2013 em Pauta: Eletrônico

Saiba o que aconteceu de mais relevante (e também decepcionante) na cena que mais sofreu fusão durante o ano

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O fim do ano já chegou, assim como a hora de olhar pra trás e reviver um pouco do que de melhor aconteceu em 2013. Isso vale para todos os aspectos de nossa vida e, é claro, vale para a música também. Nesta semana, traremos resumos do que rolou dentro dos estilos musicais que mais se destacaram neste ano, apontando os melhores lançamentos, estreantes mais promissores e os fatos que marcaram esse ótimo ano.

2013 foi um ano de glória para a música. Tanta coisa aconteceu que não parece que tudo aconteceu durante somente 365 dias. No Eletrônico não foi diferente. Muito mudou. Muitos estilos foram criados, muitos subgêneros surgiram, além de várias discussões sobre suas existências também. E essa foi a cereja do bolo: a variedade do que foi criado. Produtores esbanjaram da liberdade de criação para produzir, resgataram influências antigas, inventaram algumas futuristas, misturaram estilos, experimentaram. Aliás, essa palavra traz um pouco da essência do que esse ano representa.

Falamos no artigo sobre os Melhores Selos de 2013 justamente do maior incentivo que selos estavam dando para prospecção e lançamento de novos nomes. Durante os dois semestres, tivemos o surgimento de muitos nomes talentosíssimos (alguns como promessa para 2014, inclusive), sem contar a consolidação de alguns projetos com um pouco mais de tempo de casa. Então, enquanto a gente relembra, vou trabalhar aqui com conotações controversas, além de comentar quem chegou bonito e a essência do ano.

Boas Vindas

Antes de tudo, falar quem chegou já dando chute na porta. London Grammar faz parte do time de 2013 que deu o que falar. O projeto (meio The XX, meio Florence + The Machine) veio com If You Wait no segundo tempo e já conquistou listas de fim de ano (e corações quebrados), assim como João Brasil e seu Rio Shock.

Bom / Morno

Lil’ Silva tem pouco tempo de estrada, mas já se mostrou visionário com The Distance. A volta ao selo Good Years trouxe mais confiança ao produtor e maturidade. Trazer o Soul para as produções e se engajar mais com os vocais foram acertos definitivos para obra. Outro destaque vem para Still Awake, de Ryam Hemsworth. Enquanto tentava impressionar trazendo a agressividade sulista do Hip Hop em seus edits, em 2013 resolveu botar sua cara a tapa e mostrar sua alma com produções mais pro lado do Downtempo.

Muito bom x Decepção

Não posso deixar de citar o retorno de produtores que fizeram bonito em seus lançamentos desse ano. Gesaffelstein (com Aleph) e Feed Me (com Calamari Tuesday) conseguiram trazer mais identidade para suas músicas e consagrar ainda mais suas produções como arte. Moderat tirou a máscara e achou sua identidade em 2013. O álbum, que recebe o nome do projeto, foge de apenas influências de Modeselektor e do Apparat e cria sua cara própria com Trip Hop, Techno e Experimental bem feitos.

Em contrapartida, tivemos lançamentos fracos de artistas que sempre impressionam. É o caso de Revolution do Diplo, que não chega nem nos pés de Express Yourself (do ano anterior), e Go Hard, do Boys Noize, que se aventura em tanto estilo que não parece ter tido tempo para fazer algo com foco e qualidade esperada. Ambos sob o mesmo álibi: chegaram num nível na carreira que os lançamentos não são tão ambiciosos quanto antes, mesmo porque estamos falando com, acima de tudo, empresários. A música, infelizmente, foi pro segundo plano.

