Cadê: Marina – Fullgás (1984)

Disco muito bem gravado hoje soa deliciosamente datado, totalmente com sua época

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Antes do início da década de 1980, havia uma espécie de zona mista entre o que viria a ser chamado de Rock e setores mais arejados do que se entendia por MPB. Era aquele território “nem barro, nem tijolo”, que abrigava tanto gente novata como Beto Guedes e veteranos como Rita Lee. Artistas que cantavam em português, tinham tradição e público consolidados mas que se deixavam influenciar por informações vindas da música internacional em diferentes medidas. Dentre os tais novatos, estava a cantora e compositora Marina, filha de pai economista, irmã do poeta Antônio Cícero. Ela vivera sua infância e início da adolescência nos Estados Unidos e se iniciara no violão bem cedo, a partir de um instrumento dado pelo pai. Começou a tocar e logo depois já se arriscava nas composições. Pode parece estranho, mas ela e Rita Lee eram, nesse fim dos anos 1970, as únicas compositoras dentro da “MPB”, esse território eminentemente masculino desde sempre.

Marina chegou como uma portadora dessa sonoridade que se insinuava, nem tão Rock, nem tão MPB, arejada, com ambiências nítidas da Zona Sul do Rio de Janeiro e suas noites boêmias em lugares como o Baixo Leblon. Era o habitat de grupos de teatro como o Asdrúbal Trouxe o Trombone, malucos em geral e novos/novíssimos candidatos ao posto de popstar. Ainda não havia Rádio Fluminense ou Circo Voador, era um tempo, digamos, de transição. Marina lançou seu primeiro álbum, Simples Como Fogo em 1979, com certo burburinho. O trabalho seguinte, Olhos Felizes, lançado em 1980, traria um grande hit, Esse Estranho Amor, cantada em parceria com ninguém menos que Caetano Veloso. Seu maior sucesso até 1984 seria, sem dúvida, Charme Do Mundo, uma balada com uma pitada oculta de Reggae e muita informação musical, trazendo arranjo de teclados e guitarras em total sintonia com a música Pop da época. A parceria com o irmão poeta rendia frutos e foi direto para a trilha sonora da novela global Sétimo Sentido. Após quatro discos na gravadora Ariola, Marina iria para a Polygram, em busca de arranjos e ambiências mais próximas do som eletrônico da época, o que significava então, baterias eletrônicas e teclados, muitos teclados.

O álbum que colocaria Marina na ordem do dia viria em 1984 e atenderia pelo simpático nome de Fullgás. O título era uma mistura do conceito de “fugaz”, ou seja, algo breve, com a ideia de full gas, algo como “a todo vapor”, o bom e velho viva intensamente cada minuto como se não houvesse amanhã, devidamente reempacotado para aquele Rio de Janeiro tão peculiar em 1984. Já era outro mundo, se comparado à cidade do parágrafo anterior desse texto. Mesmo com uma nítida influência do Rock, não dá pra dizer que este seu quinto disco é um álbum que pertença totalmente ao estilo. Ele está muito mais para o terreno de composição Pop no qual também transitavam Lulu Santos, Vinícius Cantuária e, talvez, Ritchie. Era uma música Pop acima de tudo, funcionava como um bálsamo de modernidade para um gênero que sempre buscou ser compartimentado, no caso, a MPB, que, mesmo dentro dessa lógica, vinha recebendo informações musicais, principalmente a incorporação de teclados e sintetizadores nos arranjos. Fullgás já iniciava com a faixa título, maior sucesso da carreira da cantora, que tocou em rádios de norte a sul do país. Outro fruto da parceira com o irmão, Antônio Cícero, Fullgás, a música, foi páreo duro para clássicos do período como Tudo Azul (Lulu) e Só Você (Cantuária). O próprio Lulu, além de Liminha, Nico Rezende e outros ases de estúdio da época, dão as caras ao longo das canções do disco.

Além da faixa título, Marina ainda acertou na mosca em outras canções: a versão Tecnopop de Mesmo Que Seja Eu (de Roberto e Erasmo Carlos, que havia gravado a canção dois anos antes) foi outro hit de grande impacto em 1984. Me Chama, outro sucesso massivo nacional, que mostrava as credenciais de Lobão como cantor e compositor, também ganhava releitura elegante e de acento moderno por Marina, que já gravara canções dele em álbuns anteriores. Pé Na Tábua surgia também como uma simpática versão em português para Ordinary Pain, de Stevie Wonder, repetindo o que Gal Costa havia feito com Lately, que se transformou em Nada Mais. Dentre outras canções que não chegaram a estourar nacionalmente, mas que traziam qualidade, podemos citar Veneno, versão de Nelson Motta, e Mais Uma Vez, de Motta com Lulu Santos.

Fullgás é um disco muito bem gravado, deliciosamente datado, totalmente coerente com a época em que foi composto. Marina iniciava uma fase de sucessos arrasadores, que iria até o início dos anos 1990, quando, por conta da morte do pai e uma consequente depressão, teria sérios problemas com sua então bela voz. A cantora jamais foi capaz de reeditar seu timbre característico e, apesar de tentar vários expedientes e mudanças em seu trabalho, perdeu grande parte de seu atrativo. Fullgás foi reeditado em CD em meados da década de 2000 e está fora de catálogo. Seu preço varia entre R$40,00 e R$80,00.

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ARTISTA: Marina Lima
MARCADORES: Cadê

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.