Snoop Dogg: 50 de vida, quase 30 de Rap

Elencamos cinco pontos que ajudam a entender a lenda do G-Funk – e ícone da cultura pop – que comemora meio século de vida hoje (20/10)

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Fotos: Jean Baptiste Mondino

Quando um álbum de estreia muda o curso do Rap, é bom continuar de olho no artista. Assim tem sido com Snoop Doggy Dogg há uns 30 anos — e ele com certeza ama isso. Quanto a nós, amamos Snoop pela forma como ele baliza entre West Coast Rap e o Funk, por somar o universo gangsta à psicodelia, pela sua forma concisa e criativa de escrever, macia de rimar e uma lírica violenta permeando a sua calma tão típica. Mas também amamos Snoop pelas suas performances — há um quê encantador na pose despojada e o jeito despretensioso de rimar que desafia o andamento da voz sem a gente nem notar. Mais do que nunca, hoje, dia em que completa meio século de vida, é o dia para reafirmar a destreza da vasta obra musical e os encantos da personalidade de Snoop Dogg.

Nascido Calvin Broadus, Snoop teve forte influência da igreja e das gangues. Se ele atribui ao ambiente eclesiástico suas habilidades de dicção, atuação e até seu primeiro freestyle, foi quando entrou para os Crips, uma das maiores e mais violentas gangues dos Estados Unidos, que as personas mais marcantes da lírica de Snoop Dogg começaram a aparecer: o cafetão, o traficante, o assassino. No Ensino Médio, foi preso por porte de cocaína, mas também foi quando começou a participar das duas primeiras batalhas de rima, as quais destacaram o talento de freestyle de Dogg que, à época, tinha muita dificuldade em compor — algo que foi trabalhado em coletivo na Death Row Records, selo que revelou Snoop como rapper pela seu inesquecível papel no histórico e inescapável The Chronic (1992), de Dr. Dre.. Em seguida, enquanto o clássico Doggystyle (1993) era gravado, Snoop foi acusado de participação em um homicídio. Depois de sua apresentação no MTV Music Awards de 1993, Snoop se entregou.

Todas as investigações e prisões que atravessaram sua carreira geraram um suco para colunas sociais e até para a grande mídia da época, que conduzia uma expressiva campanha contra o Rap. “Gangsta Rap começou a estourar esse ano e a violência é uma realidade há muito mais tempo, entende?”, provocou o artista em entrevista em 1993, “Se você disser para todo Gangsta Rapper e para toda indústria que não podemos fazer mais este tipo de música, ainda assim a violência vai continuar. Toda essa relação de causa-consequência vem da mídia, a mídia faz isso. E o Gangsta Rap não vai parar enquanto a mídia estiver em cima para transmitir e repercutir desproporcionalmente — a mídia está fazendo um ótimo trabalho em divulgar a gente. Inclusive, preciso dar à mídia um grande aplauso por vender nossos discos.” De cara, Doggystyle foi um sucesso de crítica musical e vendeu, na sua primeira semana, mais de 800 mil cópias.

Depois dos anos 2000, Snoop Dogg tornou-se de vez uma celebridade — filmes, álbuns, aparições em programas de TV viraram tão somente uma parte da sua personalidade em si. No entanto, o que fez Dogg se tornar quem é foi simplesmente música. E seu legado transformou completamente a cena e a visibilidade do Rap, além de fomentar decisivamente um novo status do Hip Hop no imaginário da cultura pop. Aproveitando seu aniversário de 50 anos, aí vão cinco pontos importantes para começar a mergulhar no malicioso, fantástico e style mundo de Snoop Doggy Dogg.

Dr. Dre e a Death Row Records

Em 1990, Snoop Doggy Dogg formou com Nate Dogg e Warren G. um grupo de Rap chamado 213 — alusão ao código de telefone de Los Angeles na época. Warren G. mostrou as mixtapes do grupo para seu irmão, Dr. Dre, que tinha acabado de romper com a Ruthless e formar o selo Death Row Records com The D.O.C, Suge Knight e Dick Griffey. Dre se preparava para lançar seu primeiro trabalho solo, que viria a ser o clássico The Chronic (1992), quando se interessou pelas rimas de Snoop Dogg. Logo depois do sucesso de crítica e de vendas, começaram a trabalhar no álbum de estreia de Snoop Doggy Dogg — Doggystyle. Inclusive, a faixa Ain’t No Fun (If The Homies Can Have None) é a síntese de 213, contando com Nate Dogg, Snoop Dogg e Warren G.

Doggystyle é o marco do G-Funk (Gangsta Funk). Com instrumentação orgânica e elementos eletrônicos, a sonoridade é ao mesmo tempo leve e dura, funky, soul e disco até, mas primordialmente Rap — e que Rap! A maturidade sonora é rasgada pela eloquência do rapper. São 13 faixas perfeitamente amarradas, com destaque para “Gin N Juice”, “Tha Shiznit”, “Who Am I (What’s My Name)?”. Com samples que vão de Curtis Mayfield a Parliament, de Isaac Hayes a Kool & The Gang, é possível entender a equação que gera a atmosfera sublime e envolvente de Doggystyle — Soul, Funk e Rap  (e fumaça).

