Emoção à Flor da Pele: The National e Ty Segall encerram o Primavera Sound

Neutral Milk Hotel e Charles Bradley fazem concertos históricos e marcantes no último dia do festival no Porto

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Fotos: Paulo Pimenta - NOS Primavera Sound

Logo cedo no sábado, podíamos notar que o último dia do Primavera Sound 2014 seria diferente: o Sol e tempo aberto pareciam propícios para os concertos que viriam a seguir. Menos introspectivo que a noite anterior, na que tivemos alguns dos shows mais bonitos e exigentes de todo festival, o encerramento do evento contaria com a emoção à flor da pele com The National, o Folk inspirador de Neutral Milk Hotel, o Rock & Roll de Lee Ranaldo and the Dust, Ty Segall e Cloud Nothings, além do Soul de Charles Bradley, a megalomania de St. Vincent e experimentação com Slint.

Em seu dia mais lotado de todos – o permissivo sábado -, podemos dizer que a maioria do público estava presente para ver The National, mas saiu surpreendido com alguns shows que se mostraram os melhores das duas edições do festival, Barcelona e Porto. Lee Ranaldo and the Dust, por exemplo, se enquadra no papel de boa apresentação para o final-de-tarde. Se o término de seu grupo, Sonic Youth, levou cada um de seus integrantes a seguirem carreira solo ou novos projetos, a escolha inicial de Ranaldo e seu disco solo, In Between the Times and Tides, foi um fracasso. No entanto, o guitarrista, à frente de sua banda de apoio, demonstra que pode fugir do histórico de sua antiga banda e criar algo novo, um Rock & Roll bastante básico e eficiente que se torna direto com a voz de Lee e, ao mesmo tempo, experimental à sua maneira quando ele improvisa na guitarra. As faixas de seu Last Night On Earth empolgaram os presentes, sendo uma boa diversão roqueira para o que viria a seguir.

Neutral Milk Hotel era um dos headliners do sábado e havíamos deixado propositalmente a sua cobertura para Portugal por um simples motivo: os portugueses adoram Folk e um concerto histórico deste porte fluiria muito melhor no país. Sinceramente, nunca imaginaria poder ver ao vivo o mítico grupo que, com apenas dois discos carreira, se tornara uma das maiores influências para nomes como Fleet Foxes e Arcade Fire, algo notado perfeitamente ao fim do concerto: sua teatralidade, diversas trocas de instrumentos e ímpeto (os músicos parecem tocar a última música de suas vidas sempre) são elementos que puderam ser vistos no último Lollapalooza e desde o primeiro show dos canadenses. O líder Jeff Magnum não aparenta mais a jovialidade de outrora, barba e cabelos longos o deixam com cara de andarilho, mas nem por isso diminuiram a beleza de sua apresentação. Antes de começar, ele daria uma aviso: “Desliguem os celulares”. Se tal pedido parecia um jeito do vocalista retornar ao tempo de seu último disco, In the Aeroplane Over the Sea de 1998, percebemos a sua real vontade ao final da apresentação: deixar os presentes concentrados e vivê-lo intensamente sem a preocupação de gravar aquele momento. E foi isso que aconteceu em um emotivo concerto com espaço para a maioria de suas músicas: King of Carrot Flower pt. 1, 2 e 3, Oh Comely, Two-Headed Boy e Holland, 1945 do seu clássico disco, além de Naomi, Song Against Sex e GardenheadLeave me Alone de sua estreía, On a Avery Island. O formato de sua exibição, em que os músicos (atores) são introduzidos aos poucos, trocam de instrumentos (papéis) e o toque folclórico de suas vestimentas interioranas dos EUA, fizeram daquele concerto um verdadeiro teatro musical.

Se não sabemos se veremos Neutral Milk Hotel gravar novas músicas, o que deixa a sua apresentação extremamente particular e emocionante, podemos dizer que o que veríamos em seguida se encontra em um patamar diferente. The National não precisa mais provar nada a nínguém e, se algo pode ser dito sobre o grupo, é que este se encontra em franca ascensão, mantendo o nível alto obra a após o obra, sendo o seu último disco, Trouble Will Find Me, dono de uma beleza ímpar. Ao vivo, a banda de Ohio alterna entre grandes faixas do passado sem se esquecer de que a turnê é relativa ao seu recente álbum: I Need My Girl, Don’t Swallow the Cap e Sea of Love ganharam ainda mais detalhes e deixaram o público visivelmente emocionado. No entanto, se tudo flui muito bem com a banda completa (sopristas inclusos) e suas harmonias, podemos dizer que o grande valor da apresentação consiste no dueto que o vocalista barítono Matt Berringer e o baterista Bryan Devendorf travam. O telão, alternando entre ambos somente durante a apresentação enquanto vídeos eram sobrepostos, explicita bem o nosso ponto: Enquanto Matt atua, se coloca quase à frente do público para cantar, xinga e berra de uma forma que é dificil de acreditar como ele consegue manter sua voz intacta, Bryan dá suporte a isso tudo, mas de uma forma muito pesada. É nos rudimentos de seu instrumento, nas levadas entre cada música e, sobretudo, no peso que dá ao seu instrumento que conseguimos perceber o porquê da maioria dos presentes estar lá: ninguém queria só se emocionar, mas também vibrar com um verdadeiro show de Rock. E foi assim que, ao longo de uma hora e meia, com participação especial de St. Vincent na tocante Sorrow, um jogo de projeções no telão e um aparato de arena, os norte-americanos fizeram o que todos já esperavam de sua apresentação: Emoção, raiva e torpor misturados sob o corpo e a alma de sua melancolia característica.

