Algumas Coisas Sobre Os Anos 60

Saiba mais sobre a década cuja história se confunde com a do Rock e entenda por que é considerada um dos períodos mais importantes da história do estilo com artistas como Rolling Stones e Beatles

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A sensação de mudança em andamento já era algo palpável quando Bob Dylan entrou nos estúdios da Columbia Records em Nova York para gravar Like A Rolling Stone, faixa de seu disco Highway 61 Revisited. Dylan já não era mais um cantor Folk em busca de afirmação numa América racista e resistente a mudanças profundas em pouco tempo. Ele já era um aspirante a mito, um cantor que, como alguns críticos diriam mais tarde, “havia conferido cérebro ao Rock”. Talvez a expressão seja precisa na medida em que, não só Dylan, mas outros compositores como John Lennon, Paul McCartney, Mick Jagger, Keith Richards, só pra ficar em termos de Beatles e Rolling Stones, já pensavam e vislumbravam no Rock um viés artístico que escapava do seu caráter inicial e intrínseco: ser uma corrente de energia em forma de música.

Se o Rock surgiu nos anos 50 como soma de uma série de fatores, foi nos anos 60 que ele obteve seu lugar consolidado como uma espécie de força artística-comportamental. Oriundo da fusão de ritmos brancos e negros, numa caldeirada que incluía Rythym & Blues, Blues, Country, Gospel e sons negros diversos, o Rock teve uma primeira geração que foi devidamente contida pelos mecanismos racistas e conservadores da América.

Chuck Berry, Little Richard, Bo Diddley e os demais cantores e compositores negros que afluíram às grandes cidades como Chicago. Memphis e Nova York, eram perigosos demais. Não seria “de bom tom” que as emissoras de rádio tocassem ritmos negros, a menos que fossem para outros negros ouvirem. A juventude branca, em sua primeira geração pós-guerra, desfrutando de capacidade de compra, de uma nascente indústria de entretenimento e sem nenhuma guerra para lutar, ansiava por algo que a distraísse. Aquele ritmo contagiante logo se espalhou e não houve como evitar sua presença no cotidiano daquela geração. Se os mecanismos de embranquecimento da música atuavam a pleno vapor na América, o mesmo não poderia ser dito da Inglaterra. Enquanto o bloqueio da mídia foi atuando sobre os artistas negros e os “negros sociais” como Jerry Lee Lewis e Elvis Presley (o primeiro cairia em desgraça por casar-se com sua prima de 13 anos de idade e o segundo iria alistar-se no Exército e iria para a Europa a serviço), outros artistas foram surgindo, bem menos interessantes e trazendo elementos do Rock originais devidamente diluídos.

Os efeitos do Rock estavam mais ou menos contidos na América no início da década de 1960. O que ninguém poderia imaginar é que os discos daqueles artistas negros originais iriam repercutir do outro lado do Atlântico, numa geração ainda mais sedenta por novidades e identidade. Os jovens ingleses, não todos, mas uma quantidade razoável, gostavam de música americana e consumiam a cultura produzida lá. Mesmo que fossem oriundos da classe operária de uma cidade como Liverpool ou de uma classe média londrina, era possível identificar neles o gosto pelas sonoridades que deram origem ao Rock. George Harrison, John Lennon e Paul Mccartney já tinham uma banda em 1957, o Quarrymen, e já eram Beatles quando decidiram ir para a zona portuária de Hamburgo em troca de dinheiro e oportunidades para tocar. Os nascentes Rolling Stones já frequentavam colégios e faculdades de Londres quando Mick Jagger e Keith Richards se reencontraram numa estação de trem (eram conhecidos de infância, mas nunca haviam sido grandes amigos até então) e uma pilha de discos de Blues desencadeou conversas e futuros ensaios.

O som que se produziu na Inglaterra do início dos anos 60, negro e americano até os ossos, mas feito por jovens brancos que nunca haviam pisado numa plantação de algodão, mas que tinham noção do sofrimento que uma guerra em seu quintal poderia acarretar, desembarcou nos Estados Unidos em 1963. Os Beatles lideraram o ataque, seguidos pelos Rolling Stones e mais uma série de artistas ingleses, num momento que foi batizado como Invasão Britânica. Ela foi crucial para que o Rock retomasse seu lugar nas mentes dos jovens e reativasse nelas a conexão libido-liberdade-juventude.

Com o frenesi das bandas britânicas em pleno vapor, Beach Boys e Bob Dylan foram atingidos de diferentes formas. Os rapazes da California se viram motivados a exceder seu compêndio de canções sobre carros, garotas e praia e pensar em situações mais interessantes, como, por exemplo, The Warmth Of The Sun, composta por Brian Wilson no dia em que o presidente Kennedy foi morto. Dylan já tinha um séquito de seguidores na cena Folk, mas, diante do poder irresistível do Rock, resolveu redirecionar seu canto violão-voz-gaita para uma abordagem mais elétrica, algo que ficou evidente a partir de 1965 em seu disco Bringing It All Back Home, quando decidiu conceder um lado àquela música barulhenta e maluca, que feria os princípios ortodoxos do Folk. Dylan trouxe muito das questões sociais do Folk para o Rock e influenciou a tudo e todos.

Este painel inicial é ilustrativo do poder que o Rock havia adquirido na cultura americana – e mundial – nos anos 60. A partir de 1965, o ritmo teve uma alteração significativa em termos de presença na vida das pessoas. Saía o Rock como mero entretenimento e entrava o Rock como estilo de vida, como trilha sonora da mudança. Bandas americanas já haviam retomado seu poder de fogo e uma nova geração vinha forte, com Byrds, Doors e Grateful Dead à frente. Artistas como Jimi Hendrix, americano, mas que faria sucesso na Inglaterra e Janis Joplin, americana e branca, mas que cantava como uma negra, também vinham como forças propulsoras daquele novo momento da música Pop.

O historiador inglês Eric Hobsbawm faz uma análise interessante deste momento da música da década de 1960. Ele que, antes de ser um estudioso dos eventos históricos, sempre fora um fã de Jazz, observa alguns pontos importantes sobre a prevalência do Rock como ritmo da juventude daquela década. Ele constata que o Rock traz mais fatores que apontam para uma maior capacidade de transmissão junto a um público maior, com aspectos indo desde o nível de habilidade dos músicos até a própria postura no palco e do conteúdo das letras. Os âmbitos público e privado têm suas características alteradas em meio à experiência do show de Rock’n’Roll, num nível que parecia inédito até então. A capacidade de falar ao público, a atitude ao cantar e o volume dos instrumentos constituíam um poderoso conjunto de fatores que conferiram ao ritmo a capacidade de assumir a caracterÍstica de igualar público e artista, num movimento que envolvia total sintonia entre ambos. Se alguém podia se divertir num show, agora era possível se identificar completamente com o que acontecia ali. A sintonia alcançada e outros mecanismos que confundiam os âmbitos público e privado, fizeram do Rock o primeiro ritmo a fornecer elementos que faziam com que o ouvinte pudesse de apoderar dele. Discos, pôsteres, memorabilia, tudo isso consistia em formas de ampliar a experiência do show, meios de levar um pedaço do artista e daquela experiência para casa, para ser vivenciada – ainda que de maneira limitada – a qualquer hora.

Essas mudanças na perspectiva de interação entre público e artista adubaram uma série de outras mudanças em vários âmbitos, como parte de um processo de transformação muito maior que o mundo experimentava. A consequente politização do Rock e, por tabela, das pessoas que o ouviam, era inevitável. O estilo engajou-se contra a Guerra do Vietnã, pelas liberdades individuais, pelos direitos civis, por tudo que existia como possível campo de discussão e tomada de posição. Hobsbawm descreve a década de 1960 em seu livro Tempos Interessantes, num texto especialmente dedicado a ela e pondera sobre como o período foi desconcertante em termos de propostas e ações, até mesmo para um comunista como ele. A juventude e sua força, devidamente potencializada por elementos como a música, entre outros, era praticamente invencível e não podia ser detida, afinal, o político havia adentrado a casa. Uma onda de movimentos pela liberdade, visando a expansão do próprio campo de ação em diversos níveis, a juventude permitia-se a ação porque a política que havia se engendrado no lar era uma política de escolha. E a escolha permeia a auto-realização, então, quando a política adentra a casa, e se torna política-vida, e liga corpo e eu em um ato de reflexão faz que a com a própria auto-realização seja um projeto político de presente, e não mais uma meta lançada para um hipotético futuro de superação.

A trilha sonora disso era o Rock, justamente pela capacidade de mesclar público e artista, desempenho e canto, e torná-los um só. Hobsbawm, um fã ardoroso de Jazz, imaginava que seu estilo musical favorito estava credenciado para sonorizar as mudanças do porvir mas admite na Introdução Á Edição de 1989 da História Social do Jazz, que o Rock havia assumido esse papel e nada poderia reverter isso – o Jazz era muito etéreo, e a juventude necessitava de corpo, esse corpo era o Rock – e que ele, Hobsbawm, só muito mais tarde se sentia capaz de admitir que não havia entendido nada dos anos 60 ou, como também ressalta, quem realmente viveu os anos 60 não se lembra deles.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.