New Order – 30 anos de Revoluções na Música

Banda britânica fará concerto histórico na última noite de Lollapalooza

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Em termos de importância musical e representatividade, New Orderé de longe a banda que mais chama atenção no cartaz do Lollapalooza. Há mais de 30 anos em atividade, o grupo, que se tornou um legado do Joy Division após a morte de seu genial vocalista Ian Curtis, já possuía dentro de seu corpo de integrantes músicos que lapidaram o que hoje é conhecido como Post Punk. No entanto, mesmo com a tragédia anunciada, Bernard Summer, Peter Hook e Stephen Morris decidiram seguir as suas atividades musicais com outro nome. O resto é história, mas sabemos muito bem que a música Eletrônica, o Rock e a fusão desses dois estilos feita pelos britânicos mudariam pra sempre a indústria.

Disputando, infelizmente, espaço com o também concorrido e lindo show de Arcade Fire, o concerto talvez não seja visto pela maioria dos presentes no último dia do festival e, por isso, resolvemos fazer uma lista do pior ao melhor disco da banda para te influenciar positivamente a não perder sua apresentação no próximo fim de semana. Tal seleção mostra-se complicada devido à pluralidade de gêneros e distinções entre as suas obras, o que torna as escolhas aqui muito mais pessoais do que baseadas na qualidade dos trabalhos, e a verdade é que não temos um disco que possa ser chamado de ruim dentro de sua discografia.

9. Lost Sirens

O último disco do grupo com o baixista Peter Hook não é propriamente um álbum conceitual e feito no propósito de demonstrar algo novo. É, na verdade, uma série de sobras do verdadeiro último trabalho do New Order em sua formação original, Waiting for the Siren’s Call, apesar de reunir faixas que poderiam ter sido lançadas anteriormente, é considerado uma obra dentro de sua discografia. Temos ótimas faixas como Hellbent, canção não tão inédita assim e presente na coletânea conjunta do Joy Division e do New Order, Total: from Joy Division to New Order, e a excelente I’ll Stay With You, além da chapada Californian Grass. Seguindo a tendência recente de aproximação de guitarras em detrimento de sintetizadores, o disco é mais roqueiro e moderno, mas não perde a identidade dançante do Dance Rock do grupo.

8. Republic

Lançado em 1993, e seguido posteriormente de um hiato para que seus membros pudessem realizar projetos paralelos, o disco é provavelmente o mais Pop do New Order. Alguns singles de sucesso, como Regret e Everyone Everywhere, trazem um lado sensual roqueiro, se afastam do Acid House antecipado em seu disco anterior, Technique. De certa forma maduro em sua sonoridade, mas ao mesmo tempo seguro do som feito, não é tão inovador assim e caminha para um resultado eficiente, porém não se aproxima dos melhores momentos do grupo. Além disso, sua capa horrorosa não convida em nenhum momento um ouvinte de primeira viagem a escutá-lo e demonstra que o advento do Photoshop serve para que trabalhos visuais como este não se repitam mais por aí.

7. Waiting for the Siren’s Call

Trazer de novo as guitarras e o baixo vibrante que se encaixa nos espaços deixados pela voz vazada, elementos que criaram a identidade do Joy Division, se mostrou certeiro. Sentimos o pulso do grupo de uma forma diferente no disco de 2005 e, mesmo assim, a deliciosa voz Pop de Bernard não nos deixa esquecer que o papel do New Order na música é nos fazer dançar, de uma forma ou de outra. Elogiadíssimo, o trabalho é verdadeiramente a última participação de Peter Hook na banda, algo que, se for efetivamente confirmado em seu próximo álbum, se mostrará um desperdício. A interação entre seu instrumento e a guitarra de Summer nunca se mostrou tão fluída e bela como em faixas como Who’s Joe e Hey Now What You Doing.

