Resenhas

Benmont Tench – You Should Be So Lucky

Disco é um convite de um experiente organista e pianista a conhecer os primórdios do Rock e suas sutilezas

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Ano: 2014
Selo: Blue Note
# Faixas: 12
Estilos: Rock, Blues, Instrumental
Duração: 45:45
Nota: 4.0
Produção: Glyn Johns
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fyou-should-be-so-lucky%2Fid810424189%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

Você já conhece Benmont Tench e não sabe. Mesmo que o nome Tom Petty And The Heartbreakers não signifique muito em seu arquivo de bandas legais de Rock (ainda está em tempo de corrigir isso, hein?), certamente você já ouviu alguém nessa lista aqui: Johnny Cash, U2, Bob Dylan, Roy Orbison, Rolling Stones, Elvis Costello, Paul Westerberg, Ramones, Green Day, The Cult, Jayhawks, Fiona Apple. Ainda tem bastante gente, mas esses são alguns dos artistas com quem Benmont gravou ao longo de sua carreira vitoriosa de organista e pianista. Mesmo sendo integrante fundador dos Heartbreakers, o sujeito já emprestou seu talento para muita gente. Apesar de ser um músico prolífico, Benmont só se sentiu à vontade para lançar um disco solo após 38 anos de carreira e o resultado é esse refrescante You Should Be So Lucky.

O termo “refrescante” se aplica porque o álbum é um feixe de doze canções gravadas como se os músicos estivessem numa falha do espaço/tempo, em algum lugar do sul ideal dos Estados Unidos, em meio à formação do próprio Rock’n’Roll. Pitadas de Blues aqui, pouquinho de R&B ali, um toque de Country acolá e, em minutos, surge algo novo, dançante e contemplativo ao mesmo tempo. Participações de amigos como o próprio Petty, Ringo Starr, David Rawlings, Don Was e Gillian Welch dão o tom de celebração necessário. A voz de Tench não é grande coisa, mas seu registro baixo e contido é bem adequado para o tom das canções, que nunca chegam à grandiosidade, pelo menos, não no sentido espalhafatoso do termo, atingindo várias nuances e detalhes.

A primeira canção do percurso proposto por Tench é Today I Took Your Picture, um pequeno milagre de pouco mais de quatro minutos, que conduz a voz frágil de Benmont por alamedas sonoras típicas de uma versão mais calma da E Street Band, de um certo Bruce Springsteen. Também há certo clima de Eagles em alguns lugares da melodia. Veronica Said é típica da encruzilhada Jeff Lynne/Tom Petty de Rock, que resultou na gravação de vários discos legais em fins dos anos 80, do álbum do supergrupo Traveling Wilburys (do qual os dois faziam parte, além de Roy Orbison, George Harrison e Bob Dylan) ao soberbo Full Moon Fever, de Petty. Eccor Rouge, por sua vez, traz andanças de Tench nos terrenos abençoados do Jazz, com melancolia e beleza necessárias. Hannah, a canção seguinte, é quase sussurrada e lembra alguma paisagem de beira de estrada, em preto e branco. Blonde Girl, Blue Dress é outra beleza de canção, com muita cara de The Band circa 1971, cheia de paisagens. A faixa título, com andamento mais rápido, guitarras e cara de sucesso de rádio AM americana de 1970, é o máximo de concessão que Benmont fará ao Rock mais clássico.

O standard Corrina,Corrina vem em seguida e a versão que Benmont registra é respeitosa e delicada, não lembrando gravações anteriores da canção, como as feitas por Eric Clapton e Bob Dylan, por exemplo. Percussões insólitas dão o tom inicial de Dogwood e uma levada de violão conduz o ouvinte por um pequeno passeio por reminiscências do Mudcrutch, primeira banda de Tom Petty, da qual Benmont também fez parte. Like The Sun vem em seguida e revisita a encruzilhada Dylan/Byrds, que sempre deu a tônica do trabalho de Petty e dos Heartbreakers. Wobbles já é um instrumental segudo e cheio de pianos plácidos, em meio a banjos e clima de highway. Why Don’t You Quit Leaving Me Alone é a dolorida canção seguinte, que lembra bastante as gravações atuais de Bob Dylan, enquanto Duquesne Wistle, a última música do disco, foi gravada pelo próprio em seu último disco, Tempest. O registro de Tench é mais suingado, mas próximo do Boogie.

You Should Be So Lucky é uma beleza de disco. Se você estiver disposto/a a conhecer os primórdios do Rock, as sutilezas e os climas que ficam geralmente de fora do que o senso comum apresenta, Benmont Tench se oferece gentilmente para te mostrar como funciona. Aceite, é um belo convite.

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BOM PARA QUEM OUVE: Ryan Adams, The Band, Bob Dylan
ARTISTA: Benmont Tench
MARCADORES: Blues, Instrumental, Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.