Warpaint, um Organismo Vivo na Música

Recente e elogiado novo disco das californianas é a consolidação de um som natural e original

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Podemos associar a música a um organismo vivo. Cada elemento que compõe a arte é um sistema, uma parte fundamental para que a ideia ganhe vida. Assim como existem gêneros ou canções que seguem à risca o seu funcionamento em compassos 4/4 e aquele velho esquema de introduçao-verso-refrão-verso, outros tentam fazer algo novo. Exemplos não faltam quando pensamos em grupos que tentaram pensar fora da caixa, e Warpaint é um deles.

Dentro de um bloco de difícil definição sonora, dada sua amplitude de espectros, simples mas tão orgânicos, o grupo feminino cria uma música deliciosa. Não é muito abstrato imaginar o porquê de um dos maiores guitarristas do últimos 20 anos – não existe discussão quanto a isso- , John Frusciante, ter se apaixonado e apadrinhado o quarteto de Los Angeles. Seu experimentalismo à flor da pele, sensualidade e um apego fortíssimo por melodias as fazem irrestíveis logo de cara. Theresa Wayman e Emily Kokal, a dupla de vocalistas que se alterna na função, revelaram grande sinceridade e feminidade no lindo The Fool (2010).

Vibrante e enérgico, o disco mostrava logo de cara a saída de um conceito fechado de composições. Baixo, bateria, guitarras e vozes pareciam fluir em um mesmo ritmo, enquanto, ao mesmo tempo, cada instrumento tinha a liberdade necessária para sair do roteiro. Eram normais quebras de levadas na percussão, uma base de baixo hipnótica que entrava e saía sem sobreaviso e construções melódicas riquíssimas e inesperadas. Casos como Shadows, balada que se revela uma combinação de texturas vivas e que demonstra ferocidade no momento certo. O vazio que surge no meio da faixa, entre voz e bateria é simplesmente sublime.

Apesar de encontrarmos baladas no primeiro disco das meninas, a sensação que temos é a de este registro é mais colérico mesmo com tanta viagem sonora. A hipnose orgânica escutada em faixas como Bees poderia colocá-lo em diversos estilos: Art Rock, Math Rock, Trip Hop. No entanto, se trata de Warpaint e seu som começou a criar-se a partir do feeling das artistas, não de conceitos pré-estabelecidos. Logo, quando Warpaint, novo disco, surgiu algumas pessoas viraram a cara. O impeto parecia ter sido deixado de lado e o torpor havia tomado o seu lugar.

Certamente, este trabalho é muito mais sensual, mas ao mesmo tempo mais denso. A capa com imagens sobrepostas é uma analogia às já usuais texturas sonoras utilizadas em construções que remetem a um organismo vivo menos sistemático. Esta aura mais nebulosa contradiz com a direção de arte de The Fool, expressionista e violenta. Como se, enquanto o primeiro trabalho fosse um grito guardado para estabelecer uma linha de pensamento, Warpaint surge como a maturidade, segurança e (por que não?) o espaço para o flerte. É assim que ambas as vocalistas dialogam com o ouvinte, através de sussurros, faixas igualmente experimentais e mais lisérgicas.

Em entrevistas durante o processo de gravação, o grupo dizia que este seria o seu disco de Hip Hop e, em outros casos, o seu Dark Side of The Moon. Longe de quaisquer semelhanças, talvez a obra seja realmente um híbrido disso tudo, se resumirmos ambas idéias a batidas e psicodelia. Como em Hi, Trip Hop viajante, ou Biggy(seria uma homenagem a Notorious B.I.G.?) que fixa o ouvinte em seu sintetizador para depois abrir espaço para levadas lentas de guitarra. Tudo é muito sensual e sentimos que os aspecto mais letárgico que acompanha o disco é semelhante à troca de olhares antiga que fazia da “paquera”, em tempos menos virtuais, um verdadeiro jogo. Orgânico, o desafio estava não só em criar uma correspondência imediata mas também em agir, ao vivo. O xadrez que as relações atuais nos força a jogar, em que pensamos cuidadosamente em qual peça ou jogada utilizaremos – “mando ou não mensagem?”, “curto ou não um post?” – não parece fazer parte do escopo destas meninas.

Vemos, no entanto, espontaneidade dentro do disco e, apesar de o som do grupo se mostrar calculado em alguns momentos – o baixo entra na hora certa, a bateria parece acompanhar o ritmo na voz –, percebemos que a música é feito com puro sentimento e expressão aqui. Assim como Nik Silva terminou a sua resenha, o segundo disco das meninas se matura como um vinho envelhecido. A cada novo gole, uma nova incurssão – nos vemos mais absorvidos pelo poder sexual e menos direto que a obra tem. Provavelmente, logo de cara, não seja tão bem digerido, ainda mais se não for acompanhado de um ambiente ou de uma tranquilidade que se mostra exigente aqui. O torpor proporcionado é, entretanto, um doce veneno que envolve cada vez mais o ouvinte e nos apaixona, da mesma forma que John Frusciante se encantou no já longínquo 2008. Logo, “orgânico” é a melhor definição que conseguimos chegar ao já quase indefinível som feito pelas californianas. Um organismo menos restrito e plural, algo que deveria ser escutado cada vez mais vezes na música.

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ARTISTA: Warpaint

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.