As diversas faces de Thom Yorke

Em quase vinte anos de carreira, o músico mostrou ao mundo ângulos diferentes de sua produção – seja o mais conhecido com o Radiohead, em projetos paralelos ou solo

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Thom Yorke é um dos artistas mais reconhecidos e admirados dos últimos, pelo menos, 15 anos. É quase certo que seu primeiro contato com o músico tenha vindo com alguma das fases do Radiohead, banda formada em 1985, ainda sob outro nome, e que entre um disco e outro ajudou a revolucionar e concretizar a música alternativa nas rádios e no gosto popular. Mas Thom, em seus mais de vinte anos de carreira, demonstrou outras de suas faces, seja em projetos solo, paralelos, ou até mesmo em colaborações que foi acumulando ao longo destes anos.

Seu envolvimento com a música começou muito cedo, quando ganhou sua primeira guitarra aos sete anos de idade. Aos onze, já havia formado sua primeira banda e ao sair do colégio, já havia formado a On A Friday, que se tornaria Radiohead em alguns anos.

Grande parte do seu lirismo, nesses primeiros anos, surgiu a partir do bullying que sofria na escola por causa do seu olho caído, e músicas com Creep e I Can’t (ambas do disco de estreia da banda, Pablo Honey, em 1993) parecem traduzir toda angústia, raiva e depressão desses anos. É claro que isso não o impediu de escrever sobre outros temas, explorando e experimentando com temáticas e que, certamente, lhe rendeu frutos mais encorpados e diversificados que esses seus primeiros desabafos.

Radiohead

Essa é, com certeza, sua face mais conhecida – a de cantor, compositor e instrumentista de uma banda que consegue permear diferentes públicos e que, com seu som muitas vezes experimental, atingiu êxito em muitas de suas investidas inovadoras.

De Pablo Honey a The King of Limbs, houve muitas mudanças na sonoridade do grupo. Talvez, a maior delas veio quando a banda embarcou em 2000, depois do incrível Ok Computer (1997), em uma viagem experimental eletrônica vista em Kid A (2000) e Amnesiac (2001) – e tem revolução maior para uma banda de Rock trocar suas guitarras, baixo e bateria, por computadores e sintetizadores? Hail to the Thief (2003) trouxe de volta a aura roqueira do grupo, mas mantendo o que o quinteto havia aprendido durante essa fase. A combinação entre acústico e eletrônico seria vista novamente em In Rainbows (2007) e The King of Limbs* (2010), porém dessa vez mais madura.

Mais do que revolucionar o aspecto sonoro, Thom e sua banda ajudaram a mudar a forma como nos relacionamos com a música. Seja pela saída de uma grande gravadora no inicio dos anos 2000 (coisa que poucos ousavam fazer até então) ou pela iniciativa de vender um disco no sistema “pague o quanto quiser”, o quinteto tem feito “pequenos” atos que deram um empurrãozinho em outros grupos para seguirem o mesmo exemplo. Como em um efeito dominó, Radiohead foi uma peça essencial.

Solo

Seu primeiro (e até agora único) trabalho solo, The Eraser (2006), para mim funciona como uma grande soma de diversas fases do músico. Como parte do disco foi feita a partir de seus rabiscos feitos para o Radiohead, me parece ainda mais válida a ideia de que ele é um aglomerado de fases do Thom Yorke.

Grande parte do lirismo daqui poderia ter vindo de Pablo Honey, época em que suas letras tinham temáticas mais introspectivas, dolorosas e angustiantes, enquanto a parte sonora é um grande quebra cabeça de seus discos anteriores com o Radiohead, muitos elementos eletrônicos de Kid A e Amnesiac se encontram com a vibe bem orquestrada de Ok Computer e, em alguns momentos, ainda conta com o encontro acústico/eletrônico visto em Hail to the Thief.

Atoms for Peace

Se a veia eletrônica de Thom pulsava muito forte em alguns discos do Radiohead e em seu projeto solo, com uma banda feita em paralelo, não seria diferente. Batizada com o nome de uma de suas canções de The Ereaser, Atoms for Peace é um coletivo formado por Flea (Red Hot Chili Peppers), Mauro Refosco e ainda o produtor Nigel Godrich (que já trabalhou com o músico em muitos discos do Radiohead).

A sonoridade de banda não se distancia tanto do tom eletrônico de suas obras anteriores, nas quais Thom solta seus falsetes em cima de bases eletrônicas e sintetizadores. Mas é ao vivo que a mágica realmente acontece. O projeto nasceu com esse propósito e é nas apresentações que o poder da banda se mostra de verdade.

Com somente um single oficialmente lançado, (Default), a banda já tem planos de gravar seu primeiro disco no ano que vem e, pelas pistas que o grupo nos deixou, já podemos esperar coisa boa.

Colaborações

A última, mas não menos importante, face de Thom Yorke nos é apresentada através de suas parcerias, feitas com gente de peso como Björk e PJ Harvey. Ao lado da islandesa, fez um dueto em I’ve Seen It All para a trilha sonora do filme Dancer in the Dark, que chegou a concorrer a um Oscar. Já sua colaboração com PJ foi bem mais discreta, somente aparecendo como backing vocal em canções do ganhador do Mercury Prize Stories from the City, Stories from the Sea (2000).

Voltando à vibe eletrônica, grande parte de suas outras colaborações vem desse estilo. DJ Shadow, UNKLE, Flying Lotus e Four Tet já trabalharam com Thom, mas nenhum desses nomes ganhou sua predileção e sua constante colaboração como o duo germânico Modeselektor coseguiu.

As diversas faces de Thom Yorke concentram uma persona que, ao longo dos anos, acumula cada vez mais fãs. Sua constante inventividade e inquietude tem nos presenteado com ótimos discos que muitas vezes nos mostram que a quebra com antigos paradigmas, sejam musicais ou mercadológicos, podem não vir só de músicos jovens como sinal de rebeldia. E, afinal, o que mais podemos esperar de um músico que já está acostumado a nos surpreender?

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts