Cadê – “D”, disco ao vivo dos Paralamas do Sucesso (1987)

Disco ao vivo do trio carioca é quase sempre ofuscado por seus outros álbuns e atualmente se encontra fora de catálogo

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Discos ao vivo relevantes são cada vez mais raros. Ultimamente se transformaram em caça-níques ou obrigações contratuais, nas quais os artistas atendem a demandas da gravadora. Com as modificações vividas na indústria musical, o disco ao vivo tende a ser cada vez mais raro, uma vez que pressupõe investimento em termos de equipamentos de gravação, logística e outros aspectos. No Pop nacional, enquanto pipocam registros ao vivo de artistas sertanejos e do pagode, rareiam cada vez mais os discos dessa natureza por parte de artistas de MPB e Rock, que dependem da chancela de algum veículo de comunicação para justificar o investimento, como Multishow e MTV. Sendo assim, pode parecer utópica a reedição das condições que atuaram sobre D quando de sua gravação em 1987, na noite brasileira do Festival de Montreux, Suiça, precisamente em 4 de julho daquele ano.

Os Paralamas foram convidados para o prestigioso evento a partir da crescente importância que a banda adquirira nos dois anos anteriores ao lançamento de D. Emergiram como grande atração nacional do Rock In Rio, cruzaram o país de ponta e ponta, colhendo esses frutos. Por conta desse contato com o “Brasil que o Brazil não conhece”, os Paralamas conceberam uma de suas grandes obras, Selvagem?, gravado no início de 1986 e lançado em julho deste ano. A proposta da banda vinha de encontro ao que se notava na Europa, mais precisamente na Inglaterra, e nos USA: a assimilação da música negra como passaporte para a modernidade. Se bandas inglesas de two tone faziam reverências ao Ska e ao Reggae e artistas americanos entendiam o valor do Hip-Hop inicial, os Paralamas abriam seus braços para estas influências africanas, pisando em terrenos nativos (como o samba, por exemplo) sem perder de vista os ritmos jamaicanos e africanos. Selvegem? nasceu como um belo disco de Reggae, turbinado por referências explícitas ao país que a classe média das grandes cidades do Sul/Sudeste nunca imaginaria existir. Com a devida assimilação das vertentes africanas, jamaicanas e o aceno ao que se ouvia aqui, os Paralamas fizeram história.

Selvagem? vendeu 100 mil cópias na primeira semana e foi recebido pela crítica como se ela não fosse totalmente capaz de decifrá-lo. Puxado por Alagados, concebida por Herbert Vianna como um samba e pela Melô do Marinheiro, cantada também pelo baixista Bi Ribeiro e pelo baterista João Barone, Selvagem? também virou o roteiro principal dos shows que a banda deu a partir de meados de 1986. O Festival de Montreux era o maior feito de todo este processo. A famosa “noite brasileira” do evento não permitia qualquer tipo de erro na apresentação e a banda ainda ousou ao registrar pela primeira vez Será Que Vai Chover, novíssima canção de Herbert. Além dela, versões possantes de clássicos do repertório da banda estão presentes, como Meu Erro, Ska e Óculo”. Também há espaço para rendições maravilhosas de Alagados (com citação magistral de De Frente Pro Crime, de João Bosco e Aldir Blanc), Selvagem?, A Novidade e uma cover simpática de Charles Anjo 45, de Jorge Ben. Era a primeira viagem da banda para a Europa, também a primeira apresentação em que contavam com convidados especiais: o tecladista João Fera, que passou a acompanhar os Paralamas, e o saxofonista do Kid Abelha, George Israel.

D é um instantâneo de uma banda lidando com uma recém-conquistada consagrações em plena forma. O disco não encerra um ciclo artístico, pelo contrário, coloca possibilidades sobre a mesa, exala total frescor e antecipa as direções que o grupo seguiria, profundamente transformado por este aceno ao Brasil. Jamais eles seriam os mesmos.

D foi lançado em CD no fim dos anos 80, relançado em meados dos anos 90, com remasterização nos estúdios de Abbey Road. Atualmente está fora de catálogo e pode ser encontrado em sites da internet por valores que oscilam entre R$70,00 e R$90,00.

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MARCADORES: Cadê?

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.