Mbé, o estudante

Samples, silêncios monumentais, ancestralidade e fragmentos do cotidiano com Luan Correia e “ROCINHA” (2021)

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Fotos: Vitor Granete

A primeira vez que ouvi falar sobre Mbé — projeto musical de Luan Correia, de 25 anos — foi quando entrevistei Antônio Neves a respeito de seu disco A Pegada Agora É Essa (2021) e lhe pedi algumas indicações, dez álbuns essenciais. Antônio disse que ROCINHA (2021) era de uma música maior do que permite nosso imaginário. Mais: disse que esse disco tinha mudado o que ele pensava a respeito do que música poderia ser e propor. Nos dias seguintes à nossa conversa, começou a CPI da Covid-19 e, cá entre nós, meus ouvidos não são os mesmos. Com significativo atraso, dei play em ROCINHA — e nem o alerta misterioso de Antônio Neves pôde me preparar. Através de uma colagem sonora, o artista carioca propõe um universo que é, ao mesmo tempo, íntimo e coletivo. Nele, Mbé é um estudante que mergulha no repertório de professores de outras décadas. Em um silêncio monumental, Luan discorre sobre um complexo que é herança de um país inteiro.

À primeira audição, é um disco espiritual, mas o artista prefere chamá-lo de ritualístico, uma vez que se trata de um traço presente desde suas primeiras apresentações como Mbé na Audio Rebel, quando o projeto ainda era embrionário e o disco não estava nos planos. “De alguma forma, eu quero prender a atenção das pessoas”, diz. “O ritual é uma coisa que se destaca e eu buscava esse efeito nas apresentações, sempre amarrando início, meio e fim, como é o disco”. Luan não frequenta nenhuma religião, o que é curioso para quem tem um ponto de candomblé no álbum de estreia (mais precisamente, na quinta faixa, “Ponto”), o que ele justifica em uma espiritualidade mais orgânica: exceto por uma breve fase na adolescência, durante a qual se declarava ateu, Correia sempre acreditou em alguma coisa. Além disso, tem o CEP. “Eu sou da Rocinha e o que mais tem é igreja, bar e boca”, brinca. “Mas eu acho que essa questão aparece no disco pela minha ancestralidade, no sentido de que, se eu fosse procurar uma religião, as fés afrobrasileiras fariam mais sentido para mim, sabe?”.

O mais intrigante sobre ROCINHA é a relação que Mbé assume com o que sampleia. Há uma nítida recusa da história do país sob uma versão única e, como cortesia do leque de possibilidades da música experimental, o autor apresenta gravações de ambientes que nada têm de extraordinário, e encontra, nesses sons difusos, harmonias quase meditativas. Tudo isso é temperado por um singelo respeito aos samples documentais, às entrevistas, às pessoas, às vozes. “O Mbé me ajudou muito a estudar a história do movimento negro brasileiro”, revela, “Essas pessoas hoje me formam. Naturalmente, por estar coberto por esses pensamentos e leituras, toda vez que eu toco, eu penso sobre o lugar eu estou e o que eu devo mostrar. Acho que por isso as coisas têm acontecido naturalmente. Quando eu vou fazer meu trabalho pessoal, obviamente é sobre isso que eu vou falar porque é sobre isso que eu estou pensando”.

“Eu já buscava minha ancestralidade de alguma forma na música. Quando passei minha pesquisa para gravação de campo, o que eu buscava eram músicas de cunho africano, especialmente África Central. E aí realmente eu começo a tomar mais consciência do que eu estou buscando, sabe? Vem tudo junto meio por acaso, se é que acaso existe”

Corpo docente

“Não foi nada muito pensado”. É com essa tranquilidade que Luan relembra o(s) processo(s) de um disco que esgarça sua pesquisa pessoal de uns três anos para cá e que já foi mencionado em, pelo menos, dois artigos acadêmicos; isso sem contar os convites para grandes eventos de arte que lhe rendeu. Mas, este “Não foi nada muito pensado”, na negativa da negativa, não é despretensioso; na verdade, só é uma constatação da surpreendente fluidez entre Luan e Mbé. Em 2017, era só Luan. Trabalhava na Audio Rebel cinco dias da semana e gostava especialmente de acompanhar as quintas, quando a casa sediava Quintavant, evento de música experimental com o QTV, selo para o qual trabalha hoje. Começou a conhecer as pessoas e se contagiar pela sonoridade ali explorada. Em casa, decidiu aprender a fazer beats, já que não sabia tocar nenhum instrumento melódico. A princípio, as pesquisas eram direcionadas no que lhe chamava a atenção, Jazz e Rap. Mais tarde, houve uma imersão na eletroacústica e, depois, na etnomusicologia.

Paralelamente ao desenvolvimento como baterista em um duo de Free Noise chamado Ó Só, com José Mekler (que comanda as guitarras em “Ponto”), Luan criava um arquivo precioso de samples e Mbé emergia como um laboratório pessoal. Se o aprofundamento em eletroacústica mostrou que um disco como ROCINHA era mais que possível — e potente —, na etnomusicologia a autenticidade do disco aflora. “Por volta dos anos 1960 ou até antes, pesquisadores iam para lugares mais remotos, povoados de diversos lugares do mundo e, na época, as gravações eram muito ruins porque os microfones captavam muita coisa além do objetivo dos pesquisadores, pegava tudo que acontecia envolta: tem o barulho da vila, da criança, da galinha, do rio, da mata”, explica, “Enquanto eu ouvia isso, muitas vezes eu me transportava para o lugar não só pela música, mas pelo som atrás. Como esse caminho funcionava para mim, pensei que poderia funcionar para outras pessoas também”.

