Iron & Wine: A Religião da Natureza

Sam Beam constrói com seu Folk metáforas naturais para a contemplação da vida

Iron & Wine: A Religião da Natureza

Há um par de séculos, a humanidade atinou que o ato de contemplar a natureza correspondia ao ato de contemplar a si mesmo. É um momento decisivo na história daquilo que entendemos por subjetividade. Vou emprestar as palavras de André Felipe de Medeiros sobre o assunto:

“Existe um tema bastante recorrente na pintura do Romantismo que é o ser humano em frente à imensidão da natureza, seja ela o mar, uma cachoeira, um vale ou qualquer outra cena que faça o personagem reconhecer o seu tamanho diminuto perante o mundo, ao mesmo tempo que aquilo que ele observa reflete também a projeção que ele faz de seu imenso interior. Ou seja, o homem é capaz de se ver como tempestuoso, denso ou mesmo infinito da mesma maneira que observa a natureza. Há também uma correlação interessante entre a música Folk e o Romantismo, não só pelo conceito de ‘folclórico’ ter nascido nessa época, mas porque o gênero como o conhecemos hoje costuma dialogar com os mesmos elementos naturais em suas figuras de linguagem para, assim como a arte daquele movimento do passado, também exprimir conteúdo introspectivo, contemplativo e, ao mesmo tempo, universal. Não é à toa o estilo inspirar-se tanto no homem interiorano, aquele cercado de verde, para as suas composições”.

Iron & Wine, banda liderada pelo estadunidense Sam Beam, parece ser a manifestação de um projeto romântico de vida que resiste à passagem do tempo. São cinco álbuns - enquanto o sexto, já no gatilho, ainda não chega - que diligentemente exploram o mesmo tema. Uma vida frugal na qual o contato com a natureza evoca uma contemplação espiritual. É uma religiosidade no sentido original do termo, a da religação do homem com o mundo, e, portanto, com sua essência primordial.

A abordagem do assunto não é sempre necessariamente a mesma. Se Our Endless Numbered Days (2004), por exemplo, é um álbum que exibe um minimalismo melancólico de violão dedilhado, Kiss Each Other Clean (2011), por sua vez, aposta numa abordagem de efeitos especiais que remetem à psicodelia. Já Ghost on Ghost (2013) aproxima-se da celebração do Jazz. Qualquer que seja o ângulo pelo qual se olha, no entanto, a essência da música de Beam não muda. É um olhar que vê no céu o paraíso, no mar o mistério e no abismo a sombra dos erros passados.

O Folk que se confunde com o Americana foi um estilo expoente no início dos anos 2000. Não por acaso, é possível encontrar Iron & Wine em trilhas sonoras de seriados ou filmes americanos mais triviais como The O.C., Garden State ou Grey’s Anatomy. É fácil de entender o porquê: o que Beam oferece é uma simplicidade não maculada pela vida moderna e que enxerga nas coisas simples do cotidiano a poesia que dá sentido à profundidade da existência.

Artista: Iron & Wine

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