O espaço democrático da Ambient Music

Imprecisamente associado ao escapismo e a “uma música que pode ser ignorada”, o gênero ecoa poderosas manifestações políticas, expressas durante seus 50 anos de história

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Fotos: Kasia Zacharko

“O dever de um artista é refletir seu respectivo tempo”. Essa frase, proferida por Nina Simone há mais de 50 anos, é uma das maneiras mais fáceis de entender a complexa relação entre a música e a política. O artista estar inserido em uma conjuntura política é suficiente para que ambas as dimensões estejam interligadas. Da mesma forma que fazer política sempre está vinculado a um posicionamento ideológico, produzir música também nunca é algo gratuito ou neutro. Analisando os últimos 100 anos, não faltam exemplos que evidenciam esta intrínseca relação entre política e música: o blues e a música de protesto, o movimento Hippie/Psicodélico contra a política bélica dos Estados Unidos, a Tropicália contra a opressão e censura da ditadura militar, o punk inglês batendo de frente com a monarquia britânica, o Hip Hop como instrumento de denúncia social nos anos, o New Metal e os ataques ao governo Bush nos anos 2000 e, recentemente, artistas do Lollapalooza se opondo veemente às tentativas frustradas de censura do atual presidente brasileiro.

Todos estes são exemplos de como um artista reflete o seu tempo, também,  de maneira ativa e combativa. Quando ouvimos Rage Against The Machine, Bob Dylan, Racionais MCs ou Linn da Quebrada, a relação é muito clara e o discurso é direto  – ainda que sob metáforas. Entretanto, se todo artista reflete seu tempo, como um discurso político pode ser incorporado a uma sonoridade que tem, em sua essência, a ausência de palavras? Como uma estética sonora pautada fortemente no minimalismo pode ser agressiva contra um sistema político? Como a Ambient Music é política?

Primeiramente, algumas ressalvas, já que o próprio nome do gênero pode ter diferentes interpretações dependendo do contexto em que estiver inserido. Acima de tudo, é preciso afastar a ideia da Ambient Music como um registro manso e suave que tem a intenção de relaxar o ouvinte –  a tradução para o portugês de “Música Ambiente” certamente contribui para esta noção. Brian Eno, tido como o fundador do gênero, deu inúmeras entrevistas sobre os conceitos iniciais da Ambient Music, mas é particularmente na frase a seguir que começamos a compreendê-la como uma música para além do escapismo. Ele diz “A Ambient Music tem tudo a oferecer […]  Ela deve ser facilmente ignorável e , ao mesmo tempo, interessante”. Assim, o gênero ganha uma perspectiva mais ampla, tornando-se um espaço sem regras e que não deve orientar o ouvinte a nenhum sentido de antemão. Este tipo de música compreende tanto a experimentação sonora, quanto o sentido dado na cooperação entre o artista e seu público. O sentido da Ambient Music é uma construção coletiva, muito pautada no que Umberto Eco define como “Obra Aberta” – uma obra cujo sentido só é completado na troca de experiências.

Assim, o que era para ser algo escapista, se volta na direção oposta. Se a Ambient Music é fruto dessa construção coletiva, o âmbito político está intrinsecamente ligado a ela – afinal, não existe experiência humana que não seja afetada por essa dimensão. Quando Brian Eno compôs seu célebre disco Ambient 1: Music For Airports, ele não estava necessariamente pensando em uma crítica política direta. Entretanto, a leitura deste trabalho pelo jornalista Jack Needham aponta para algumas contradições. Ele relata que a matéria-prima do disco de Eno é, justamente, fruto de um ambiente com um fluxo de pessoas infinito, utilizando um meio transporte altamente rentável para as companhias, mas que também destrói o planeta. A obra de Eno ganha outro sentido, sem que necessariamente tenha de proferir uma palavra sequer – um álbum feito para ser ignorado, mas que possui mensagens fortes.

Em outro artigo que discute essa mesma relação entre a Ambient Music e o ato político, o produtor Hendrik Weber, mais conhecido pelo nome artístico Pantha Du Prince, traz a compreensão de que este gênero trabalha com os vazios, mas isso não significa que este tipo de música não tem poder. Em exemplo mais direto da força do gênero, ele traz o curioso caso de como seu disco Black Noise (2010) se tornou a trilha sonora de um grupo de jovens tunisianos durante protestos contra a violência policial em 2014. O álbum em questão mescla referências da Ambient Music com o minimal techno, tecendo paisagens sonoras intensas. Neste mesmo artigo redigido por André Boße, ele se pergunta por que uma sonoridade desprovida de um aparente discurso político chamou a atenção destes jovens para se fundir aos seus interesses políticos. Uma de suas teorias aponta para a ideia de que, por se tratar de um gênero que não impõe um sentido à priori, ela propõe um ambiente sem uma hierarquia de sentidos.

Assim, a Ambient Music acaba se tornando mais do que uma estética, mas um ambiente democrático em que diferentes sentidos são percebidos e, ainda por cima, potencializados. Segundo Boße, não é uma música de silêncio. É um silêncio melhorado. Uma música não autoritária sobre o ouvinte. Que permite que ele “se concentre em suas vivências, pensando por si próprio sobre o cosmos, a sociedade e a situação política”. É curioso como esse pensamento vai totalmente de encontro com as ideias de Paulo Freire, principalmente na radical noção de que “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Nesse sentido, a Ambient Music possibilita espaços de reflexão nos quais as possibilidades são infinitas.

