Dekmantel 2018: Nos Beats dos Hermanos

Atrações sul americanas mostram que efervescência Eletrônica prolifera pelo continente

Por Danila Moura, 08/03/2018, às 18:08

Fotos: Red Bull Content Pool

Provavelmente, um dos fatos mais interessantes desta edição do Dekmantel Festival São Paulo foi a presença de DJs e produtores sul-americanos de fora do Brasil.

Na escalação, a dupla Leeon e Mansvr, participante do Dekmantel Showcase, que rolou pela América do Sul no ano passado. Aqui, o duo abriu o palco UFO num set marcado por influências sutis e nada óbvias do universo do Latin Beats, um som Techno cheio de groove, que acelerou o BPM da pista desde o começo. Eles são os caras que fazem o booking e a programação do Video Club, na ativa desde 2016 em Bogotá, mostrando ótimos produtores locais, como Alejo V, Julian Gómez, Adi e Eva Luiz, entre outros.

Outro destaque veio de Medellín, o produtor Sebastian Markovich, que mostrou pela primeira vez seu projeto de sonoridades orgânicas no live Lust Attraction. Sebastian comanda a festa Move em sua terra natal.

Na programação da Rádio Na Manteiga, duas mulheres foram o centro das atençõe. Cecilia Yzarra nasceu no Peru, mas mora em São Paulo desde 2009. Na rádio, ela mostrou sua ampla coleção de vinis de ritmos regionais do seu país, devidamente mesclados com estilos brazucas.

Valesuchi, ex-participante do RBMA (Red Bull Music Academy), resolveu se mudar do Chile para o Rio de Janeiro. A DJ aproveitou para bater um papo com a reportagem do Monkeybuzzz.

Monkeybuzz: O que você julga de mais interessante quando toca na Mamba Negra? Como aconteceu a sua conexão com o grupo? Você se identifica com quais elementos desse coletivo formado majoritariamente por mulheres?

Valesuchi: Eu não sabia o quão bem eu podia tocar até eu tocar aqui no Brasil. Especialmente depois da minha primeira experiência na Mamba Negra. A festa tem uma força e um poder que para mim vem da combinação de uma galera muito diversa, que conhece e gosta de seguir uma festa liderada por mulheres, e que, acima de tudo, quer dançar boa música. As pessoas ouvem, seduzem com muita escuridão, mas com muita ironia. Para mim, esse é o ponto mais interessante e arriscado de sua identidade. A qualidade e a entrega de um partido que é fortemente político, que tem riscos constantes, mas sempre se comunica e cria com muito humor. É uma bofetada necessária e refrescante em tempos em que "a cena" parece levar muito a sério os gráficos de popularidade dos DJs e esquece que uma festa é uma instância artística coletiva de criação.

Mb: Eu já vi você muito emocionada durante um show do Marcos Valle. O que você gosta de ouvir de música popular brasileira?

Valesuchi: Chorei pela primeira vez que ouvi Marcos Valle ao vivo. É muito forte ouvir e ver alguém tocar com essa leveza e facilidade, esse tipo de talento abre todas as minhas perguntas sobre a forma como a música sagrada é e o pouco que nos pertence. Em geral, a música popular brasileira para mim representa uma bela contradição, uma confiança em elementos muitas vezes muito simples e que, se eles estão felizes, nunca caem no ingênuo. Esse tipo de emocional me inspira muito, a música aqui nunca parece bobagem.

Mb: Ainda rola o Nasty Woman? Conte mais sobre o projeto.