Enquanto a mídia conservadora descrevia o Rap como inimigo da juventude e propagador da violência urbana, em 1994 a Death Row Records distribuía dois mil perus nas comunidades de Los Angeles para o Dia de Ação de Graças. Dentro do selo, o sentimento de comunidade também era muito forte. Dogg já contou em entrevistas, por exemplo, que tinha muita dificuldade para compor quando entrou para a Death Row Records e quem o ajudou a preparar suas linhas para Doggystyle foi The D.O.C.. Outro vínculo forte formado pelo selo foi entre Snoop e Tupac, que assinou com a Death Row Records em 1995. Foi Tupac quem incentivou Dogg a começar a atuar e, quando Tupac entrou para o Rock & Roll Hall of Fame, Snoop foi o convidado para receber a homenagem no lugar do amigo e dizer algumas palavras sobre Shakur.

Murder Was The Case

Disponível no YouTube, o filme dirigido por Dr. Dre apoia-se principalmente na narrativa da música “Murder Was The Case”, de Doggystyle, na qual Snoop narra sua própria morte e ressurreição depois de um encontro com o diabo. O contexto do filme, no entanto, consegue ser ainda mais interessante do que a obra em si. Em 1993, Snoop foi acusado de dirigir um carro enquanto seu guarda-costas, do banco do passageiro, atirou no membro de uma gangue rival. O rapper alegou legítima defesa, mas se entregou logo depois da apresentação do MTV Music Awards, saindo com uma fiança. O julgamento que o absolveria só aconteceu em 1996.

Enquanto isso, os ataques midiáticos se somaram às críticas sobre a excessiva violência e misoginia nas suas composições. Murder Was The Case foi uma forma de Snoop contar sua versão de uma história possível, em que o namorado de uma mulher que está com Snoop não aceita o término do relacionamento e o procura em busca de vingança. Além disso, a trilha sonora conta com faixas de vários artistas da Death Row Records e, ao final, tem um prato cheio para pesquisadores: entrevistas da época, inclusive uma em que Dre diz que o Snoop é o futuro do Funk.

Rap, Funk e Gangsta: Snoop Starter Pack

Se você nunca ouviu um disco do Snoop, minhas três primeiras indicações seriam essas: Doggystyle, R&G (Rhythm & Gangsta): The Masterpiece e Paid Tha Cost To Be Da Bo$$, nessa ordem. Enquanto o primeiro é o maior clássico da sua carreira, estes dois são álbuns mais Pop, que flertam com vários gêneros musicais e, por isso, evidenciam a assinatura de Snoop Dogg na rima e na atmosfera de sua proposta. Entre controladoras e orquestras da igreja, o rapper continua gangsta demais, com a característica suavidade na voz mesmo nos tempos mais acelerados.

R&G pode se vangloriar da mesma coesão sonora que Doggystyle, já Paid Tha Cost To Be Da Bo$$, ainda que mais difuso, ganha com a experimentação pelo Pop radiofônico-groovado (ocasional e brilhantemente assinado por Pharrell e Chad Hugo). Juntas, as obras de 2002 e 2004 renderam ótimas faixas que marcaram uma geração inteira, como “From Tha Chuuuch To Da Palace”, “Beautiful”, “Pimp Slapp’d”, “Drop It Like It’s Hot” e “Signs”. Fora isso, as participações são de cair o queixo: de George Clinton a Jay-Z, de Boosty Collins a Justin Timberlake.

Bible of Love e a entrevista com Kirk Franklin

A mãe de Snoop, Beverly foi quem deu o apelido; ela achava o menino parecido com o Snoopy, do Charlie Brown. Outra marca materna foi a igreja: Beverly estimulou Snoop a participar ativamente dos rituais, inclusive em peças de teatro da igreja e no coral. De certa forma, essa herança sempre esteve presente, como no belíssimo coral de “I Love To Give You Light”, faixa de abertura do R&G (Rhythm & Gangsta): The Masterpiece (2004). Mas foi só em 2018 que Snoop se propôs a fazer um disco Gospel – de onde, para ele, vem o Gangsta Rap.

Profundamente emocional, Snoop Dogg Presents Bible of Love (2018) é recheado de participações tanto do Jazz, do Blues e do Hip-Hop e, mesmo longo (talvez demais), com 32 faixas, fica evidente que Snoop dispensou qualquer intenção comercial. Acompanhado do disco, Snoop também lançou uma série de três episódios no seu canal do YouTube comuma entrevista com Kirk Franklin, um dos maiores ícones da música Gospel americana dos últimos 30 anos.

Para pensar em Bible of Love, pego emprestadas algumas palavras da jornalista do The Guardian Elizabeth Day, que entrevistou Dogg no lançamento de seu disco de 2011 Doggumentary. “Snoop Dogg sempre foi uma massa de contradições: o rapper da rua que se tornou comercial; o maconheiro com uma admirável ética de trabalho; o cafetão que casou com sua paixão de colegial, e o suspeito de homicídio que hoje treina o time de futebol americano do seu filho. Ele parece adorar ir contra as expectativas”.

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ARTISTA: Snoop Dogg