Vinte Anos Do Universo Ilimitado de “Doolittle”

Segundo disco de Pixies é a obra definitiva e imortal da banda

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Já comentado por vezes em artigos aqui no Monkeybuzz, o “Teste do Segundo Disco” é algo que toda banda acaba passando em algum momento de sua carreira. Saber se o trabalho de estreia foi algo único ou se o conjunto em questão ainda tem algo a mostrar é algo bem difícil de ser administrado. Poderíamos citar exemplos e mais exemplos de cada caso, porém o aniversário de 20 anos do lançamento de Doolittle, da eterna Pixies, nos traz à tona um caso específico: o de um lançamento que consumiu todo o potencial da banda, produzindo assim, sua obra definitiva e o maior exemplo bem sucedido do tal “Teste”.

A banda analisada sob a ótica pré-Doolittle poderia ser considerada mais uma banda de Rock Alternativa do final dos anos 1980 e começo dos 90. Não que sua produção até então não fosse relevante (longe disso, afinal, o embate entre Surfer Rosa e o disco aniversariante é um que persiste até hoje entre fãs da banda). Mas, esta camuflagem da banda pré-Doolittle é justificada pelo explosivo sucesso de vendas que o segundo disco trouxe. Singles como Debaser, Monkey Gone To Heaven e a famosíssima Here Comes Your Man garantiram um status de genialidade e reconhecimento incomparável com seu primeiro disco.

Mas, alguns singles não são suficiente para conferir tamanha importância de duas décadas a uma obra. Até mesmo a inclusão da faixa Where Is My Mind, do primeiro álbum, na trilha sonora do filme Clube Da Luta (1999) não foi capaz de tirar o título de disco mais vendido da banda. Então, o que Doolittle tem de especial? Para responder esta pergunta é preciso analisar as músicas a fundos, fato que acaba refletindo em dois aspectos da personalidade “pixiana” de composição: as letras e a estrutura instrumental.

As letras de Black Francis ganham maior destaque neste disco por abordarem uma pluralidade de temas que, a príncipio dão um charme único a cada faixa e, assim, parecem ser bem distantes umas das outras. O surrealismo de Hey!, os jogos de palavras em Monkey Gone To Heaven, a abordagem fantástica em Wave Of Mutilation e a narrativa de Crackity Jones elevam a perspectiva lírica de Francis a um outro nível, fato que ocorria em considerável menor escala em Surfer Rosa. Mesmo com esta aparente distância dos temas abordados, fato que poderia causar certo estranhamento e menor coesão no resultado final, a banda consegue domar com maestria este universo por meio das faixas instrumentais, amarrando e dando coesão completa a Doolittle.

Você pode muito bem achar que esta alternância suave/agressiva nas composições de Pixies é algo que pode ser feito no automático, mas este é um dos maiores trunfos da parceria Black Francis e Kim Deal. A suavidade vocal da baixista, em Monkey Gone To Heaven, alterna para uma agressividade gutural do vocalista que é construída de uma forma que não parece algo forçado. Tudo é natural. Todo este universo surreal e labiríntico é perfeitamente compreensível. Além deste exemplo, a balada Pop de Here Comes Your Man, o western obscuro de Silver e a semiinstrumental La La Love You contribuem para evidenciar o auge artístico da banda.

A importância dele perpetua até hoje. De fato, é um disco referência para muitas bandas, como Nirvana, PJ Harvey e Radiohead, mas o peso dele não vir porque eles influenciaram grandes nomes. O universo Doolittle basta-se, podendo ser intensamente explorado, sem se esgotar de significado e belezas.

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ARTISTA: Pixies

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.