Sun Kil Moon – Gente como a Gente

Fator pessoal na obra de Mark Kozelek, apesar de seu enorme talento, permanece sua maior qualidade

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Se você acompanha os pontos altos da música, sabe que o mais recente álbum do músico/banda/projeto Sun Kil Moon já é o mais falado de 2014 (pelo menos até agora). Benji é um daqueles trabalhos que ressonam dentro da gente, seja pela melancolia do violão dedilhado ou pelo aspecto mais humano que a música acústica tem, mas são onze faixas carregadas de emoção e envoltas em um grande primor musical. Com isso, o disco acaba sendo um lembre do quanto o fator mais humano é determinante no quanto uma obra é cativante para qualquer ouvinte.

E se você pegou o bonde já aqui, saiba que Mark Kozelek já gravou cinco outros discos antes desse, sendo um deles um trabalho só de covers da banda Modest Mouse. Esses trabalhos compartilham mais semelhanças que diferentes, mas a linha que melhor podemos traçar entre todos eles é essa questão emocional e sensível que percorre toda a sua discografia. Seu Folk Rock, com o melhor de um e do outro termo, é notável, mas acaba sendo um daqueles trabalhos que qualquer redução a estilo é um grande desperdício, sabe? Toda e qualquer aproximação a Sun Kil Moon é mais feliz se for feita deixando artifícios de lado.

Kozelek adotou esse nome após o fim da banda Red House Painters, em 2001, com dois outros membros do finado grupo. Com o tempo, suas composições tornaram-se cada vez mais focadas no voz e violão (com o disco Admiral Fell Promises (2010) sendo todo gravado dessa forma), assim como o aspecto autoral do trabalho do músico cresceu a ponto dele ser de vez o eixo central da banda.

E isso é muito importante pra você saber como apreciar Sun Kil Moon. O músico escreve suas composições em primeira pessoa, narrando histórias que aconteceram com ele e com outras pessoas ao seu redor. Elas chegam às vezes com ironia, ou com uma certa morbidez e em outras vezes carregados de carinho. Esse ponto de vista explicitado permite com que ele mergulhe nos assuntos de uma maneira mais densa do que, talvez, aconteceria se as músicas estivessem sido escritas a mais de duas mãos.

O tal fator pessoal logo é percebido quando vemos os temas que ele trata, como a morte, família e paixões antigas. Ok, não são assuntos pouco repetidos na música, mas viram preciosidades relacionáveis nas mãos de Kozelek e fica difícil não se identificar com o que ele canta – ou, ao menos, compreender a dimensão emocional daquelas situações.

Por fim, fica a sugestão de você ouvir cada álbum do cara do início ao fim, algo muito mais interessante que as faixas soltas. Sabe quando você vai ouvindo um disco, mesmo que esteja fazendo qualquer outra coisa, e ele vai te envolvendo cada vez mais, até certo ponto em que você não quer que ele acabe? É o que acontece com qualquer um do músico.

Sun Kil Moon rende muito assunto, mas o primeiro diálogo deve ser do ouvinte com a música. É o tipo de som para você ouvir com fones de ouvido primeiro, aproveitando ao máximo cada um de seus versos, para depois poder debater com alguém. De tanta pessoalidade que exalam, os álbuns tem grande chance de se tornarem amigos frequentes no seu dia a dia. E é aí que fica claro de uma vez por todas quanta sensibilidade e talento existem na mente por trás dessas músicas. E é aí que encontramos sua melhor qualidade.

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ARTISTA: Sun Kil Moon
MARCADORES: Conheça

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.