A mudança de rumos de St. Vincent em seu último trabalho, St. Vincent, passando de um FolkRock Experimental para uma vertente mais imaginativa e trabalhada do Pop, pode ser considerada fruto da parceria que a cantora teve com David Byrne em Love This Giant. O cantor, líder do Talking Heads, é notoriamente um perfeccionista e estudioso de espetáculos e música em geral, e os toques megalomaíacos da apresentação de Annie Clarke (cabelos brancos e roupas pretas com toques futuristas) mostram que seu rumo é a criação aos poucos de um grande espetáculo. O experimentalismo de seu recente disco e os elementos que o deixam mais pesado, como seus sintetizadores e elementos eletrônicos, impressionavam o público, que se espantava com a sua transformação artística em faixas como Rattlesnake, Prince Johnny e Huey Newton. Porém, apesar de toda a produção estupenda, seu concerto pareceu muito mais preocupado com verossimilhança com a sua nova cara, sendo mediano e se importando mais com a imagem do que o conteúdo sonoro, fugindo quase que completamente de suas obras anteriores, notavelmente mais frágeis e serenas, e sem o aspecto de “diva” que a cantoria possui agora.

Logo em seguida, poderíamos ver um músico em um patamar totalmente diferente, mas igualmente entregue de corpo e alma à sua arte. Charles Bradley tem uma história rica: passando por diversos trabalhos, inclusive fazendo covers de James Brown, o cantor de Soul foi descoberto pela banda que o acompanha agora, Menahan Street Band, em um destes acasos da vida. O resto é história para este senhor de 65 anos contar e, com dois discos em sua carreira, ambos com nomes relativos ao que viveu, No Time for Dreamming e Victim of Love, podemos dizer que ele está em sua melhor forma. Ao vivo, pelo menos para a maioria dos presentes – que não conseguiram ver o rei do Funk em seu tempo aúreo -, aquela foi uma das maiores apresentações musicais que alguém poderia ver, capturando a essência de uma cena musical quase inexistente atualmente.Charles não só se emociona ao cantar suas faixas tão pessoais como tem o verdadeiro papel de frontman: troca de roupa, dança entre seus músicos, gesticula freneticamente e manda no palco, como quando tocou Ain’t it a Sin, por exemplo. A fluidez da faixa parecia não agradar ao cantor, que em 30 segundos mandou os músicos pararem e decidiu cantar uma música diferente, Why is it so Hard?, surpreendendo todos – inclusive a banda, que parecia não entender nada. Claramente, era o concerto mais diferente em toda a programação do dia e a proposta de uma baile dos anos 1970 com muito Funk e suingue em uma calorosa apresentação foi muito bem aceita pelo público, que se divertiu e dançou como se fosse a última chance de ver aquele sujeito à sua frente. Com personalidade para seguir o seu sonho em uma idade tão avançada, Bradley era um exemplo para todos ali, seja ao chorar de verdade a cada música cantada, como Strictly Reserved for You e You Put the Flame On It. ou ao fim, quando o senhor foi até a grade e se deixou ser abraçado e beijado por todos.

Com apenas dois discos e um EP, Slint é conhecido como uma lenda viva que se reúne esporadicamente para tocar, mas sem nunca criar nada novo após o seu término em 1992. Mas, a maioria dos presentes queria um pouco do sabor da noite anterior, tomada por atos instrumentais preocuados em criar novas experiências sonoras. Se o grupo norte-americano tem um vocalista que alterna entre uma atitude Punk e outra poeta ao só falar versos, é na linha de trás que a banda mostra o porquê de ser considerada um dos pais do Math Rock. Acordes e tempos musicais pouco usuais, com instrumentos que parecem criar o seu próprio ritmo sonoro, contam uma história que se torna única ao final de cada música. A banda fez mais um concerto cinematográfico e que exigia a atenção de todos, mostrando que este tipo de contemplação sonora permite que cada um curta a apresentação à sua maneira, seja introspectiva ou frenética nesta mistura de Post-Hardcore e Post-Rock . Com espaço para seu clássico álbum, Spiderland ser tocado quase integralmente, a banda ressaltou a veia roqueira que o povo português tem e que já havia sido mostrada no dia anterior, mostrando também que grupos vistos anteriormente, como Godspeed You! Black Emperor e Mogwai, só existem devido ao experimentalismo inicial de Slint neste concerto forte e direto.

