Entrevista: BaianaSystem

Russo Passapusso comenta o último carnaval e expectativa para show no Lollapalooza

Por André Felipe de Medeiros, 08/03/2017, às 18:38

Fotos: Filipe Cartaxo

BaianaSystem é incrível em disco e um monstro no palco. O conjunto de Salvador consegue incendiar o público como poucos fazem no Brasil hoje, principalmente ao levarmos em conta as referências do Axé e outros ritmos que nem sempre são vistos com bons olhos depois da superexposição que receberam de maneira tão diluída na grande mídia.

Semanas antes de agitar a tarde do sábado, 25 de março, no Lollapalooza Brasil 2017, BS foi assunto no país inteiro quando levou uma enorme multidão para seu show no carnaval baiano, o que coroou de vez a banda como um dos maiores nomes da música brasileira de hoje - algo que quem ouviu Duas Cidades (2016) com atenção já havia percebido - também pelo discurso crítico que promove em suas músicas, como na recente Invisível.

No aquecimento para o festival, Russo Passapusso tirou um tempo de suas férias para falar ao Monkeybuzz sobre os acontecimentos recentes e o show que veremos no Autódromo de Interlagos, respondendo nossas questões com seu jeito apaixonado e poético ("eu leio tudo com uma referência simbólica muito forte", ele explica) para falar de sua música.

Monkeybuzz: Não tem como começar a conversa sem citar o que acabou de acontecer no carnaval. Como você vê tudo o que aconteceu em Salvador com vocês?
Russo Passapusso, BaianaSystem: A gente não tinha expectativas, fora as coisas que já estávamos fazendo. A gente estava dentro de uma rotina de trabalho, discutindo como promover Invisível, discutindo o que essa música significava dentro da gente, se enxergar como agente da arte, mas também como influenciado por ela. A galera, quando vê o artista, acha que ele faz arte pro público, mas ele é a primeira pessoa tocada por aquilo ali que ele fez. Invisível vinha impactando bastante a gente nas discussões, pelo próprio tema, e a gente caiu na boca do carnaval. Quando a gente foi pro Furdunço (festa que antecipa o carnaval em Salvador), já foi um anúncio do que seria o carnaval, a gente começou a perceber como seria a catarse. O mar de gente ali para ver BaianaSystem, para mim foi o gênese do que veio a ser o feriado, as pessoas com todas as suas efervescências, todas as suas questões e respostas ali. Eu percebi muito a mistura de público, diferenças de idade, sexo, religião, foi muito evidente. E a comunicação do que a gente estava fazendo foi clara em cada rua que o trio passava, da história do disco Duas Cidades e de como essas músicas se comportavam em um trio elétrico. O mais importante de tudo isso foi perceber que o movimento é espiritual, que a música é algo que as pessoas sentem e, na transcendência, em suas catarses - sejam elas internas ou externas -, todo mundo tinha muito o que passar na troca, do que cada pessoa tinha dentro dela, com olhar, com sorriso, mensagens que vinham fora ao conteúdo das palavras e dos códigos de som, a gente conseguiu perceber além. Uma olhada pra baixo, uma vergonha, uma falta de vergonha, uma coragem, uma fé - eu consegui entender cada coisa dessas melhor nesse carnaval, essa pergunta e resposta não de palavra, mas de sentimento.

Mb: O que isso gera em você, como isso te abastece como músico? Aumenta um certo senso de responsabilidade, já que você percebe a voz que possui?
Russo: É um absurdo. O que abastece é o que tira (risos) porque sai muita coisa, mas volta muita coisa. Eu entendo como um rio que desemboca no mar. Você me faz essa pergunta e eu só consigo lembrar disso, dos troncos que ficam na boca no mar, aí voltam e se misturam na correnteza do rio, na correnteza do mar. A água doce, a água salgada, tudo isso começa a se misturar - como no carnaval, com movimento social, movimento espiritual, religiões, raças, tudo isso que vem renovando e aprendendo, errando e acertando, humanizando no sentido mais real da palavra, do humano imperfeito em busca de melhores atitudes e parâmetros, de quebras de comportamento. E você começa a repensar tudo o que faz, uma palavra que você disse, ou alguma coisa que cantou, porque viu que despertou algo que você nunca imaginou. Como ver as crianças que sobem no palanque dos bombeiros e, de repente, todo o público está olhando para elas e toda a energia daquela multidão vem daquelas dez crianças cantando aquela canção como se fosse algo delas. Comecei a perceber que perdíamos os estereótipos e os paradigmas e ficavam só as sementes a serem plantadas, o que te resta é esperança.

