Shut Up And Play The Hits – The Very Loud Ending of LCD Soundsystem

Assistimos ao lindo documentário que explora a figura de James Murphy e seu sucesso não planejado com uma das bandas mais influentes dos últimos anos

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Em 1948, Eugen Herrigel escreveu um livro chamado A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, que contava a história de um professor alemão de filosofia que, interessado em aprimorar seu conhecimento em filosofia oriental, especialmente no Zen Budismo, partiu ao Japão para viver algumas experiências que o fizessem entender realmente aquilo que ensinava aos seus alunos. Chegando lá, foi levado à aprender a milenar arte do tiro com arco, ou “arco e flecha” como conhecemos.

Após diversas tentativas teoricamente perfeitas, mas frustradas, seu instrutor lhe ensinava que apenas quando ele deixasse de pensar no alvo em si, no resultado do tiro e passasse a pensar no processo do tiro com arco, fazendo com que o objeto e os movimentos se tornassem como partes naturais de seu corpo, ele conseguiria, enfim, atingir seu objetivo.

Assim como o protagonista de Eugen Herrigel em seu romance filosófico, James Murphy foi escritor, produtor, DJ, mas apenas alcançou o sucesso supremo quando, aos 35 anos, parou de perseguí-lo e decidiu que faria um disco simplesmente pelo processo de fazê-lo e tocá-lo em festas e baladas para ver alguns amigos dançando e curtindo muito. Não havia pretensão de fazer shows, turnês ou de se tornarem celebridades mundiais, mas foi aí que a criação passou a ser cada vez mais orgânica, mais sincera, e o resultado veio como consequência natural.

O documentário Shut Up and Play The Hits, exibido pela primeira vez no Brasil nesse final de semana, no festival de música e tecnologia The Creators Project, tenta humanizar um pouco o fenômeno que se tornou o LCD Soundsystem na última década. Álbuns elogiadíssimos pela crítica, sucesso de público, hits obrigatórios em qualquer festa no mundo todo, turnês mundiais e um show no Madison Square Garden fizeram o líder James Murphy pensar em como tudo aquilo, apesar de maravilhoso, fugiu de seu controle. Não por acaso, uma entrevista para o jornalista Chuck Klosterman e o lotado show no Madison Square Garden são os dois pilares que sustentam o documentário. Foram escolhidos por retratarem muito bem este contraste entre as aspirações de James como artista e o que realmente a banda se tornou naquele inesquecível show.

A apresentação, além de inesquecível para a banda, foi especialmente memorável para os fãs que, diferente seus ídolos, não podem decidir quando querem que aconteça uma possível reunião, um novo álbum ou um novo último show. As imagens em câmera lenta da plateia chorando e cantando enlouquecida a cada canção realçam a fama do grupo em possuir grande identificação com seu público.

O fato de cada um ter sua própria maneira de se relacionar com a banda, é muito resultado dessa carga emocional e de experiências pessoais que o líder da banda sempre colocou em seu trabalho, que, apesar de terem sido parte apenas da vida dele, representam para os fãs um exemplo de alguém que sempre foi igual a eles, com os mesmos medos, angústias e problemas, mas que conseguiu chegar aonde chegou.

Até aí, parece uma história qualquer de um atleta, artista ou personalidade que superou seus desafios e conseguiu fazer sucesso. Mas a diferença está justamente na sinceridade com que James Murphy expõe sua dúvida sobre o quanto queria realmente acabar com tudo aquilo, sua saudade de ter vivido tardiamente seu sonho de adolescente, ou sua indecisão inclusive sobre se deveria ou não ter começado tudo isso. A figura de James é mostrada sempre como a de alguém comum, passeando com seu cachorro, andando de pijama pelas ruas, aumentando ainda mais esta identificação imediata com o público.

Como documentário de música, Shut Up And Play The Hits é uma grande obra para fãs e não fãs. A fotografia é excelente, a direção é muito bem feita e a escolha da narrativa focada em Murphy, muito acertada, já que além de ser o cérebro por trás de todo o projeto, o filme deixa muito claro que tanto o início, quanto o fim da banda vieram de decisões quase que exclusivas do vocalista. Como pontos fracos, talvez haja muitas cenas do show de Nova York, o que seria ótimo, caso eles não fossem lançar um DVD/Blu-ray com o show completo em seguida, por isso seria mais interessante terem selecionados mais cenas do dia-a-dia do vocalista que se mostrou durante a entrevista, uma pessoa extremamente interessante e com pensamentos e conclusões dignas de um grande artista.

Para os fãs que esperavam ansiosamente pelo documentário e já haviam visto todos os trailers, teasers, entrevistas e lido todas as críticas, más notícias: o documentário acrescenta pouco a tudo que já era de conhecimento de todos, servindo apenas para contextualizar o que já havia sido liberado. Mas, obviamente, analisando o filme como uma peça isolada, é um dos melhores documentários de música lançados nos últimos tempos e se fizermos uma lista somente com os que tratam de bandas surgidas após o ano 2000, a posição de Shut Up And Play The Hits fica ainda mais alta.

SPOILER

Infelizmente, o LCD Soundsystem acaba mesmo no final.

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MARCADORES: Documentário, Filme

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.