5pra1: Gal Costa

Uma seleção para tentar traduzir a inclassificável cantora baiana, uma voz fundamental da nossa música

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Fotos: Thereza Eugenia

A série 5pra1 apresenta e destrincha cinco discos que servem como primeiro mergulho na obra de um artista.

 

 

Dizer que Gal Costa é inclassificável e livre de rótulos é cair num clichê que não cabe a uma artista como Gal Costa. Mas, ao mesmo, tempo não basta chama-la de “transgressora”, defini-la como “tropicalista” ou dizer que “seu timbre é único”. Tudo isso é real – e insuficiente. Como retratar sua obra, então? Do início no Tropicalismo no final dos anos 1960, ao lado dos amigos e parceiros eternos Caetano Veloso e Gilberto Gil, aos experimentos eletrônicos ao lado de uma nova geração nos anos 2010, sua carreira teve muitas fases.

Grande parte delas brilhante – o que torna difícil retratá-la em cinco discos. Em 1969, a cantora ousou com seu disco mais experimental, Gal, aflorado pela guitarra de Gil. Em 1973, o intimista Índia tinha uma capa rock star que chegou a ser censurada e causou ofensas à cantora nas ruas deste país conservador. Em 1979, Gal Tropical e suas mais de 1 milhão de cópias vendidas provaram que ela poderia ser um sucesso radiofônico absoluto. Também passou por períodos menos inspirados, de meados de 1990 a fim dos 2000, quando flertou com um revival da Bossa Nova e a insistência numa MPB mais quadrada.

Nenhum desses discos, no entanto, entrou para a lista. Nas escolhas daqui, vê-se (ou ouve-se) a Gal Costa mais multicultural possível, tão brasileira quanto sua música sempre foi. A Gal Costa que passava do Samba ao Forró ao Rock, sempre com arranjos próprios e na companhia de alguns dos maiores nomes da música brasileira. Talvez Gal Costa seja mesmo inclassificável, mas se for para traduzi-la (ou tentar decifrá-la) em cinco discos, são estes aqui:

 

Gal Costa (1968)

Imagina, aos 24 anos, ter parte dos maiores compositores do Brasil (do planeta?) à disposição para gravar seu primeiro disco sozinha? Essa era a situação da jovem Gal em 1969. Depois de um EP (Maria da Graça, 1965), a estreia com Caetano (Domingo, 1967) e a participação em Tropicália ou Panis et Circencis (1968), a cantora fez seu primeiro voo solo nas asas do Tropicalismo: a direção é de Rogério Duprat, que divide os arranjos com Gilberto Gil (também no violão) e músicas são de Caetano, Tom Zé, Jorge Ben e Torquato Neto – de quebra ainda tem Roberto e Erasmo Carlos.

Caetano, o amigo e admirador, compôs cinco das doze faixas. “Não identificado”, “Lost in the Paradise” e “Baby” (já presente no Tropicália) trazem o tempero tropicalista com a guitarra de Lanny Gordin e as letras que traduzem a passagem dos 1960 para os 1970 com seus esoterismos, experimentos e inquietações, uma busca permanente pela liberdade. “Saudosismo” e “Divino, Maravilhoso” dão o tom político do país afundado em uma ditadura militar, que se endurecia. O disco provoca, talvez mesmo sem querer: Gal mistura a crítica “Namoradinho de Portão”, de Tom Zé, que zomba da sociedade do espetáculo, a duas músicas de Roberto e Erasmo (“Se Você Pensa” e “Vou Recomeçar”), os reis da Jovem Guarda – a primeira, em uma gravação ainda mais ousada do que a já excelente versão original, lançada um ano antes.

Se fosse para colocar dentro de caixas, este poderia ser considerado um disco de Rock. É a roupagem que até “Sebastiana”, clássico do xote nordestino, ganha com Gil. Tem, também, dois samba-rocks de Jorge Ben, “Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)”, que Gal canta com Caetano no eu-lírico feminino, e “Deus É O Amor”. Com um repertório que coloca à prova o jargão chinfrim de que nada nasce clássico, Gal Costa consegue ser transgressor e Pop, universal e experimental, mas ainda extremamente brasileiro, a piração na medida certa para abalar e estourar.

Destaques: “Divino, Maravilhoso”, “Se Você Pensa” e “Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)”

Fa-Tal: Gal a Todo Vapor (1971)

Gal Costa sobe ao palco com um top do tamanho de um biquíni e uma saia de pano longa e aberta. Nos piores anos da ditadura, ela não tinha letras a serem censuradas nem precisou fugir do país como parte dos amigos, mas sofria repressão por sua ousadia estética. A imagem de mulher forte e independente, que tocava violão, dançava e rodava o país com os ornamentos que bem entendia não compactuava com os costumes dos anos Médici. É neste contexto que ela, “só de pirraça”, como já disse, montou seu maior disco.

Gravado ao vivo em diferentes apresentações no Rio de Janeiro, em 1971, Fa-Tal mostra a cantora em seu auge criativo, brincando com ritmos, com arranjos, com a voz. O repertório, da música tradicional à MPB contemporânea, é dividido entre voz e violão e com a banda, todas com adaptações próprias. Nada ali seria ouvido como antes: a cantiga nordestina “Fruta Gogóia” se torna uma prece; o xote “Assum Preto”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, um lamento sombrio; os sambas “Charles Anjo 45” e “Antonico” viram acalantos, e “Falsa Baiana”, Bossa Nova. “Sua Estupidez” (Roberto e Erasmo) tem sua melhor versão nesta primeira metade.

O voz & violão é lindo, mas a excelência vem com a banda – marcada na transição da versão de 8 minutos de “Vapor Barato”, de Waly Salomão, que dirigiu o show, e Jards Macalé. Com arranjo e guitarra de Lanny, “Dê Um Rolê”, dos Novos Baianos, “Pérola Negra” (Luiz Melodia) e “Chuva, Suor e Cerveja” (Caetano) dão a sensação de que tudo que a baiana quisesse fazer naquele palco naquele momento, conseguiria – o auge se dá em “Mal Secreto”.  A obra expõe ao mundo a divindade (ou o demônio) da sua presença com excelência rítmica em todos os gêneros apresentados. Fincar qual é a maior cantora do planeta não é uma tarefa fácil, mas Fa-Tal dá a Gal um lugar na mesa para a queda de braço.

Destaques: “Sua Estupidez”, “Dê Um Rolê”, “Pérola Negra” e “Mal Secreto”

Cantar (1974)

Gal vinha de uma série de sucessos quando decidiu fazer um álbum mais groovado. Se os discos anteriores tinham marcado, em especial, a transgressão estética e comportamental, é no auge da sua voz que ela vai pulando de ritmos. Cantar é seu álbum mais musical. Se Caetano aparece mais uma vez – dessa vez, além de autor, produtor – a obra pode ser considerada uma imersão da cantora em outro gênio da música nacional: João Donato, responsável pelos arranjos com Gil.

Donato não só toca piano em parte das músicas como dá o tom do disco. A naturalidade com que a baiana se engendra no swing do acreano-carioca passa a sensação de que ela nasceu para cantar “A Rã” ou que “Flor de Maracujá” e “Até Quem Sabe” existem com o único objetivo de serem entoadas na voz dela, com o pianista empolgado ao fundo (“eô eô!”).

Este balanço rege toda a obra: da viola poderosa do Gil, que abre o álbum em “Barato Total”, à melancólica “Lágrimas Negras”, de Jorge Mauner e Nelson Jacobina, que aqui ganha um lamento bucólico, mas não soturno. Cantar talvez seja o álbum mais alto astral de uma cantora alto astral. Gal, em seu auge, sabe que faz o que quer da voz, por isso provoca, brinca que poderia desafinar, e move a orquestra regida por Donato. Ouvi-la em Cantar é ter a certeza de que nada nunca mais vai dar errado.

Destaques: “Barato Total”, “Flor de Maracujá” e “Lágrimas Negras”

Água Viva (1978)

Misturar ritmos é algo que a baiana fez durante toda a carreira. Embora alguns álbuns possam ter alguma linguagem predominante, sua discografia sempre passou do Xote ao Rock, da (ampla) MPB ao Jazz. Água Viva é o mais bem-acabado exemplo disso. Abre com o samba “Olhos Verdes”, passa pelo baião animado “De Onde Vem o Baião” e fecha com o forró-rock “O Gosto do Amor”, do Gonzaguinha, gravada com ele.

Como sempre, Gal dá às músicas arranjos que lhe caibam. A marchinha de carnaval “Qual É, Baiana?” aqui vira um Rock. Em “O Bem do Mar”, samba de Dorival Caymmi como todo samba de Dorival Caymmi, ela deixa o tom de acalanto predominar. Até quando não foge das roupagens anteriores, como em “Pois É” (Chico Buarque e Tom Jobim) e “Paula e Bebeto” (Caetano e Milton Nascimento), já tão populares com outras vozes poderosas, como de Elis Regina e o próprio Milton, ela dá sua cara própria, seu jeito Gal Costa.

Água Viva foi seu primeiro disco de ouro e, no final dos anos 1970, já dava os sinais da cantora mais Pop que viria a se tornar nos anos 1980 (algo que aparece mais timidamente em Caras & Bocas, de 1977). O álbum é uma demonstração dessa habilidade de passar um verniz Pop em propostas mais intricadas, como o bolero provocador “Folhetim”, do Chico – e tem, de quebra, a gravação definitiva de “Mãe”, uma das mais bonitas músicas de Caetano. É a Gal Costa, que, inserida no mercado musical de produção industrial, sabe para onde rumar (“E, se tiveres renda; Aceito uma prenda; Qualquer coisa assim”), sem perder a excelência.

Destaques: “Folhetim”, “Mãe” e “O Gosto do Amor”

Recanto (2011)

Recanto é a reinvenção de Gal Costa no século 21. Se não ganhou o prestígio de outros trabalhos do início da carreira, a parceria com Caetano – compositor, sozinho, de todas as músicas – marca o reencontro da cantora com um público mais jovem e uma sonoridade mais ousada e eletrônica, que seria repercutida nos trabalhos seguintes, Estratosférica (2015) e A Pele do Futuro (2018), embora não com a mesma qualidade. É uma mudança radical e positiva de postura frente aos trabalhos da década anterior, com sonoridade Bossa Nova – cantos saudosistas nos anos 2000.

Produzido por Caetano e o filho Moreno, afilhado de Gal, a obra retoma de cara a cantora explicitamente contrária à acomodação. Em “Recanto Profundo”, Gal canta a sua trajetória na música. Poderia ter sido tranquilamente gravada ao piano, com notas suaves. Mas não. Ela canta “Só Deus sabe o duro que eu dei; Mulher, aos prazeres, futuro; Eu me guardei” sob uma batida digital que desperta estranheza no começo e é encerrada com violão de chorinho. A inventividade com os arranjos reverbera por todo o trabalho: na contundente “Neguinho”, na poesia desestruturada de “Autotune Auterótico” e na suave “Mansidão”. Também brinca com outros ritmos: o Rock de “Cara do Mundo”, o Funk em “Miami Maculelê” e a toada de prato-e-faca em “Segunda”, maior sucesso do disco.

Parte do público antigo pode até ter estranhado a sonoridade enquanto novos ouvintes passaram a apreciá-la, mas Recanto mostra, na verdade, que o novo para Gal nunca é novidade. É exatamente na inquietação e na provocação que ela se consagrou. A baiana sempre entrou na roda para não ficar parada. O disco não deixa de ser uma revisão de fases da sua carreira, como indica a canção de abertura – mas não como mera homenagem. Como uma bússola que não para de indicar novos caminhos. Seja aos 20 seja aos 70, lá está ela: reinventando, criando, cantando.

Destaques: “Neguinho”, “Miami Maculelê” e “Segunda”

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ARTISTA: Gal Costa