6. Brotherhood

O quarto álbum de sua discografia já consolidava um estilo definido anteriormente: Dance Rock, que revolucionaria para sempre a música como a conhecemos. No entanto, apesar desta identidade estabelecida , o trabalho traz bastante guitarra e não se mostra essencialmente sintético. Extremamente sensual, trouxe faixas como Paradise e a vibrante Weirdo para o ouvido do público. Curiosamente, estas faixas voltam a abordar uma atmosfera um pouco mais escura e roqueira, apesar da inevitável voz Pop de Summer. O Eletrônico já havia sido revolucionado anteriormente e o grupo já mostrava sinais de que partiria para outros experimentalismos. No entanto, hinos da EDM como State of Nation consolidaram a obra dentro da música e da discografia da banda.

5. Movement

“O primeiro trabalho do Joy Division sob o nome de New Order”, um claro título que – independente de suas influências – tentava se mostrar um divisor de águas na carreira de Hook, Summer e Morris. Este pode ser considerado quase que um disco do finado Ian Curtis. Apesar das influências da música Eletrônica, que já apareciam nesta banda em faixas como Isolation e She’s Lost Control, New Order caminharia em seu primeiro álbum, feito em 1981, para uma continuidade do seu Post Punk criado anteriormente. Bem pesado e com uma aura bastante melancólica, é um disco lindo e mostra toda energia de seus membros após a perda de um grande amigo. O nome de sua faixa inicial, Dreams Never End era um indicativo de que eles queriam se tornar realmente relevantes fazendo aquilo que amavam, a música. O vocal de Bernard ainda carecia de identidade devido a sua similaridade com a entonação de Curtis, mas mesmo assim revisar a obra e ver que de faixas experimentais como Truth, que já brincava com elementos eletrônicos e sintetizadores, sairia o Dance Rock é realmente interessante e chocante.

4. Get Ready

Se você se encontra na faixa dos 20 anos de idade, provavelmente já viu a capa desse disco de 2001 por aí em andanças por lojas do gênero. Belíssima fotografia e um olhar direto ao ouvinte, mostraria que New Order estava mudando de direção e que esperava o entendimento de seu público. O retorno após um hiato de oito anos seria acompanhado pelo retorno às guitarras, mas de uma forma mais expansiva, Pop, dançante e romperia com os padrões que estávamos acostumados. A escolha surpreendente e certeira criaria um disco de Rock moderno que, mais uma vez, influenciaria uma série de bandas. Tanto tempo afastado do New Order traria um Bernard Summer com um voz renovada, viciante e pegajosa. Este trabalho une todos os elementos, desde sua guitarra até o baixo de Hook de forma magistral e aqui temos momentos interessantíssimos em sua carreira como Crystal (seu clipe ajudou The Killers a escolher seu nome), 60 Miles an Hour, Turn My Way, com Billy Corgan do Smashing Pumpkins, e Rock The Shack, com Bobbie Gillipsie do Primal Scream.

3. Low-Life

“Como Low-Life é divertido” – este é o comentário que podemos fazer a respeito do terceiro disco do New Order que, mesmo tendo a difícil tarefa de substituir o trabalho mais famoso de sua carreira, Power, Corruption & Lies, ainda abria espaço para outras aventuras sonoras, como o Indie Rock dançante de Love Vigilantes, faixa com ecos de The Smiths, The Cure e uma série de grupos da década de 1980. Clássicos como Perfect Kiss, hino de gerações e que inundou clubes noturnos durante muito tempo, ou a incrível Elegia, colocam facilmente este álbum entre os maiores de todos os tempos. Seja pela pressão em sua criação, capacidade de continuar se renovando ou o fato de que mesmo já ganhando os ouvidos alheios com o novo Dance Rock criado, ainda experimentava e parecia não se acomodar tão facilmente assim. Do começo ao fim, provavelmente é o trabalho mais coeso, interessante e cativante dos britânicos. E a verdade é que daqui pra frente, qualquer disco poderia figurar no primeiro lugar.

