O minimalismo sobrecarregado de The xx

Influenciado pelo R&B moderno, grupo incorpora elementos abstratos para criar som único em seu disco de estreia

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Sabe aquele disco lançado há algum tempo que você carrega sempre com você em iPod, playlist e coração, mas ninguém mais parece falar sobre ele? A equipe Monkeybuzz coleciona álbuns assim e decidiu tirar cada um deles de seu baú pessoal e trazê-los à luz do dia. Toda semana, damos uma dica de obra que pode não ser nova, mas nunca ficará velha.

The xx – XX (2009)

Poucos são os discos que conseguem dizer tanto com tão pouco. Enquanto as pessoas, situações e experiências vem e vão (por vezes como leves brisas, outras como furacões), as músicas ficam pra contar histórias. Um disco como XX, estreia da banda The xx, é um desses que narram profundamente uma experiência sensorial de uma maneira pura e clara, traduzindo sonoramente uma sobrecarga de sentimentos, lembranças e histórias, presentes nas onze faixas que compõem o registro.

Com influências de R&B moderno, a banda incorpora elementos abstratos que fazem de XX um álbum minimalista e sensorial. Os instrumentos são simples, os vocais são simples, os synths são simples, as batidas são simples. Obviamente, ele não é tão simples quanto parece, escondendo toda a complexidade de produção por trás, que faz tudo soar tão único e intenso, mesmo parecendo calmo. Como poderia algo aparentemente tão fácil e fluído esconder tamanha complexidade e sentido? Atemporal, não importa quantas vezes você ouça, a experiência mescla momentos de novas descobertas ou de associação ao passado e experiências anteriores. Todo mundo tem uma história como a narrada por XX. Alguns álbuns crescem ao longo da audição, seja logo na primeira ou nas demais ouvidas, mas esse cresce dentro das pessoas. O peso aqui vem de dentro pra fora.

The xx faz o tipo de música contra a corrente, diferente de tudo o que eu já tinha ouvido antes e do que costumava ser falado em 2009. Na época inclusive, tomaram o caminho oposto do que se fazia pela música Pop, traçando o seu próprio como um respiro a tudo o que estava sendo feito. A primeira audição desse álbum foi uma mistura de afago, de encontro, de colo, mas ao mesmo tempo despertou sensações que pareciam vir como socos impiedosos no estômago a cada refrão. Seria fácil demais rotular como um som atmosférico que te faz viajar, além de completamente injusto, porque o que é criado ao longo do álbum é muito mais intenso e mágico do que isso. Com a mesma facilidade que você ouve, você se encanta.

A banda do subúrbio londrino, na época formada por um quarteto, fez sua estreia com um dos melhores e mais bem falados álbuns do ano, tanto pela crítica quanto pelo público. Com xx, eles mostraram que não estavam lá somente para fazer barulho, e é bacana pensar que uma banda jovem traga tantas influências distintas e pense em “desacelerar”, quando o esperado talvez fosse o oposto. Fizeram os ouvidos do público e mercado em geral se voltarem mais atentamente para um som com uma natureza mais crua e minimalista, chegando com uma proposta musical diferente e que é só deles. A audição do álbum é lenta, apesar da reação ser imediata. Por mais que o ritmo seja calmo, as canções exaltam os sentimentos de uma forma muito crua, com faixas dotadas de um poder hipnotizante, construídas em torno de progressões simples de acordes, com instrumentos delicados e leves. Tudo parece pesado na balança e usado com moderação na medida certa.

Um dos grandes acertos da banda é inclusive saber usar o silêncio, seja através de pequenas pausas ou das maiores. Acho que não ter medo de usar isso, dosando uma sonoridade mais íntima e introspectiva, mostra uma certa maturidade, principalmente por se tratar de uma banda jovem em seu disco de estreia. Ele abre com a instrumental Intro, que já anuncia a sonoridade que está por vir. Serve como uma preparação para os ouvidos, mais como uma experiência sensorial complementada com as vozes ao fundo dos vocalistas Romy e Oliver, que já mostram uma conexão que vai acompanhar o ouvinte ao longo de todo o registro.

