Modest Mouse: Uma Década de Ratos Elétricos e Pacíficos

Aniversário de dez anos de clássico da banda é a data perfeita para relembrar a importância do registro

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Quando uma banda possui vários discos, é inevitável que sua sonoridade mude. Ninguém aguenta fazer o mesmo tipo de som por mais de quinze anos e, portanto, acrescentar novos elementos ou até mesmo mudar completamente sua identidade musical às vezes é uma opção extremamente válida. Casos como Radiohead, Queens Of The Stone Age e Los Hermanos costumam vir à cabeça do leitor quando citada esta dinâmica das mudanças. Só que neles, ela costuma ser mais abrupta, sendo que às vezes nada prenuncia esta busca por sonoridades (como é o caso, principalmente, do primeiro para o segundo disco de Los Hermanos). Mas existem vezes em que você escuta sutilmente nas faixas de discos anteriores, sinais de que algo vai mudar e se há um exemplo que defina bem isto, é Good News For People Who Love Bad News, quarto e o clássico disco de Modest Mouse.

Lançado há dez anos, ele se posiciona entre os fãs da banda como um dos mais bem recebidos. Como é sabido, o conjunto vem de uma formação extremamente Indie 1990, no melhor estilo “banda de garagem”. Grupos como Lync, Kicking, Giant e Built To Spill estavam entre as influências dos integrantes, o que é possível perceber ouvindo o segundo disco, The Lonesomecrowd, um relato muito forte das dificuldades econômicas em Washington nos anos 90. Entretanto, em alguns momentos destes três discos que precederam Good News…, você escuta claramente prenúncios dele. Seja uma guitarra mais reverberada e limpa em meio ao caos sujo, uma melodia um pouco mais suave, ou timbres que se assemelham (assustadoramente) ao que encontramos no disco de 2004, parece que está claro: o registro já estava sendo feito na cabeça de seus integrantes.

O disco mostra um dos melhores exemplos de como se reinventar sem desconsiderar o passado. A inovação aqui fica por conta de novos instrumentos, como contrabaixo, sintetizadores, banjo, harpa, trompetes e mais. A princípio, são elementos que entrariam em contradição com o Indie Punk que vinha até então. Porém, por meio de excelentes letras, a eclética voz de Isaac Brock e sua exploração sonora, Modest Mouse conseguiu juntar tudo de uma forma harmônica que inovou com a agressividade. É curioso que esta mistura acaba gerando uma espécie de identidade cigano-pirata em certas faixas, uma referência completamente oposta à formação da banda e suas referências originais.

Talvez um dos grandes atrativos do disco seja justamente esta calma que ele traz, mas com uma agressividade curiosa. Estes dois elementos às vezes se alternam, mas as melhores faixas são fruto justamente da harmonia entre eles. Por exemplo: Satin In A Coffin tem uma letra agressiva e que funciona quase como uma marcha, mas em alguns momentos tudo isso cessa para que cordas entrem juntamente com uma linha de banjo tranquilizantes. Neste caso, há momentos que são calmos e outros, agressivos. Já em Float On, a guitarra reverberada do tema principal nos relaxa ao mesmo tempo que a bateria constante nos faz dançar e curtir. Há também aquelas faixas que servem apenas a um propósito: te acalmar (The World At Large e Black Cadillacs) ou te fazer pular e ficar elétrico (Dance Hall e Bury Me With It).

O disco é tão marcante e com uma proposta tão bacana que ela se manteve em seu sucessor We Were Dead Before The Ship Even Sank (embora ele seja mais agressivo, ainda há calmaria dentro dos acordes estridentes de guitarra). De fato, é um marco na carreira de Modest Mouse, portanto, escutá-lo seria uma boa comemoração. Na verdade, escutá-lo todo dia seria mais apropriado. Parabéns aos modestos (e incríveis) ratos por nos estressar e acalmar ao mesmo tempo.

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ARTISTA: Modest Mouse
MARCADORES: Aniversário

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.