouvinte uma imersão ainda mais profunda na sonoridade. Toda aquela devoção a R&B se torna menos radical e ouvimos uma maior abertura para outro gêneros como o Hip Hop, Trip Hop e um pouco de Experimental. Com esta nova grandeza, faz sentido o número de parcerias ser maior, sendo cada faixa uma oportunidade para levar sua sonoridade a outros lugares com a ajuda de Vic Mensa, KAYTRANADA e Janelle Monáe. É curioso perceber como a banda não abre mão das suas referências e procura novas sonoridades dentro de sua zona de conforto. Portanto, aquela suavidade de Feel Good e o experimentalismo de Purple Naked Ladies ainda se mostram presentes, porém vistas sobre novas perspectivas e renovando-se a cada audição.

Os microcosmos dentro de The Internet

Seria ingênuo pensar que tamanha criatividade conseguiria se manter contida em apenas um projeto e, assim, a banda começou a mostrar a diversidade de seus trabalhos solos, tão grandes quanto The Internet. O produtor Matt Martians foi um dos primeiros a se aventurar em uma empreitada solo com seu disco The Drum Chord Theory (2017). O fator experimental é bem forte neste trabalho, evidenciando que a parte maluca e caótica do grupo vem em peso influenciada pelo músico. Quando escutamos somos aguçados a sentir certa psicodelia, mas ela só é construída pela junção e agrupamento das faixas no mesmo contexto, quase como se fosse uma viagem e Matt o guia que nos conduz livremente para onde quiser. É certamente uma experiência interessante para aqueles que se apegam à parte experimental de The Internet.

Se Matt Martians compõe a faceta experimental, Syd traz em peso as referências do R&B. Seu disco solo Fin (2017) pode não apresentar aquela dinâmica mais conhecida do gênero, de nomes como The Soul Quarians ou D’Angelo, mas é clara a influência e a importância que estes nomes conservam para a jovem cantora, principalmente de Erykah Badu, como revelado por Syd em uma entrevista. Mesmo assim, temos um trabalho que é eclético pois traz um universo íntimo da compositora e isso fica evidenciado pelas letras sinceras e de aspecto confessional. Assim, diferente de Matt Martians, Syd também utiliza o peso lírico para compor suas músicas, o que pode ser um diferencial para quem se apega a romance e desilusão descritos nas letras de The Internet.

Por fim, temos o projeto solo de Steve Lacy, o caçula de The Internet. Para todos os efeitos, Steve é um daqueles nerds que passam horas explorando sonoridades diferentes e timbres precisos para suas composições. O compositor e produtor ganhou grande destaque após colaborar com nomes como Kali Uchis, J. Cole, Kendrick Lamar e também por mostrar em um vídeo produzido pela Wired que quase tudo que compõe é feito em aplicativos de seu celular. Seu disco pode ser encarado como um meio termo entre os projetos solos de Syd e Matt Martians. Seu EP autointitulado de 2017 traz um groove cativante típico da R&B, porém temperado com timbres menos convencionais e com arranjos de abordagem um pouco mais Pop. Ele parece ser o nome que dosa os dois lados da moeda, uma espécie de moderador do coletivo que deixa os sons harmonizando de forma plena. Talvez por isso seja tão chamado para contribuir em produções de outros artistas, entendendo as necessidade de cada nome e aquilo que se deseja transmitir. É um bom primeiro passo para se começar a escutar os projetos solos de The Internet.

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ARTISTA: The Internet
MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.