Butch Vig: “Ouvir Garbage hoje me mostra uma banda que ganhava confiança”

Disco “Version 2.0” comemora seu 20º aniversário com relançamento especial

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Poucas coisas marcam tanto uma época quanto a música que você ouvia nela. Pense em algum ano específico e é bem capaz que alguns discos virão à mente. Se com nós ouvintes é assim, imagina como é para os músicos, que têm tanto de seu tempo envolvido em uma produção. É daí também que vem um sentido do termo “registro”, já que fica gravado para sempre um determinado período, da mesma forma que uma fotografia faz (e, se você pensou em “álbum”, sacou bem o raciocínio).

Pois bem, quem viveu 1998 teve Garbage e seu Version 2.0 como trilha sonora. Ouvi-lo hoje, nas comemorações de seu 20º aniversário, gera a esperada nostalgia, mas também algumas surpresas se você não o escutava há um tempo. Por um lado, isso vem de um número de hits que você talvez não se lembre que estão todos reunidos ali (eu, francamente, tinha me esquecido que I Think I’m Paranoid e You Look So Fine eram da mesma época). Mas também rola uma outra sensação, a de que todas essas músicas resistiram ao tal “teste do tempo” e, ao invés de datadas, se mostram um tanto atemporais – isso é, se você conseguir retirar suas lembranças pessoais delas. Se existe esse envolvimento para nós aqui, repito, imagina para quem está por trás dessas faixas.

“Para mim, é como uma cápsula do tempo que eu abro e lembro de como eram nossas vidas na época”, contou Butch Vig ao Monkeybuzz por telefone. “Ouvir aquele Garbage hoje me mostra uma banda que ganhava confiança, que tinha toda uma nova energia nas músicas, principalmente nos vocais”, conta o baterista e lendário produtor, “ele foi nossa porta de entrada para o mundo digital, e nem sabíamos que isso mudaria tudo para sempre, do modo de gravar à maneira de consumir música. Version 2.0 foi nossos primeiros passos nesse universo”.

“Lembro também de sentir muita pressão, por causa do primeiro disco, que vendeu 5 milhões de cópias e rendeu uma turnê de um ano e meio”, explica Vig, “não queríamos ficar preguiçosos. Trabalhamos muito nesse álbum, foi um ano só nele, com dias inteiros no estúdio, às vezes por 15 horas seguidas só em um determinado som da guitarra, ou em um groove. Ficamos enjaulados em nossa base, mas também saíamos bastante para comemorar todo o sucesso com os amigos. Mas não queríamos desvalorizar nosso som por causa das conquistas do trabalho de estreia, nós começamos a nos cobrar mais ainda”.

Não é de se estranhar que exista uma grande pressão naquilo que Garbage faz ou fez. Pense como era estar em 1995, quando Garbage saiu, e lidar com a expectativa de uma banda que, além de Shirley Manson, Steve Marker e Duke Erikson trazia Vig, produtor de alguns dos discos mais marcantes dos anos 1990 e do mais citado de toda a década – Nevermind, que Nirvana lançou em 1991.

“Nós quatro compartilhamos as decisões de produção e todos nós sempre temos muitas opiniões”, explica ele, “isso às vezes dificulta, porque nem sempre concordamos, então temos que entender o que faz mais sentido para a banda, como aproveitamos melhor um arranjo ou o que quer que seja dentro da música. Mas é também o que nos ajuda a sobreviver, o que nos faz estar aqui vinte anos depois. Nosso processo criativo, por mais trabalhoso que seja, é produtivo para nós quatro”.

Além das memórias de 1998, Butch traz sua bagagem como músico e produtor na hora de pensar nesse material – algo que ele teve que fazer recentemente na hora de remasterizar todo o disco e todos os seus lados-B para a versão especial que sairá no próximo 22 de junho. “Quando ouvimos os arquivos de master, há uma justaposição interessante. Dá pra notar que ele foi gravado em um estúdio, mas o vocal, que era frio no primeiro disco, está sempre bastante caloroso e rico”, comenta ele, “acho que, se eu fosse gravar o disco hoje, daria uma relaxada. Acho que tiraria um polimento no som, que deixa ele com muita cara de estúdio. Se eu fosse mudar alguma coisa nele hoje, seria só isso”.

“Isso acontece com todo disco que eu faço. Ouço coisas na mixagem que eu hoje faria diferente, ou algo no arranjo que poderia ser diferente. Quando você trabalha com criação, quando você é um artista, chega um momento em que você precisa dizer ‘chega, tá pronto’. Sempre vai ter a impressão que algo poderia ficar melhor ou mais legal, mas faz parte do processo criativo saber quando parar. Shirley é a melhor de nós para isso, ela sempre saca logo quando uma música já está pronta. Steve e eu gostamos de ficar mexendo, ela precisa bater o pé no chão e falar ‘acabou’ (risos)”.

