“Aladdin Sane”: 40 anos de um clássico de David Bowie

Seja pela capa, persona adotado pelo camaleão ou simplesmente pelas suas faixas, esse icônico disco, que completa quatro décadas, merece um lugar de destaque no Hall da fama do Rock and Roll

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O disco que completa no dia 13 de abril seus 40 anos é o clássico Aladdin Sane, mas sinto que devo retroceder no tempo um ano antes de seu lançamento e começar falando se seu antecessor. Em 1972, nascia o personagem mais famoso e duradouro de David Bowie: Ziggy Stardust – e, com ele, o também clássico The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. Nessa obra, o camaleão encontrava em seu alter-ego andrógeno e alienígena a vazão para tratar de problemas terrenos e pessoais regados a muito Rock Roll e apresentações extremamente performáticas.

Se The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars foi o auge da fase Glam de Bowie, Aladdin Sane foi o ponto em que o músico a transcendeu. Ziggy Stardust continuava vivo, porém desta vez o alter-ego alienígena havia se estabelecido de vez na terra e caído de amores pela America do Norte, mais especificamente pela cidade de Nova York. O resultado desta mudança, ainda que sutil, na personalidade de Ziggy pode ser percebida pela vibe jazzística e pelo teor quase esquizofrênico das letras de muitas das canções desta incrível obra.

Esse encantamento pelo país é o que move a lírica esquizofrênica de Bowie neste álbum – que foi escrito durante a turnê de 1972 pelos EUA e narra muitas das suas experiências na nova terra. A vontade de ser um “estranho” naquele mundo, tocando suas músicas nos shows, e de se adaptar a ele, “andando de ônibus como todo mundo”, como descreveu Nicholas Pegg em seu The Complete David Bowie, é que cria essa dualidade – e que pode ser vista também na arte que estampa o disco. Essa tal “insanidade” aparece até mesmo no nome da obra: Aladdin Sane é uma corruptela de “A Lad Insane”, algo como “um cara insano”.

A arte da capa é outro grande pilar deste álbum. A fotografia, tirada por Brian Duffy, da face de Bowie maquiada com um raio a dividindo ao meio é um dos símbolos mais icônicos dos anos 70 e da história do Rock. Não à toa, este é um dos looks mais copiados pelos fãs do músico ao redor do mundo. Uma curiosidade quanto a ele é quem apesar de muito famoso, Bowie nunca o usou em shows.

Mas, agora chega de curiosidades e vamos ao que interessa: a música. A faixa de abertura, Watch That Man, é um Rock and Roll classudo regado a pianos, saxofones e backing vocals femininos que na época renderam inúmeras comparações com o disco Exile on Main Street, da The Rolling Stones – e, de fato, ela foi feita para ter o teor bluseiro de Jagger e companhia. Como um tempero a mais nesta, mas uma parte quase que essencial nas demais, Mike Garson assume o piano, que ditará o clima do Jazz e alguns momentos o do Cabaret em Aladdin Sane.

A faixa-título é a em que Bowie começa a transgredir o Glam Rock de seu disco passado e a se libertar do estigma de músico de Rock – o que fica evidente nos anos 90 na fase eletrônica do músico. Garson novamente dá um show ao piano, improvisando sobre a melodia que se repete durante toda a canção. O saxofone de Bowie também dá um charme especial para uma das músicas mais icônicas do cantor.

Apresentada ao público uma semana antes do lançamento do álbum, Drive-In Saturday é altamente inspirada no Doo-Wop e tem uma das letras mais representativas do álbum. Porém esse foi um single que mesmo atingindo boas posições nas paradas, nunca foi parar em um Greatest Hits do músico. Panic In Detroit também tenta novamente quebrar a aura roqueira de Bowie ao adicionar ritmos caribenhos ao seu usual estilo. A instrumentação é completa pela guitarra de Mick Ronson, que desempenha um papel fundamental nesta faixa.

“Crack, baby, crack, show me you’re real / Smack, baby, smack, is that all that you feel / Suck, baby, suck, give me your head / Before you start professing that you’re knocking me dead” esse é refrão de Cracked Actor, um dos mais memoráveis e transgressores de todo o disco. Sua letra trata de prostituição e drogas, enquanto o Blues Rock, mais uma vez bem próximo ao de Jagger e companhia, cria o plano de fundo para a história que Bowie nos conta.

O lado “cabarezístico” do músico aparece no lado B de Aladdin Sane. Time é melodramática e poética, e mais uma vez conta com o piano como peça principal. O solo estridente de Ronson e a instrumentação extra deixam a faixa ainda mais performáticas. Prettiest Star foi originalmente um lado B do single para Space Oddity e regravado dois anos mais tarde para integrar este álbum. Mesmo que composta enquanto Bowie personificava Major Tom, a faixa mantém certa coesão dentro deste álbum.

Let’s Spend The Night Together é a única faixa não original do disco. Mick Jagger e Keith Richards influenciaram tantos momentos dele que ganharam uma homenagem com o cover desta canção, que fora gravada originalmente pelo Rolling Stones em 1967. Quase ao fim do álbum surge um dos maiores sucessos da carreira do músico. Jean Genie é inspirada na vibe roqueira de Iggy Pop e trata de um pequeno período que Bowie passou ao lado da modelo Cyrinda Foxe – com quem teve breve um caso. Ela remete bastante aos primórdios do Rock e seu “pai”, o R&B, e tem cargas de The Velvet Underground, The Yardbirds (principalmente pelo riff “roubado” de I’m A Man) e, claro, Iggy Pop.

Lady Grinning Soul fecha majestosamente a obra com um quê de trilha de 007, como muitos críticos da época diziam. Esse é resultado do encontro do músico com a cantora de Soul Claudia Lennear – que pode ser o começo do interesse do camaleão pela música negra e que mais tarde fará parte de sua carreira. Porém, os vocais profundos e sinceros de Bowie podem ser vistos desde já e embientados em uma bela balada levada ao piano, eles ganham ainda mais força.

Ziggy “morreria” nos palcos cinco meses depois do lançamento de Aladdin Sane, mas a obra ainda continua sólida, mesmo 40 anos depois de seu lançamento. Ela não chega a ser conceitual como sua sucessora, em que o alienígena andrógeno deu as caras, mas se amarra em vários pontos, e mais que isso, conta as aventuras de Stardust (Bowie) em sua passagem pelos Estados Unidos.

A abrangência que este álbum alcançou e a cisão com o Glam Rock foram pontos decisivos na carreira do músico, que ficaria conhecido no futuro por flertar com muitos estilos e se adaptar a diversos gêneros sem o pudor da mudança. Além disso, Aladdin Sane é um clássico por apresentar ótimas músicas (ousaria dizer que todas).

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ARTISTA: David Bowie

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts