“Solitude Is Bliss” – Isolamento na Hora de Fazer Música

Por que alguns artistas optam por se isolar de tudo e de todos ao produzir seus trabalhos?

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Isolar-se para compor e produzir um disco sempre foi uma escolha popular entre os músicos. É também, curiosamente, uma ferramenta que ganha muita atenção durante o período de lançamento, tornando populares frases como “tal música foi gravada numa cabana sem energia elétrica” ou “ela se mudou pro interior do Japão para produzir isto aqui”.

Em tais circunstâncias, as pessoas costumam olhar com outros olhos esses trabalhos, como se esperassem uma entrega maior do artista, ou aquela fosse a oportunidade de entender quem ele realmente é. Não sei se é para tanto, mas não há dúvidas de que um trabalho gravado em um local onde o músico estivesse isolado de sua vida cotidiana, retrata uma ideia um pouco menos influenciada por fatores externos e reflete pelo menos uma pequena porção mais crua dos sentimentos que passaram pelo compositor naquele período. Exemplos como Waxahatchee, Tiago Iorc, Cícero, Ty Segall e muitos outros nos deixam ainda mais curiosos para entender o processo por trás de suas belas composições.

Músicas e músicos são complexos demais para serem entendidos, mas, ao mesmo tempo, simples demais para serem discutidos. Porém nem por isso nós, fãs, deixaremos de tentar entender os processos desse ato que não é para qualquer um.

Acredito que um motivo que deve levar, mesmo que involuntariamente, muitos músicos a escolherem este caminho, é que o contato com o mundo às vezes desencoraja ideias que estavam em suas cabeças e para um artista isso pode ser uma das piores situações.

Sabe quando você pensa em algo que parece sensacional, então você tem o impulso de contar para alguém, mas só de abrir a boca, você desiste e começa a acreditar que sua ideia era péssima? Com certos projetos, isso até pode ser uma boa coisa, um feedback positivo, mas com arte é diferente, é impossível prever o resultado que um sentimento, uma ideia pode causar em alguém, sem que aquilo se concretize de fato e comece a chegar nas pessoas.

O isolamento permite que estas ideias amadureçam dentro da cabeça do músico e aquilo se transforme de fato em algo. Permite também, que o artista entre em contato com seu inconsciente, num processo que pode ser difícil para muitos, mas enriquecedor para outros.

Justin Vernon, em For Emma, Forever Ago, primeiro álbum de seu projeto Bon Iver, saiu da Carolina do Norte para a cabine de caça de seu pai, no Wisconsin, para gravar em isolamento total, por três meses, no inverno, se aquecendo com um forno a lenha. O próprio contou em uma entrevista “Eu não tenho muitas memórias concretas do período, porque acredito que eu estava um pouco fora de mim” e completa “Quando eu terminei, tinha um grupo de nove músicas. Eu não sabia exatamente o que elas eram, mas as coisas cresceram dali”. Caso Justin tivesse tido contato com amigos, ou com elementos de seu cotidiano, poderia ter começado a achar tudo o que produziu ali, uma grande piração e não nos brindaria com seu trabalho único.

Provavelmente vai muito do quanto o artista está a vontade consigo mesmo e com suas próprias ideias e sentimentos. Como já discutimos, mudar de ambiente também pode influenciar em uma obra, por conseguir resgatar estas particularidades e exaltar sentimentos que já vieram junto na mudança, mas para conseguir emocionar os outros, é essencial que tudo aquilo venha primeiro, das próprias emoções do criador.

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Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.