Vale a Pena Deixar de Ouvir Bandas por Rótulos?

As palavras usadas para denominar uma banda não necessariamente falam sobre sua qualidade

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Nem sempre a indústria da música posiciona um artista de acordo com seu talento. O investimento (e a expectativa em relação a seu “produto”) é tão grande que os olhos dos empresários são, em sua maioria, para mais para o retorno do que pela arte em si. Não é raro vermos, assim, artistas mudarem de gênero de um álbum para o outro, escolherem single fora de sua identidade, ou adotarem comportamento distante dos quais o fizeram estar ali diante de tantos admiradores. O que acontece é que as vezes os grandes moldam ou até nós mesmos rotulamos os projetos e os botamos na prateleira do esquecimento, como se aquilo fosse um fator determinante para que a qualidade não existisse mais. Perdemos então a oportunidade de estar em contato com muita coisa boa e essa é a minha intenção desse texto.

Uma dessas prateleiras é a “comercial”. Muitos amantes de música entram num ciclo de buscas incessantes (e equivocadas) de bandas que o que denotaria qualidade é a distância do projeto em relação à sua casa e seu anonimato em relação a maioria dos mortais. Isso tá longe de ser verdade. Muitos projetos que chegaram em ascensão, um dia foram de garagem. Ganharam seu espaço pelo mesmo motivo que fizeram uma das bandas mais desconhecidas do seu Rdio ganhar também. Pensando nisso que peguei uma banda que encaixa bem no que eu tô falando.

OneRepublic tem doze anos de carreira e surgiu no MySpace. Seu álbum de estreia veio em 2007, quando o grupo estourou com Apologize, chegando à 14ª posição na Billboard dos Estados Unidos. A banda já teve música tema na Copa do Mundo em 2010 (Marchin On) e vários singles no Top 20 da Billboard. Ao todo são três CDs, todos muito bem produzidos, classificados e com referências muito bem trabalhadas, apesar de serem claramente feitas para rádios. É difícil catalogar OneRepublic em gêneros, principalmente por conta de sua preocupação musical de trazer sensações, mas perambula entre as melodias e letras bem pensadas de The Fray e U2, um bom Pop Rock britânico. É possível obervar, principalmente em faixas como Tyrant e Prodigal, como há planejamento das layers entre os instrumentos e a quebra entre a primeira e a segunda parte da melodia. É de uma delicadeza que nos lembra os primeiros CDs da carreira do Coldplay, apesar de hoje ter também o mesmo tom comercial. Nos álbuns atuais, em músicas como Can’t Stop e Made For You, apesar de mais agitadas, OneRepublic continua trazendo a mesma preocupação musical com várias camadas vocais e instrumentais. Uma banda para se respeitar e continuar seguindo.

Como já citado aqui, não poderia deixar de falar de Coldplay. Apesar do grande respeito dos empresários e produtores, ter ganhado prêmios e rechear festivais como atrações, ainda recebe muitas críticas, principalmente nos últimos anos pra cá, por mudar tanto a identidade melancólica e sensível de suas músicas para um som comercial desde Viva La Vida até seu álbum mais recente, Mylo Xyloto. Independentemente dessa mudança acontecer, assunto que já debatemos aqui no site, há de se convir que, apesar de toda gama radiofônica do quarteto, existe uma qualidade absurda se formos pegar, principalmente, Parachutes ou A Rush Of Blood To The Head. Os riffs arrastados eram de fácil harmonia com os vários falsetes poéticos de Chris Martin, o que nos levava e trazia de atmosfera em atmosfera delicadezas presentes em Square One, X & Y, Spies e Amsterdam, dentre várias.

Partindo agora para a prateleira dos rótulos, chegamos a um assunto que vem dando o que falar no site. O estilo Emocore causou bastante barulho no Brasil no começo dos anos 2000 e, junto a isso, carregou ódio por conta do time contrário. Quem se julgou resolvido o suficiente pra não se emocionar com as letras melosas julgou e até hoje não respeita bandas que cresceram e estouraram naquela época. Grande besteira! Fall Out Boy estourou com uma série de outras bandas com talento e com pé no preconceito (como My Chemical Romance e Panic At The Disco, por exemplo). Se ouvirmos o som a fundo dos caras, existe toda uma escola de guitarra por trás, riffs muito bem feitos, uma estrutura impecável, letras bem feitas e preocupação com as variações de ritmo.

Saindo agora de terras internacionais e olhando pro nosso umbigo, conseguimos boas opções para nossa discussão. Ainda na prateleira dos rótulos, Fresno foi um dos projetos daquela safra e que somente hoje começa a tirar resquícios negativos do rótulo botado pelo público na época. O que ficou diante disso foi muito talento e um time de músicos de verdade que sempre existiu. Com Cemitério das Boas Intenções, Fresno saiu da superficialidade e tratou de temas muito mais pesados do que simples relacionamentos amorosos, o que refletiu diretamente no instrumental, bebendo de fontes de Muse ao Industrial. Com Infinito, a banda se distancia um pouco do Rock grudento e com ar de sofrimento que a tornou famosa e se aproxima cada vez de referências que estouram bandas para o mundo todo, com preocupações vocais e instrumentais que poucas bandas tem no país. É possível enxergar isso com a série de projetos paralelos que Lucas Silveira (o vocalista) toca sem que transpareça dificultoso. Sirsir é seu alterego no Eletrônico, que traz uma veia com muita força e guitarra no Dubstep, por exemplo.

Fugindo um pouco do Emocore e passeando por gêneros um pouco mais brandos, chegamos ao Popular Brasileiro que ainda é mal visto por muitos. Maria Gadu estourou após Shimbalaiê ganhar espaço em mídia nacional na novela Viver a Vida. Os versos grudentos tiraram a cantora do anonimato, mas poucos realmente se dispuseram para conheceram o que estavam por trás dos versos que, sim, foram compostos por ela quando tinha apenas dez anos de idade. Maria Gadu, que já foi indicada duas vezes ao Grammy Latino, tem um timbre muito peculiar e trabalha muito bem sua veia artística trabalhando a maioria dos instrumentos que grava. A cantora sai do senso comum, traz discussões interessantes em suas letras, aborda tudo de uma forma diferente. A história de Lilly Braun, Laranja, Encontro e Altar Particular estão aí pra provar isso.

Essa lista poderia sem bem mais longa, todo mundo teria mais um pra indicar. Mesmo porque todo mundo tem algum artista “vergonha” que não é tão vergonhoso assim. O que acontece é que, vergonha por vergonha, muita coisa se salva. Quanto mais se tem contato com a música, mais percebemos que tem música de qualidade ali, do nosso lado, e que nem sempre o que tá lá, do outro lado do mundo, mega escondido e no anonimato, significa que tem qualidade e referência. Não é certo julgar um artista a partir de seus singles, mesmo porque nem sempre o que ele tem de melhor para oferecer é o que sua gravadora julga como melhor para se comercializar. Nem sempre o que você ouve nas rádios ou televisão é o que a banda quer de fato apresentar. Se dê a oportunidade de escutar o outro lado, experimentar não doi e você corre um risco enorme de apenas encontrar um material que vai fazer muito bem para os seus ouvidos.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King