2. Technique

Lançado no final da década de 1980, mais especificamente em 1989, é um retrato fiel do Acid House, gênero da música Eletrônica que pega alguns elementos psicodélicos do Rock e os une de forma sintética em um estilo extremamente viajado. Ao pegar uma estética que não dominava e criar um disco exemplar e virtuoso como este, New Order ainda conseguira popularizar o gênero como o conhecemos hoje e, de quebra, abriria espaço para que um Screamadelica do Primal Scream, por exemplo, surgisse dois anos depois e arrebatasse toda a crítica especializada. Apesar de ser quase um “trabalho de modos” ao abraçar o Acid House, ainda podemos perceber a famosa sensualidade do grupo atrelada a uma voz cada vez mais cativante de Bernard Summer. Apesar da enorme popularidade que o grupo já alcançava na Inglaterra, esse trabalho o levou pela primeira vez ao primeiro lugar no Reino Unido. É clara a Psicodelia sonora encontrada aqui em faixas como Fine Time, com Summer cantando de uma forma nunca antes vista, ou no batidão eletrônico de Round and Round. Mas, é claro, sem nunca se esquecer da dança orgânica que o baixo de Hook sempre proporcionou em momentos como All The Way e Love Less.

1. Power, Corruption & Lies

O segundo disco do New Order, lançado em 1983, foi o verdadeiro marco na carreira do grupo e determinaria para sempre os rumos seguidos pela banda desde então, se aproximando cada vez da música Eletrônica e criando aos poucos aquilo que viria a se tornar o Dance Rock. É notório o desprendimento em relação ao seu trabalho anterior, principalmente na atmosfera muito mais enérgica e alegre, e nos vocais de Bernard, que começavam a ganhar autenticidade e se distanciariam da tentativa de recriar o que Ian Curtis tinha deixado para trás. O delicioso álbum mostra também um frescor por experimentalismos típicos de uma banda nova, casos que podem ser vistos no Rocksteady de We All Stand ou na “kraftwerkiana” 586. Curiosamente, o maior sucesso de toda a carreira dos britânicos, Blue Monday, não foi lançado diretamente em nenhum disco em seu lançamento, sendo somente divulgado no formato de single. No entanto, a faixa é do mesmo período de Power, tendo sido lançada dois meses antes deste álbum. Logo, podemos considerar todas estas músicas como partes de uma mesma fase da banda, algo que foi confirmado quando o formato CD introduziu a famosa música em seu repertório. Blue Monday é considerada uma das canções mais famosas e influentes dentro da EDM e ainda é um dos 12 polegadas mais vendidos de todos os tempos. Sua duração de sete minutos nunca foi cortada, mesmo nas rádios, o que demonstra o seu poder musical: qualquer desvio faria com que tudo perdesse o sentido. Ao romper o histórico de filho do Joy Division e iniciar a criação de sua identidade, ao mesmo tempo em que se permitia experimentar e revolucionar, o trabalho é o melhor de sua discografia.

O show de New Order, encerrando o Palco Interlagos no próximo domingo às 20:30, será certamente histórico. Sempre temos aquele espírito com as bandas mais antigas de que “esta pode ser a sua última apresentação”. Será a última mesmo? Não sabemos, mas podemos afirmar que mesmo, sem um de seus pilares há três anos, o baixista Peter Hook, os britânicos ainda conseguem colocar todos para dançar, algo que Arcade Fire tentará fazer ao mesmo tempo no Palco Skol. Quem você escolhe, a cria ou a criatura? Blue Monday, ao vivo, no meio de milhares de pessoas certamente será inesquecível, uma verdadeira Rave no meio festival e provavelmente um dos concertos mais virtuosos e enérgicos desta edição do Lollapalooza. Se posteriormente o grupo acabar, o arrependimento não terá fim. Portanto, escolha bem o seu destino.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.