Valesuchi: No ano passado, Matias Aguayo estava em turnê e tocou uma noite com Carl Craig, que misturou uma faixa com um discurso de Obama. Matias gostou do exercício, que é muito icônico na história da casa e lembrou-se de ter ouvido o poema de Nina Donovan, uma menina de 19 anos, recitada pela atriz Ashley Judd na frente de um público de mais de 500 mil pessoas na March of Women, em Washington, e pensou que seria um bom discurso para fazer isso, mas que teria que ser baseado em uma mulher e escolher uma faixa que eu havia enviado há alguns anos atrás. Ele os editou juntos. Um dia, Matias me enviou um arquivo e eu não tinha idéia do que era, 30 segundos depois de ouvir, não conseguia conter as lágrimas. Foi um gesto muito poderoso para mim que Matías fizesse esse exercício. Ouví-lo nos alto falantes e como traduzir esse discurso em outro contexto foi muito forte. Liguei para ele e disse-lhe que achava que devemos publicá-la de graça, com urgência, que não importava quem tinha feito, mas era algo que tinha que ser ouvido agora. Ele adorou a ideia e ficamos muito felizes com a recepção que ele teve, todos o tocaram em todos os lugares.

Mb: Quais são os fatores mais diferenciais da cena Eletrônica brasileira que fizeram você querer morar aqui? Como está sendo para sua alma criativa mudar de ambiente?

Valesuchi: A razão número um de eu ir para o Brasil foram as pessoas, o tratamento humano, o simples calor do dia a dia e cumprimentar o outro calmamente, o sorriso. Embora a crise política esteja transbordando, não percebo que é uma crise espiritual, como é no Chile. Nas festas aqui, vivi uma liberdade e um respeito que não conhecia, empatia, celebração, dança verdadeira, em uma escala gigante. Conheci todos os tipos de artistas que recebi e me acolheram muito abertamente e sinceramente, recebendo o que faço e criando amizade, longe de qualquer inveja ou competição. Eu também poderia falar sobre a qualidade técnica da produção das festas daqui, mas isso tem a ver com outras coisas. Eu decidi viver no Rio também para me isolar, ficar mais calma e poder trabalhar mais concentrada. Estar afastada de minhas velhas distrações diárias é muito bom, porque não posso mais fugir de mim e da incansabilidade de fazer música. Uma coisa é amar a música e imaginar que alguém quer fazer música, e outro é realmente enfrentar isso e é isso que eu estou trabalhando duro.

Mb: Quais produtores e selos chilenos você indicaria para quem deseja conhecer sonoridades do seu país?

Valesuchi: Discos Pegaos, Discos Pato Carlos, Horrible Registros, BYM Records, Diamante Records, Panal Records, Pirotecnia, Discos Cetáceos, Cazador, Hueso Records, No Problema Tapes, Infinito Audio, Pueblo Nuevo, Modismo, Cazeria Cazador, Jacobino discos, ISLA, Uva Robot, Quemasucabeza.

Festival no Playcenter

A escolha da locação do evento no desativado parque de diversões Playcenter, reativou a memória de parte dos frequentadores que chegaram a ir ao local na infância. Curiosamente, em 1999 rolou a primeira festa Eletrônica no parque, dedicada ao Electro e Drum and Bass, do lendário clube Lov.e. Com a diferença que ainda tinham os brinquedos funcionando nessa época em pleno festival.

Em 2009, aconteceu a primeira edição do festival Planeta Terra, que levou Primal Scream, Sonic Youth, Iggy Pop & The Stooges, Animall Collective, entre outros. Coy Freitas, um dos organizadores do festival, relembra algumas curiosidades: "Preparamos uma seleção musical para tocar em cada fila de brinquedo, tive ajuda do Daniel Costa (do duo Lacosta). Foi mágico ter um festival em pleno parque. Em 2010, o palco em frente a montanha-russa teve de Yeasayer a Hot Chip, numa programação surreal. No show do N.A.S.A., do Zegon e Squeak E. Clean, um dos caras vestidos de boneco dançando no palco era apenas o diretor de cinema Spike Jonze (risos)".

Na edição do Dekmantel, a parte visual ficou por conta do SuperLimão Studio, responsável pelo projeto dos palcos. A GTM cuidou da engenharia e construção dos espaços. A 28 Room assinou o light design dos palcos, que teve um Main Stage e o UFO de visuais impressionantes. No segundo espaço, uma bateria de ventiladores de alta potência controlados via DMX faziam os efeitos das placas que se movimentavam no meio dos sets. E ainda refrescavam os clubbers que estavam na grade.

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