SINAPSE: paisagem do sono

James Blake, o aplicativo Endel, Allan Watts, ritmos circadianos e tentar dormir melhor

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Fotos: Mariana Poppovic

Um músico e suas livres associações nas zonas de contato da arte (sempre às quartas-feiras).

RITMOS CIRCADIANOS

James Blake, Mountain, Brian Eno

 

O músico inglês James Blake lançou há alguns meses um novo álbum, intitulado Wind Down. Esse disco se encaixa sem esforço no restante de sua discografia, que sempre foi dedicada a uma música eletrônica introvertida e texturizada. No entanto, existe nele uma diferença fundamental. Elaborado em parceria com o aplicativo Endel, Wind Down pretende servir a um propósito específico: ajudar o ouvinte a dormir.

Endel é uma empresa que promete criar paisagens sonoras personalizadas e adaptativas a fim de reduzir o stress, melhorar o sono e aumentar a produtividade. Para além de James Blake, também excursionaram na empreitada artistas como Miguel e Grimes.

A companhia alega, numa área cinzenta e meio duvidosa, de que a investida é “apoiada pela neurociência e a ciência dos ritmos circadianos”. Endel funciona através de um algoritmo reagindo ao input do usuário. No caso, o programa ajusta suas batidas ao ritmo do seu batimento cardíaco, à temperatura do local que você se encontra, entre outros dados.

No entanto, as parcerias da empresa não estão restritas a artistas. Numa vertente chamada Wiggly Wisdom, é possível interagir com o aplicativo enquanto se ouve algumas declarações de Alan Watts, teólogo e pensador popular atuante durante a emergência da contracultura hippie nos anos 1960. Watts, um escritor e orador muito eloquente, ficou conhecido por interpretar e popularizar conhecimentos das tradições espirituais do oriente ‒ como o budismo e o hinduísmo, entre outros ‒, para uma audiência ocidental.

A página da Endel agradece ao artista visual David O”Reilly pela “inspiração”. Isso porque as falas de Allan Watts são também usadas no jogo de videogame Everything, criado por ele em 2017. Já mencionei Everything em outra Sinapse: trata-se de um simulador em que o jogador controla diferentes coisas do universo enquanto é estimulado a refletir sobre o significado da existência.

Antes de Everything, David O Reilly havia criado Mountain, um “simulador de montanha”. Na tela inicial de Mountain, o jogo pede que o usuário faça três desenhos. A partir daí, o jogo usa esse input para gerar uma montanha tridimensional que flutua no espaço. Não existe muita interação possível dentro de Mountain, mas, se o jogador digitar qualquer coisa no teclado, notas musicais soam e se dissipam em uma trilha sonora generativa.

Brian Eno cunhou o termo “música ambiente” e criou também o termo “música generativa”, ou seja, que se desenvolve sozinha a partir de inputs iniciais. Em 2008, Brian Eno criou seu próprio aplicativo, chamado Bloom, que depois se desenvolveu em um chamado Trope e, finalmente, em outro chamado Scape. De acordo com Eno, Bloom permite que qualquer pessoa crie padrões elaborados e melodias únicas simplesmente tocando na tela. “Um reprodutor de música generativo toma conta de Bloom quando a tela é deixada ociosa, criando uma seleção infinita de composições e suas visualizações de acompanhamento”.

Estamos mais ansiosos e insones: o uso excessivo de telas azuis está prejudicando os nossos ritmos circadianos. Curiosamente, uma solução paliativa encontrada pela humanidade foi justamente intensificar o uso de celulares, que agora interpretam nossas pulsões biológicas para nos acalmar.

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Autor:

é músico e escreve sobre arte