Pulando do início da Ambient Music dos anos 1970 e indo diretamente para o novo milênio, encontramos The Disintegration Loops (2002-2003), uma série de discos que mostra de maneira clara as possibilidades de reflexões político-subjetivas que este gênero pode criar. Estamos agora no pós-11 de setembro, em um momento tomado pela paranoia e a falta de informação. Neste contexto, o criador do trabalho, William Basinski, trouxe à mesa uma nova maneira de se pensar aqueles acontecimentos recentes. Diferente de Rage Against The Machine que se colocou na frente da Bolsa de Nova Iorque para tocar “Sleep Now In The Fire”, Basinski optou por trabalhar a conjuntura política e o reflexo disso em sua saúde mental. Não apenas ele estava vivo durante os ataques às torres gêmeas, mas ele estava em seu loft em Nova Iorque quando os aviões colidiram.

A partir disso, o produtor separou diferentes trechos de fita cassete para serem reproduzidos à exaustão em seu gravador. Estes trechos foram ornamentados com reverbs bem densos, dando uma sensação quase claustrofóbica, muito parecida com as fumaças fotografadas para a capa do disco – tirada por Basinski durante os ataques de 11 de setembro. Conforme esses loops ecoantes persistiam, o rolo da fita cassete ia se desgastando, dada a má conservação das mesmas. Assim, ele gravou esse processo de deterioração das diferentes músicas, mostrando assim, sua forma de compreender a memória dos acontecimentos – se esvaindo aos poucos até que sobrem pequenos trechos que remetem ao evento original. Uma música dessa forma só poderia ser pensada em um espaço como a Ambient Music, colocando o artista a refletir sobre os acontecimentos e não escapando deles.

Pulando para a década de 2010, encontramos no polêmico vaporwave um outro espaço em que a Ambient Music serve como campo de reflexão sobre a política. Basicamente, o gênero foi construído a partir de diferentes recortes de samples dos anos 1980/90 e reproduzidos em tonalidades mais baixas e vários efeitos como reverbs e delay. Esse ambiente impregnado de sons traz uma concepção interessante sobre que tipo de música pode ser utilizado como um sample. O escopo é enorme: de canções pop dos anos 80 como a célebre “It ‘s Your Move” de Diana Ross até fitas cassetes que eram tocadas em grandes redes de supermercado (e que foram disponibilizadas na internet de graça em 2015). O vaporwave tira sua inspiração de canções altamente permeadas por uma motivação capitalista, que não tem outro propósito além de obter lucro a partir das vendas, ou que possam ser facilmente ignorada pelos consumidores.

Até mesmo as trilhas de fundo que eram usadas nos canais de previsão do tempo foram incorporadas como inspiração para o gênero – vale a pena conferir o curioso disco de ECO VIRTUAL,  ATMOSPHERES 第1. Esta relação da crítica do vaporwave ao capitalismo moderno é tão presente que, no documentário Vaporwave: A Brief History, sugere-se que o nome do gênero nasceu do conceito marxista das “ondas de vapor” – retirado do Manifesto Comunista no trecho em que Marx fala sobre a volatilidade da produção em oposição à mão de obra do proletariado. É difícil ter certeza sobre a origem precisa do nome, mas apenas o fato de isso ser sugerido já demonstra como as conjunturas políticas são pensadas de diferentes formas sob o espaço democrático da Ambient Music.

Recentemente, o disco de Huerco S, Plonk chamou a atenção dentro do cenário Ambient mundial pela forma como este se manifesta contra a ideia de “música para ser produtivo”. É um ataque direto às inúmeras rádios de lo-fi hip hop presentes do YouTube, não raro nomeadas como “música para escutar”, “música para focar”, “música para programar” etc. Brian Leeds, produtor por trás de Huerco S., compreende este tipo de música, como incentivo para que nos tornemos mais produtivos, atende a uma demanda capitalista. Assim, sua interpretação dentro da Ambient Music vai justamente no sentido de permitir que o ouvinte se perca dentro deste modelo de produção constante. A ideia por trás de Plonk é justamente tecer uma música que requer uma postura ativa e de pensamento constante do ouvinte, evitando que ele se torne um indivíduo que apenas cumpre as regras. Nesse sentido, a Ambient Music é libertadora.

Como Jack Needham definiu em um artigo para a Crack, a Ambient existe em um estranho paradoxo: um gênero feito para o consumo em massa e também para a solidão. A partir destes exemplos, começamos a compreender que o que pode parecer um paradoxo é, na verdade, a matéria-prima do gênero em questão: a possibilidade de se poder pensar. Somos constantemente bombardeados de demandas e hiper-estimulados para que possamos cumpri-las no menor tempo possível. Assim, quando a música Ambient aparece inserida em contextos políticos, ela fornece um espaço que é constantemente confundido como escapista (apesar de haver experimentações com este propósito). Na realidade, é um espaço de reflexão. Um espaço que transcende o tempo em uma atmosfera em que não há urgências ou autoridades de sentidos pré-concebidos. Encara-se a realidade não fugindo dela, mas pensando profundamente em suas contradições. Contradições essas que, se fossem expressas pela palavra direta, certamente perderiam sua grandiosa força.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.