Excelente x Péssimo

Pouquíssimas decepções (como Matmos e Destructo) não manchariam quem fez bonito. Destaque para Immunity, de Jon Hopkins, uma obra feita com perfeccionismo de poucos tem seu nível tão alto quanto o tempo que demorou para que ficasse pronto. O âmago de Hopkins foi transcrito durante oito músicas e serve como um convite para faixas com uma média de 12″ cada. Outra boa surpresa foi Cold Springs Fault Less Youth de Mount Kimbie. A dupla subiu um degrau de maturidade e produziu uma obra viva e melancólica, com ajuda da descoberta promissora (e jovem) King Krule. Como esquecer Flume e seu álbum auto-intitulado? O australiano trouxe uma obra que consagrou a Future Classic, trouxe o Hip Hop para produções Chill Out e deu muito certo. E, é claro, o nosso quase diretor Kavinsky, que soltou OutRun como um suspiro tímido e foi ouvido como um berro. O álbum é surpreendente, delicado, forte, misterioso e ousado na dose ideal: uma nova leitura do French Electro.

Como falar de “excelente” sem citar o álbum mais comentado (e esperado) do ano? Random Access Memories desbancou as paradas no mundo todo mostrando que os robôs também tem alma. O resgate dos anos 70 aqui foi um duro apelo à superficialidade das produções repetitivas do EDM. Os franceses contaram com ajuda do lendário Nile Rodgers e surpreendeu com mais uma proposta vanguardista. A lista aqui cresce com os irmãos Lawrence que, apesar de apenas 2 anos (e uns quebrados) de estrada, já receberam posição mais alta que do Daft Punk em muitas listas respeitadas pelo mundo. E, que seja feita a justiça, os londrinos trouxeram uma nova forma de ver o Deep House, acertando na dosagem certa de Pop dentro do gênero ao chamar artistas incríveis para coordenar o vocal de boa parte de Settle. Hoje, Disclosure é headliner dos maiores festivais do mundo e, nos últimos dias, lançou todo o LP com suas versões remixadas.

HÍBRIDOS

2013 foi um liquidificador de referências. O R&B veio forte no eletrônico, na mesma dose do Soul, com pitadas certeiras de Pop. O Trap desacelerou o Moombahton de 2012 e deu uma nova forma de ver o Hip Hop. Essa mesma agressividade atingiu o sofisticado com o estouro do G-House, ou “Gangsta House” para os íntimos. O EDM foi duramente criticado e, no entanto, vive seus maiores tempos de glória com descobertas e mais investimentos (Jacob Plant, Paris Blohm, What So Not, gravem esses nomes). O glorioso retorno do Techno “sofisticado” para as pistas e o início do reaproveitamento da percussão na música, afinal não é à toa que Martin Garrix ganhou Elektro Award de EDM original com Animals

Mas nada, nada, bate o Future Garage. A releitura do UK Garage foi uma forma de trazer os anos 90 com uma cara moderna. A incrível versatibilidade do gênero em mesclar com outros estilos botou o “Brit Hop” no topo dos rankings (e no ouvido de muita gente). Pode mesclar com Pop (AlunaGeorge, Disclosure), com R’n’B com (HudMo, Bondax), com Post-Dubstep e Soul (SKTRKT), e é exatamente a possibilidade de ampliar essa gama que faz o FG merecer esse maior destaque. E isso não vem somente pela quantidade de bons artistas crescendo no gênero, mas principalmente por trazer diversidade e cultura para um público que antes parecia estar estagnado no EDM e sedento por novidade.

O eletrônico, sob grande poder de preconceito de ser uma arte automática e “sem alma”, sobressaiu e chamou atenção justamente por se render ao interior. Nesse ano, os produtores perceberam que a única forma de chamar atenção entre tantas opções era trazer o diferencial cultural. Quem se deu bem foi quem teve confiança e injetou em sua música nuances de suas próprias percepções e influências. Tivemos obras em que a obrigação de fazer dançar foi deixada de lado e, com isso, foi aberta uma liberdade criativa para se fazer apenas música de qualidade, independentemente da proposta.

Definitivamente, 2013 foi um ano ímpar para o Eletrônico (desculpem a jogada). O ano serviu como uma aula para os últimos, aumentou o nível (e concorrência) e, consequentemente, a exigência do público. A pista hoje aceita referência e não é refém da rádio. Temos espaço para novos nomes e eles provaram que misturas são possíveis. Os paradigmas foram mudados, gêneros divididos e estamos só no começo disso. Aprendemos, no final das contas, que 2013 foi só precursor. Muito ainda vai mudar. E que assim seja.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King