Romy e Oliver não tem as vozes mais bonitas ou mais bem trabalhadas do mundo. Eles não cantam para mostrar suas potências vocais, mas sim porque tem muito a dizer (e acabam dialogando entre si, falando um para o outro de uma forma muito intimista), e a combinação das vozes, uma feminina e outra masculina, torna a experiência da audição única. É quase como se você fosse convidado para a intimidade dos dois, que se declaram ali naquele espaço o tempo todo, com letras que falam basicamente de amor e sexo (e o que mais a imaginação puder interpretar).

O disco conta uma história de amor, para aqueles que estiverem mais atentos aos detalhes e às sutilezas escarradas, utilizadas para criar a narrativa perfeita. A descoberta de Intro é seguida pela doce VCR, uma das canções mais Pops e inusitadas do álbum que narra o encontro do outro e uma descoberta ainda infantil e pura para o amor. Depois, Crystalized mostra-se como um dos grandes destaques, trazendo um som mais intenso, carregado e sexual, te engolindo pra dentro da atmosfera criada ali. Já mostra uma iniciação mais carnal e visceral, quase que como uma canção que materializaria o sexo e os instintos animais da tensão criada por duas pessoas.

Islands é outro destaque que faz mais parte da entrega, com o refrão assumido de I am yours now / So now I don’t ever have to leave / I’ve been found out / So now I’ll never explore. Heart Skipped a Beat é como um grito desesperado de socorro, buscando o retorno do outro lado da relação após uma perda ou afastamento, como se o outro escorresse pelos dedos, com a insistência do repetido Sometimes, I still need you. Fantasy preocupa-se mais em marcar um acontecimento no meio do álbum, criando uma atmosfera onde Oliver canta sozinho, como alguém falando consigo mesmo dentro da solidão de sua própria mente, tentando controlar seus desejos e aceitar o presente. Os vocais distorcidos ajudam na impressão de “falar sozinho e não ter resposta”, focada em criar uma atmosfera sonora hipnótica e infinita, sem tempo ou espaço.

Shelter traz uma letra que busca uma reaproximação, um tentativa de voltar no tempo, como alguém que sente falta de algo que já não mais lhe pertence. Maybe I had said, something that was wrong / Can I make it better, with the lights turned on? faz parte dos quase intermináveis refrões, cantados apenas por Romy. Basic Space é uma canção única que traz a tentativa mútua de união, agora cantada pelos dois (o que ajuda mais ainda a dar essa impressão). Além da letra, existe uma forte tensão dos dois lados, que parecem ter objetivos parecidos no meio de tantos desencontros, com I can’t let it out / I still let you in.

Infinity, o maior destaque de todo o álbum, vem como a dor do fim. Essa é a estaca que dilacera o coração quando o final é claro e inevitável. A progressão que a música vai tomando deixa a experiência ainda mais emocional e intensa. Wish the best for you / Wish the best for me / Wished for infinity / If that ain’t me. Dor atrás de dor, seguida de mais dor ainda. É o desabafo, o último respiro, as últimas palavras a serem ditas, o adeus.

Night Time vem como o consolo confessional, um respiro depois da tsunami emocional, quando já se podem ver as coisas mais claramente, com mais tranquilidade. Stars é como o reencontro com as possibilidades e esperanças vivas novamente, depois de todo o histórico passado.

Como uma narrativa perfeita, XX passa pela descoberta sensorial (Intro), o despertar dos sentimentos puros (VCR), a exaltação da sexualidade (Crystalized), a entrega da relação (Islands), o abandono e primeira decepção (Heart Skipped a Beat), a decepção e isolamento (Fantasy), o reencontro e a vontade de voltar no tempo (Shelter), a tentativa de reaproximação (Basic Space), a dor do fim (Infinity), o respiro (Night Time) e a vontade de contar uma nova história (Stars). The xx mostra que existe espaço para o silêncio e experiência sensorial com sua música calma e suave, ainda que ela represente a intensidade emocional elevada à máxima potência.

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ARTISTA: The xx
MARCADORES: Fora de Época

Autor:

Largadora por vocação. Largou faculdades, o primeiro namorado e o interior. Hoje só quer saber de arte, cinema, música, fotografia e sair correndo pelo mundo.