Resenhas

Huerco S. – Plonk

Brian Leeds retoma tradição da ambient music como discurso político e traz um reflexo das contradições contemporâneas em sonoridade plural e violenta

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Ano: 2022
Selo: Incienso
# Faixas: 10
Estilos: Experimental, Ambient
Duração: 59'
Produção: Huerco S.

Ambient music e “escapismo” são duas palavras comumente associadas, porém de uma maneira injusta. A péssima tradução do português para Música Ambiente certamente contribui ainda mais para esta ideia de uma forma de arte calma, que produz no ouvinte uma sensação de fuga da realidade em direção a um universo de sonoridades etéreas e reverberadas. Esta visão de sair da realidade representa apenas uma parcela da enorme variedade de expressões e sub gêneros derivados da ambient music – que pode ser produzida, inclusive, a partir do reflexo a realidade política.

Entre os exemplos mais célebres, temos Disintegration Loops. de William Basinski, obra que procurou representar a condição bélica e caótica pós-11 de setembro por meio de uma lenta e constante decomposição de fitas cassete e loops repletos de efeitos soturnos. Até mesmo o vaporwave possui raízes críticas ao sistema capitalista, procurando entre as trilhas sonoras de elevador e supermercados a matéri-prima de sua estética. Outro grande adepto da ambient music como ferramenta crítica é Brian Leeds, um americano de 30 anos dono de uma obra rica e versátil.

Brian tem muitos nomes, como Pendant, Loidis e Royal Crown of Sweden. Mas a sua relação política com a Ambient Music parece se fazer mais presente em seu projeto Huerco S. Em seu trabalho de 2016, For Those Of You Who Have Never (And Also Those Who Have), Brian estudou as famosas sonoridades lo-fi e encontrou nelas um incômodo latente que se tornou a fagulha inicial para este disco. Em entrevista para o Bandcamp, o produtor questiona a ideia de “música para produtividade” disseminada pelas rádios de lo-fi hip hop que existem pelo YouTube. Ele comenta que não consegue conceber esta noção de uma música para não atrapalhar as pessoas durante o trabalho.

Com isso, ele usou os mesmos pads destes famosos beats para compor peças no sentido contrário. Ou seja, música para as pessoas notarem e serem impactadas por ela. Nesse sentido, a obra de Huerco S. não encontra propósito em acalmar o ouvinte, mas utiliza a realidade como dado crítico de construção de uma identidade artística. Uma Ambient Music que não relaxa seu ouvinte, mas o desperta.

Esta permanece a premissa de Plonk, primeiro disco sob este nome após seis anos. A ambient music continua presente em sua sonoridade, porém o espaço que se abre para outros subgêneros da música eletrônica é maior. Dessa forma, navegar por entre as 10 faixas do registro é também se lançar em um mar de imprecisões. Em um momento estamos completamente imersos em pads uniforme; em outro, temos timbres que nos agulham aos poucos, causando um desconforto necessário em nossos ouvidos. E de repente o trap e o grime surgem com novos ares.

Todas as faixas levam o título do disco com a adição de um número em seguida. Esta escolha parece ter um propósito para além da burocracia de nomear faixas. É possível pensar em um sentido de agrupá-las como parte de um mesmo universo e, quando retomamos aquele pensamento da ambient vinculada à realidade política, isso se torna parte de uma narrativa mais densa. Desde 2016, aconteceram tantas coisas com o mundo que produzir um disco homogêneo seria contrassenso. As naturezas distintas e,  muitas vezes, extremas das composições trazem as diferentes sensações de se estabelecer em um mundo marcado por pandemias, guerras, crises econômicas e negacionistas científicos. Cada uma das faixas é única, mas, inevitavelmente, pertencem ao mesmo universo.

Huerco S. é um projeto que conserva suas próprias características e, ao mesmo tempo, carrega o legado de William Basinski – o de utilizar o som e a música como ferramentas indispensáveis para um discurso crítico. Para Brian Leeds, a contemporaneidade não é apenas caótica, mas singular em suas dissonâncias. É nesse ponto que encontramos o cerne de Plonk: nas contradições. A mescla entre ambient, noise, glitch hop, grime e trap é uma grande metáfora para a maluquice contemporânea. Aquela calmaria da ambient music de Brian Eno certamente não tem espaço aqui. Resta apenas um desconforto inevitável e altamente relacionável.

(Plonk em uma faixa: “Plonk II”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.