Bob Dylan, o Vendedor de Automóveis

Músico gerou polêmica ao participar de vídeo comercial exibido durante o Superbowl

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O mundo da música popular está em polvorosa. Robert Zimmerman (mais conhecido como Bob Dyla), 72 anos (completará 73 em 24 de maio próximo), um dos grandes ícones da cultura do século 20, estrelou um comercial da Chrysler, exibido durante o Superbowl (grande evento do futebol americano nos EUA), domingo passado, 02. Nele, Dylan, devidamente recauchutado por tinturas para cabelo, botox e discretos efeitos especiais, aparece em meio a símbolos da cultura norte-americana (gente jogando sinuca, parques de diversão, basquete, beisebol, bandeiras tremulando e, é claro, carros) com atitude solene, fazendo uma defesa emocionada da indústria automobilística americana, sobre como esse segmento da economia foi importante para o país e, ao fim, usando a Chrysler como uma herdeira genuína desse legado, ainda que tenha sido alvo de uma fusão com a montadora italiana Fiat. Só um tostão sobre esse movimento industrial: a FCA (Fiat-Chrysler Automobile) não será nem americana, nem italiana, tendo suas sedes na Holanda e Inglaterra, com cotação em Nova York. Será, portanto, mais um conglomerado internacional sem face.

É claro que alguma face precisa vir à tona e quem melhor que Dylan para vender um carro no intervalo comercial mais caro da TV mundial? Logo ele, um homem acima de qualquer suspeita, um participante do último grande momento de contestação cultural e comportamental da humanidade, que teve seu lugar no fim dos anos 1960, aparece nas telas do mundo fazendo uma apologia a uma manifestação clássica do imperialismo e da truculência americanas. Mas, me digam, Dylan não é um americano? Mesmo que tenha dito que a “resposta vem com o vento”, “os tempos estão mudando” ou “quando você não tem nada, não tem nada a perder”, ele nunca se posicionou com ênfase contra qualquer forma de opressão capitalista ou americana. Tampouco se manifestou severamente contra os conflitos armados fora de território americano, ou seja, todos nos quais os ianques se meteram desde a Segunda Guerra Mundial. Quando foi a hora de se posicionar, a partir de 1967, Dylan lançou discos ambíguos e estranhos – ainda que muito bons – como John Wesley Harding, Nashville Skyline e Self Portrait – claramente propondo uma alternativa a qualquer palanque ou ataque contra posições conservadoras dos governos americanos. Ao contrário de seus mestres, Pete Seeger e, principalmente, Woody Guthrie, Dylan não tinha um violão que matava fascistas.

Não é espantoso que Bob surja vendendo carros americanos (que não são mais americanos) para o público. O país dele enfrenta uma grave crise financeira crônica. Os carros que mais circulam por lá são os japoneses. Mesmo assim, com um motivo supostamente justo, dá a sensação de que um dos últimos pilares de um mundo mais defensável e compreensível foi, finalmente, tombado pela força da grana. Dá a impressão que o Rock, este suposto ente cultural incorruptível, caiu diante da pressão dos números. Que nada, gente. Dylan defende um símbolo clássico de uma América imemorial, de um tempo em que tudo era mais compreensível. Ele deve sentir saudade desses embates entre bem x mal, claro x escuro, pau x pedra, típicos do fim do século passado. Essa ambiguidade dos nossos tempos é muito confusa para ele, ainda que, secretamente, o velho possa só estar passando um grande trote no mundo. O que conta, ao fim de tudo, é imaginar quem compraria um carro de luxo caríssimo com o aval de Dylan, que, cá entre nós, não tem cara de quem é confiável nesse ramo ou que nem sabe, ao menos, dirigir um automóvel. Nesse ponto, outro bastião do Rock envolvido com carros, Neil Young, parece muito mais credenciado, ainda que misture sua paixão por veículos com uma preocupação ecológica sincera.

E o Rock? O Rock, meus caros, é uma força da natureza. Sempre foi mais instinto que erudição, mais bebedeira que poesia. Dylan ousou trazer literatura para a combinação que, antes dele, só atingia o ser humano na altura do hemisfério inferior. Ainda é assim, o Rock não é incorruptível ou puro. Como toda força da natureza (humana), só precisa ser entendida, analisada e, por fim, utilizada. A Chrysler (ou a Fiat, não importa muito) soube fazer isso muito bem. Do contrário, este artigo não existiria e pensaríamos que Dylan seguiria nessa vida como um sujeito mais impoluto do que realmente é.

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ARTISTA: Bob Dylan
MARCADORES: Discussão

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.