Quando perguntado sobre a diferença de trabalhar com o grupo e com os outros discos que realiza para terceiros, Vig explica: “Quando vou produzir o álbum de outra banda – seja Green Day, Foo Fighters, Smashing Pumpkins ou quem quer que seja -, meu trabalho é me lembrar de que a música é deles, e que eu estou ali só para ajudá-los a chegar em sua visão. Com Garbage, é completamente o oposto. Estou trabalhando nas músicas que mais gosto, e tenho toda uma outra ligação com elas por ser o co-autor das faixas. Eu gosto de poder trabalhar com essas duas forças, e variar entre elas, é bom poder produzir dos dois lados”.

Quando parei para ouvir Version 2.0 dias antes de fazer a entrevista, reparei que era a primeira vez na vida que eu, que cresci ouvindo o álbum, precisava ouvi-lo com o distanciamento profissional que um artigo desses pede. E chamou muita atenção inseri-lo naquele 1998, em uma virada de década entre o Rock Alternativo e aquele Emo do início dos 2000. Garbage está muito mais próximo ao primeiro, mas não deixa de comunicar, ou de dividir público, com o segundo.

“Por estar muito envolvido, eu não sei explicar o que é Garbage se alguém me perguntar”, contou ele ao ouvir esse meu comentário, “mas, quando você ouve uma música nossa, para o bem ou para o mal, você sabe que somos nós. Tem uma impressão sônica que acabamos colocando em tudo o que fazemos. Isso vem da maneira que tocamos e de uma certa sensibilidade que temos não só para música, mas para arte no geral. ‘Garbage tem um som próprio’ por causa disso”.

“Nossa música ainda precisa falar alto com nós quatro enquanto fãs. Seja a letra, a vibe ou o som por si só, precisa nos comunicar alguma coisa. E o trabalho com Garbage é olhar cada uma dessas partes e ver como tudo soma também em uma perspectiva emocional”.

“Foi muito interessante resgatar as masters originais em arquivos analógicos”, diz ele, “Nosso primeiro disco tinha seu charme, que vinha de uma certa qualidade Lo-fi, mas Version 2.0 foi o primeiro que fizemos com Pro Tools, então é um disco grandioso com som 3D”. “Foi legal ouvir essas músicas de novo para pensar em como tocá-las ao vivo desta vez” – Garbage tem uma turnê na América do Norte e Europa tocando todas as músicas do álbum e seus B-sides – “Estamos conversando sobre levar esse show ao Brasil em novembro. Estamos tentando entender como resolver essa turnê logisticamente”.

“Nós sempre vimos o gravar e o tocar ao vivo como duas coisas completamente diferentes. Quando estamos no estúdio produzindo um álbum, nunca pensamos em como as músicas ficarão nos shows. Depois, precisamos descobrir como fazer para aquilo ficar legal no palco, o que exige muito, muito ensaio. É meio de trás pra frente, mas dá certo” – e nós aqui só podemos imaginar o trabalho que exige pensar como apresentar um disco na sequência 20 anos depois de seu lançamento.

Mas, certamente, isso tudo vale muito a pena na missão de comemorar a data e, ao mesmo tempo, mostrar como seu som pode ser relevante para quem não tinha idade suficiente (ou ainda não existia) em 1998. “Ficamos muito felizes por notar que há toda uma nova geração interessada em Garbage”, conta ele, “sempre que tocamos, vemos fãs que cresceram ouvindo nosso som, mas há bastante gente mais nova em nossos shows, especialmente mulheres. Acho isso bastante encorajador, porque vivemos em um mundo muito complicado tanto na música e nas artes como em qualquer outra área, é legal que Shirley é uma inspiração para as meninas pegarem a guitarra e fazerem seu som”.

O relançamento de Version 2.0 traz também a novidade Lick the Pavement, uma música que estava “perdida nos arquivos de composições daquela época”, nas palavras de Butch Vig. Ela é também uma pista do que é esse disco remasterizado para as plataformas de streaming, lembrando a força e o grau de entretenimento que a banda sabe entregar em suas composições e shows.

Não sei o que é ouvir Push It pela primeira vez já há mais de 20 anos, mas sei o prazer que é ainda ter algum frio na barriga quando ela começa em alguma playlist. Conheço também o sorriso ao cantar When I Grow Up todo crescido, rindo de algo muito errado que deve ter acontecido na vida com uma ironia amarga que só Garbage pode oferecer, aquela mesma que canta I Think I’m Paranoid. E sei também a alegria de descobrir um álbum décadas depois de seu lançamento e poder chamar aquelas músicas de “minha”, algo que deve acontecer com toda uma nova geração que ouvirá os vocais de Shirley e a instrumentação ora frenética, ora viajada (mas sempre precisa) de Steve, Duke e Butch.

Se isso me deixa feliz, imagina eles.

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ARTISTA: Garbage
MARCADORES: Entrevista

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.