Lisbela, Trilha-Sonora e o Prisioneiro

Breguice e peso se misturam na adaptação cinematográfica da peça, que tem nomes como Los Hermanos, Caetano Veloso e Sepultura na trilha

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Se querer um amor tipo de cinema é comum em nossos dias, quanto mais em uma época em que a sétima arte possuía um brilho que acabou se perdendo em meio aos tantos lançamentos arrasa-quarteirões que invadem as salas semanalmente. Lisbela e o Prisioneiro (2003) resgata o lado mais romântico dos filmes de amor sabendo se aproveitar do peso que o cinema contemporâneo consegue injetar em qualquer história – e sua trilha-sonora tem grande culpa nesse feito.

A moça do título (vivida por Débora Falabella) é uma jovem que vive em uma cidadezinha do Sertão perdida no tempo. É lá que ela conhece Leléu (Selton Mello), um forasteiro que lhe oferece a chance de viver uma trama muito mais emocionante do que aquela que seu noivo coxinha poderia lhe dar. Tudo é contado ao utilizar diversas referências metalinguísticas, como o trailer abaixo mostra.

O tom do filme se dá pela teatralidade de várias cenas (lembrando que o Lisbela e o Prisioneiro original é uma peça de Osman Lins), pelos cenários kitsch e pela música, que situa o espectador no universo brega tão popular na cultura de pequenas cidades do interior brasileiro, sem ter medo de permitir-se soar pesado demais em momento algum. Para isso, diversos grandes nomes das mais variadas cenas musicais brasileiras contribuem para o tom da trilha: Los Hermanos, Caetano Veloso e Sepultura são alguns deles, por exemplo.

A banda de Camelo e Amarante traz um dueto entre os dois em Lisbela, com uma viola caipira que acompanha a letra quase narrativa sobre como a personagem-título se sente, querendo “a sina de um artista de cinema” e “um beijo imenso onde eu possa me afogar”. É uma daquelas músicas que funcionam bem no início do filme, para apresentar a protagonista, dando bem o clima da comédia romântica.

O tema do mocinho também ficou por conta de um dueto, um menos comum do que o anterior: Zé Ramalho e Sepultura em A Dança das Borboletas. Enquanto o músico empresta seu caráter regional à música, a banda de metal contribui com a intensidade sonora característica do gênero. É a tradução perfeita da força de vida que o personagem tem e que tanto causa impacto em Lisbela.

Para dar o clima de comédia romântica à produção, músicas como Oh Carol, clássica de Neil Sedaka interpretada por Jorge Mautner e Caetano, conferem o tom certo de bom humor sem deixar um certo refinamento de lado – o que não poderia ser diferente com dois nomes como esses presentes em uma mesma canção.

Mas, como em toda boa história, é necessário que exista um conflito que mova a trama e molde os personagens. A canção que acompanha o drama é Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, um clássico hino brega/romântico regravado por (novamente) Caetano. O melodrama natural dos versos sofridos sob uma percussão contemporânea caiu como uma luva para o romantismo exacerbado que Lisbela tanto idealiza e, finalmente, tem a chance de experimentar.

A conclusão, aquele momento após o clímax que dá um nó em todas as pontas da obra, vem com uma canção que não poderia ser mais propícia: O Amor É Filme, na interpretação de Lirinha (ex-Cordel do Fogo Encantado, hoje em trabalho solo) e composta por André Moraes e João Falcão (os responsáveis por toda a trilha de Lisbela). A música é a apoteose bem humorada e com coração que toca enquanto os créditos sobem e o final feliz (isso não é spoiler – estamos falando de uma comédia romântica!) ainda nos estampa um sorriso. Isso sem contar na letra que fala sobre, obviamente, amor e cinema – os dois temas principais da obra – no mesmo clima brega e guitarreiro de toda a película.

Você pode gostar ou não da vibe de cidadezinha do Sertão da história ou dessas músicas, mas qualquer apaixonado por cinema (e por música) precisa conhecer esse filme de Guel Arraes para ver como esses elementos dialogam. Vale muito a pena.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.