Em 2018, Luan assistiu Orí (1989), documentário escrito por Beatriz Nascimento e dirigido por Raquel Gerber. “Eu lembro de terminar de ver o filme e mandar uma mensagem para o Bernardo: cara, eu não sei mais o que pensar”, relembra da sua conversa com o produtor do disco, “Eu penso diferente depois daquele filme. Eu me entendo diferente porque mudou o modo que me vejo na sociedade brasileira. Me sinto convocado para passar adiante essa mensagem”. De súbito, Luan entendeu o propósito de Mbé. “Eu já estava tentando buscar minha ancestralidade de alguma forma na música”, diz. “Quando eu passei minha pesquisa para gravação de campo, o que eu buscava eram músicas de cunho africano, especialmente África central. E aí realmente eu começo a tomar mais consciência do que eu estou buscando, sabe? Vem tudo junto meio por acaso, se é que acaso existe”.

“Por volta dos anos 1960 ou até antes, pesquisadores iam para lugares mais remotos e os microfones captavam muita coisa além do objetivo dos pesquisadores: o barulho da vila, da criança, da galinha, do rio, da mata. Enquanto ouvia isso,  me transportava para o lugar não só pela música, mas pelo som atrás. Como esse caminho funcionava para mim, pensei que poderia funcionar para outras pessoas também”

Mbé então começa a mergulhar nas entrevistas com ainda mais vigor e a desvendar a rica (e silenciada) história do movimento negro brasileiro. Para ele, o disco é uma forma de ecoar personagens que a história oficial do Brasil não reverencia, ou ainda “Ampliar as vozes de quem não devemos esquecer”. De Djalma Corrêa ao programa Provocações, da rica pesquisa de Mário de Andrade nos anos 1930 a Beatriz Nascimento, de Clementina de Jesus a gravações de indígenas do Xingu: tudo é sample. A técnica do Hip Hop cuja essência é memória, reinvenção e subversão, produz em ROCINHA uma linha temporal própria. “Ao mesmo tempo nossa história é muito apagada, na pesquisa percebi que diversas coisas do passado ainda estão reverberando de uma forma muito presente e o trecho da Lélia Gonzalez em “A Caminho de Palmares” me abre a mente — ouço aquilo e para mim é o futuro”, reflete.

A Caminho de Palmares

“Eu vou te contar a história dessa música!”, empolga-se. A base era um sample de um show do Orlando Costa com Luizinho do Jêje que aconteceu na Audio Rebel — mais especificamente, trecho da música “Belém Bahia”, de Orlando Costa —, Luan traduziu o poema de abertura do disco Conspiracy (1975), de Jeanne Lee (“Sem palavras, só um sentimento…”) e convidou Juçara Marçal para declamá-lo. Essa era a música. “No momento em que a gente estava decidindo o nome das músicas, eu e o Bernardo, botei o nome dessa faixa de ‘A Caminho de Algum Lugar’ e ele deu o nome de ‘A Caminho de Palmares’”, conta, “Quando eu leio isso, eu lembro que baixei o discurso da Lélia Gonzalez na manifestação de 88, o 20 de novembro de 1988, falso centenário da abolição. Quando eu adicionei a fala da Lélia González e da Beatriz Nascimento, foi tudo batendo e nasceu. Mas eu já estava na fase final do disco. Essa ideia só veio por completo quando o Bernardo deu o nome da música. As coisas foram fazendo cada vez mais sentido. Do mesmo jeito que, quando eu vi Orí, fiquei absorto com tanta informação, quando fiz ‘A Caminho de Palmares’, eu mesmo não entendia a música, o que estava propondo. Eu me sinto muito estudante, sabe? Por mais que eu tenha um disco formalizado”.

De laboratório de samples ao disco, o salto das experiências de Mbé foi fortemente influenciado por Bernardo Oliveira, que assina como produtor de ROCINHA, apesar de não ter uma participação típica na produção musical. “Sem ele, o disco não teria existido”, dispara Luan. “A história do movimento negro chega até mim através do Bernardo. Como veio muito naturalmente meu estudo e os recortes de áudio, ele estava totalmente por dentro do meu trabalho, mesmo que só por áudio de WhatsApp”. Conhecidos da Audio Rebel e amigos do QTV, foi Bernardo quem, depois de dois anos de Mbé, incitou: vamos fazer um disco! Luan aceitou o desafio e, depois disso, foi um ano de mixagem e finalização das músicas. Das apresentações ao vivo, já tinha “Aos Meus, Cerimônia” e “Maria Vieira do Nascimento”, que só ganharam um retoque. “A Caminho de Palmares” e “Celebração do Xingu ao Congo” foram feitas para o álbum. Da capa da obra, desenvolvida por Lucas Pires (que também participa de ‘Mistura Baiana”) a partir da foto 3×4 da primeira carteira de trabalho da mãe de Luan, até o fascinante domínio da etnomusicologia, ROCINHA é uma aula inscrita sob a pele negra. No quadro de disciplinas há nomes da história, filosofia, cosmovisão, insubordinação, luta, vitória, derrota, música, …

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ARTISTA: Mbé