Você É DJ de verdade?

Tocar é um dom ou é necessário muito empenho para que se consiga ser um profissional da categoria?

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Sempre fui daqueles que, durante uma festa de quinze anos ou um churrasco entre amigos, ficava de olho no que o DJ fazia com a música. Por ter essa paixão dentro de mim que, até então, nem sabia ainda que era uma paixão e que seria minha profissão, era geralmente o indicado para escolher a playlist de churrascos, festas, muitas das vezes socorria amigos que precisavam de determinado tipo de música por “entender mais”. Eu não entendia por que tanto barulho em cima disso, mas percebi no decorrer do tempo que poucas pessoas tinham sensibilidade com a música como eu tinha, ali eu acho que começava minha paixão pela música.

Nesse meio tempo, algum louco disse pra eu subir na cabine. Depois desse dia, outro evento já era marcado, num lugar muito maior. Eu percebia dentro de mim uma necessidade de aprimorar o que eu sabia – ou melhor, eu não sabia nada. Foi quando comecei a estudar. CDJs, mixer, técnicas de mixagem. No final das contas deu certo, mas ali só começava a experiência com pista, ler as pessoas diante de mim e o que elas precisavam ouvir. Talvez por ser um perfeccionista nato, nunca fiquei satisfeito com o trabalho, sempre corri atrás de técnicas melhores e o mais importante: sempre colava nos DJs que admirava, olhava o set como se estivesse filmando. Fui atrás e aprendi “na tora”. O que eu pensei ser uma atitude corriqueira para quem quer seguir o trabalho, com o tempo percebi que eu era uma exceção.

O que é necessário para ser DJ? Hoje em dia, quase nada. A profissão tá com tão pouco credibilidade que o que mais tem por aí são (sub)celebridades “atacando” de DJ. Não só aqueles ex-reality-shows, mas também indivíduos populares em determinada cena ou até “famosos” da Internet. Essas pessoas acharam na cabine uma forma de ganhar dinheiro, popularizar uma festa, dar dinheiro para o produtor… abaixar o nível e envergonhar a classe. Geralmente nesses eventos, o público praticamente determina o set do DJ, sendo de forma literal (fazendo aqueles pedidos inconvenientes na cabine) ou fazendo cara feia quando se toca alguma música que não esteja bombando na rádio. Geralmente esse tipo de pessoa é tão refém da sua pista que nem se sente seguro o suficiente para agir como um DJ. São aqueles que passam de uma música para outra com “fade out” e “fade in”, exageram nos filtros de flanger ou fazem scratch sem saber, sabe? Ou pior, aqueles que dão play e ainda têm coragem de se intitularem como DJ.

Mas qual a real concepção de DJ? Isso é realmente muito relativo. A “velha guarda”, ou aqueles que ainda tocam dependendo de sua case e seus CDs, criticam aqueles que tocam com seus Macs e o sync ligado do Traktor. E esses rebatem a crítica defendendo que, além da comodidade do HD de não carregar peso, usam da segurança do programa para poder focar o tempo em efeitos e liberdade de trabalhar com mais canais ativos. Particularmente, em qualquer uma das vertentes, é bonito ver quem realmente sabe usar esses atributos ao vivo, seja mixar no ouvido ou usar a criatividade para impressionar a pista com muitas misturas e samplers provenientes de softwares.

Hoje, uma pista de um festival ou de baladas anda tão individualista que eles só querem ir para se divertirem e pouco prestam atenção nas habilidades do profissional, no entanto que a escolha do set seja certeira. Então, o DJ tem a responsabilidade de estudar o suficiente para que se matnenha viva a profissão, sabendo mixar (trocar de uma faixa para outra) no tempo certo, sem enjoar os ouvidos ou machucá-los com uma passagem absurda.

Quem pensa que essa crítica é só feita em escala micro está muito enganado. Existe uma discussão enorme em cima de grandes nomes, principalmente do EDM, acerca do que é talento ou só performance. Como quando vemos vários produtores atrás de uma cabine para apresentar um próximo single. Todos eles, em um mesmo momento, estão tocando o mixer ou a CDJ criando a doce ilusão de que seus dedos, ali, estão alterando algo no som. Bem, até poderia estar, mas não é o caso na maioria das vezes. DJs são geralmente assistidos por milhares de pessoas em festivais e, por isso, se veem na obrigação de passar uma ideia de que estão focados e ocupados fazendo alterações ao vivo em suas músicas. Quem entende, percebe que não passa de um teatro e, quem não entende, pode ver esse vídeo abaixo.

O que alguns poderiam argumentar é que a maioria desse pessoal estourou como bons produtores, e não bons DJs. E tem razão. Esses tiveram que ter uma aula de discotecagem e enfrentar grandes públicos quando na verdade sempre produziram no isolamento de seus quartos. Dessa forma, fica difícil ler pista, surpreender diante de uma pickup ou até mesmo fazê-la muito útil. Mas também tem aqueles que levam a experiência a outro nível. Além de incríveis DJs, fazem questão de mostrar ao vivo como a música foi construída. É o caso de projetos como Disclosure (com percussão, sintetizadora, baixo), The Bloody Beetroots (com guitarra, baixo, piano e bateria), Soulwax (como banda completa), Purity Ring, e outros. Isso dá credibilidade e respeito. Dar a cara a tapa é o que chama atenção do público. Observar que os artistas correm riscos e constroem uma atmosfera musical do zero motiva, engrandece e esquenta qualquer público.

Mas por que em cada pedra que se levanta se acha dois, três, cinco DJs? A cena tá aquecida. Estudo recente apontou que o EDM gerou $6.2 bilhões de dólares em 2014. A cada ano, surgem dezenas de novos festivais. A cada dia que passa, artistas consagrados do gênero ganham mais milhares de adeptos em suas redes sociais. Produtores já entenderam a importância desse público e seu poder de compra. Cada vez se investe mais em selos para que se ache mais talentos. Os aspirantes estão loucos atrás de uma oportunidade para entrar nos charts. E essa velocidade toda faz com que a música se torne vazia, como bem a crítica defende, porém mais rentável do que nunca.

Entretanto, somente grana ou popularidade não te bota no topo das paradas. Muitos embarcam nessa pensando ser uma estrada fácil, mas poucos têm o que é necessário para se destacar. É tudo uma junção de talentos, desde bom produtor a bom leitor de pista, pesquisador de tendências, saber o que funciona e o que pode ser inovador. Isso tudo contando com a sorte de estar lançando a melhor faixa na hora certa. E ainda tem quem ache que qualquer um pode se intitular como DJ. É uma profissão que, assim como outra qualquer, demanda tempo, muito estudo, muitas noites sem dormir, networking certo, determinação e persistência constante. São influências e diversas fontes diferentes para se apropriar até que se crie algo do zero. E sair da estaca inicial para um sucesso é o que diferencia os meninos dos homens.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King