Mb: É interessante isso, porque as crianças são uma metáfora muito direta para esperança, não é?
Russo: Sim, absurdamente. Para mim, foi muito forte. Eu comecei a perceber que as referências tradicionais acabaram se misturando com as coisas contemporâneas, e as pessoas dançando como dançavam quando não existia nada eletrônico, quando era o Samba de Roda, ou a Marchinha. Ficam só as sementes plantadas daquilo que você trocou com o público. Você cercado de pessoas no trio elétrico, com o grito de guerra do “É só amor” que a gente falou ali e ecoou, ou a coisa natural dos movimentos sociais que a gente sempre trabalha e virou polêmica como se não fosse a coisa mais normal do mundo… Foi tudo muito verdadeiro. O que ficou para mim foi a força do povo nas ruas, uma força que assusta um pouco por ser tão grande quando todos estão juntos para além dos estereótipos, com o que tem dentro das pessoas. Isso leva BaianaSystem a querer promover uma catarse não só externa, mas também interna. Acho que Invisível foi o início disso.

Mb: Duas Cidades saiu no mesmo ano em que Wado lançou seu Ivete. Como você vê esse resgate ao Axé e outros ritmos baianos em uma pegada mais contemporânea?
Russo: Eu acho maravilhoso. Eu tenho um pouco de medo da palavra “resgate” porque eu acho que as coisas nunca pararam de acontecer.

Mb: Certo, é mais uma questão de colocar algo em evidência novamente.
Russo: Exatamente. A gente parou de ver porque parou de passar nos grandes veículos, seja em relação a Axé, ou Samba Reggae. Algumas coisas perderam espaço devido a exploração industrial do Axé, mas ele continua acontecendo e quem anda pelas ruas continua sentindo essas coisas. A gente que consegue captar essas coisas, porque estava no lugar certo e no momento certo, e consegue colocar tudo isso pra fora na hora de fazer um disco, precisa ter uma sensibilidade e uma pré-disposição grande para absorver isso e não caminhar junto dessa história de mercado, ou de música como competição. Para mim, essa é a grande virtude das pessoas que produzem hoje dessa forma, não ter que levantar estilos e estereótipos para referência, essa autenticidade. Que tenha cada vez mais pessoas com essa sensibilidade - não de buscar os rótulos, mas a essência do que está acontecendo.

Mb: Sobre o Lollapalooza, o que podemos esperar do seu show?
Russo: Então, depois do carnaval eu fiquei louco. Essas músicas se transformaram de uma maneira muito grande. Agora, a gente está em um processo de entender tudo isso para moldar o que será feito no Lolla. A gente vai fazer o show de Duas Cidades, mas ele agora vai um pouco além. A própria Invisível vem com um aspecto mais concreto, ainda que mais poética, mais “mundo líquido” do Bauman. Anteriormente, a gente tocava o que pegava a gente. Agora, a gente já sabe fazer o altar para colocar o poder da música, para onde vai e para onde vem essa energia. No Lollapalooza, vai ser muito bom porque a gente tem mais material para trabalhar esse show. Tem novas ideias de melodias, novas citações de rimas no meio das músicas, que eu vi que funcionaram com o público, novas canções que a galera nem conhecia no carnaval e funcionou… Eu vejo com muito material novo dentro das próprias canções, uma liberdade bem maior de experimentação, uma história meio sem medo de errar, sabe? Agora, é reformatar tudo o que a gente fez, ir para o estúdio e colocar todas essas lembranças para fazer algo para o Lollapalooza.

Mb: E qual show você mais quer ver no festival?
Russo: Metallica (risos), sou louco por Metallica, aquelas guitarras todas. São clássicos, com uma força absurda, uma energia Rock’n’Roll que eu não esperava que voltaria.

MARCADORES: Lollapalooza Brasil 2017, Entrevista
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