O Rock & Roll estava em pauta e Ty Segall mostrou por que é considerado o grande nome do gênero na atualidade ao misturar todas as suas vertentes: do Grunge ao Garage e do Punk ao Psicodélico, mas sempre com uma atitude de palco de alguém que sabe o que está fazendo. O guitarrista, no entanto, não tem vestimentas ou espírito de rockstar. É na verdade um sujeito que pode ser confundido com qualquer leitor do Monkeybyzz e que, à frente de seus instrumentos, se transforma: Toca guitarra de forma perfomática, incentiva o público a realizar mosh pits (com o mesmo pulando na galera, seja tocando seu instrumento ou cantando) e não para um minuto sequer. Incansável, o músico mal terminava uma faixa e já estava tocando de novo, uma escolha que não deixava os presentes descansarem igualmente. Podemos dizer que foi o único concerto de Rock verdadeiro em todo festival: se não bastasse a atuação única de Ty, a plateia se comportava de forma brutal com bate-cabeças, mosh seguidos ou simplesmente pulos frenéticos em uma apresentação que passou por toda a sua grande discografia. Tocou músicas de Ty Segall Band, como Wave Goodbye, I Bought My Eyes e Slaughterhouse, passou pelo seu ótimo disco Twins como Thank God for the Sinners (canção tema do Primavera Sound de Porto) e You’re the Doctor, além de outras tantas no meio de um setlist com quase 20 faixas em pouco menos de uma hora. Festejado e três anos e alguns discos depois em Portugal, o compositor pode mostrar seu verdadeiro valor no evento. Com uma banda de apoio igualmente competente e nervosa, o músico estava à vontade durante todo o concerto, mudando a introdução de algumas de suas composições para somente mostrar seu talento e energia. Girlfriend, emendada no cover de Feels Like Making Love (Bad Company), foi o grande momento de todo o show, com Segall se jogando na galera e seguindo os dizeres de Charles Bradley: “Espalhem o amor”. Olhando sob esta ótica, podemos achar que a apresentação foi doce e serena, mas tivemos a demonstração do que é o Rock na atualidade: Bruto e duro, mas com espaço para um grande guitarrista brilhar.

Seguindo o espírito roqueiro da noite, tivemos Cloud Nothings realizando um concerto diferente do que esperávamos. O grupo, idealizado por Dylan Baldi e com alguns ótimos lançados nos últimos anos, como Attack on Memory e Here and Nowhere Else, mostrou que ao vivo, pelo menos, sente a saída do guitarrista Joe Boyer no inicio do ano. Se o seu Indie Rock, com muitos elementos de Hardcore e Emo, nos chamou a atenção anteriormente, justamente por ser rápido e bem trabalhado em seus riffs e atitude de palco, a transformação da banda em power trio lhe trouxe coisas boas e ruins. Sai um pouco a melodia e entra um tom cru e seco, uma troca que soa bem em alguns momentos, mas derrapa em outros. Em Wasted Days, por exemplo, faixa que terminou a apresentação com mais de dez minutos de duração, foi a clara demonstração que o grupo ainda parece tentar se adaptar a ausência de um músico, trocando-o por ainda mais distorção, o que, mesmo para os fãs do grupo, não parece ser o ideal. Se sobra raiva e disposição do público em faixas como Pattern Walks ou Fall In, não podemos dizer que possa ser considerada uma experiência melhor do que o disco, pelo menos em termos sonoros. Em relação à atmosfera, o grupo consegue fazer com que os presentes esqueçam este problema de formação com uma atitude de palco feroz mas, não me deixa esquecer que as suas músicas não foram marcantes, pelo menos naquela noite.

O Primavera Sound 2014, festival de música de Barcelona e Porto, mostrou nessas duas semanas alguns dos maiores nomes da atualidade da música em duas experiências bem diferentes: Enquanto o primeiro pode ser considerado um grande evento mundial com diversas nacionalidades, palcos e um espaço gigantes, o segundo é sua a versão romântica e mais enxuta, propondo uma relação diferente do público com o evento, muito mais ligado à natureza e ao seu espaço de realização. Se as propostas de ambiente são distintas, podemos dizer o mesmo do som, mais encorpado na Espanha, mas que funcionou muito bem em Portugal, permitindo que o público conseguisse ver e ouvir artistas e estilos diversos, sem perder nada de relevante na cena contemporânea da música. Independente do país, o que podemos dizer é que participar de um Primavera Sound é algo que deve ser feito por qualquer amante da música, ou seja, qualquer leitor do Monkeybuzz. Após tantos concertos cobertos e a tentativa de mostrar tudo o que poderia ser interessante para vocês, esperamos que tenham gostado desta experiência.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.