Resenhas

Blank Banshee – Metamorphosis

Patrick Driscoll se liberta da divisão por faixas no seu novo álbum e aposta em contrastes para criar um Vaporwave labiríntico

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Ano: 2019
Selo: Hologram Bay
# Faixas: 15
Estilos: Vaporwave, Experimental, Soft Mall
Duração: 18’40”
Nota: 3.5
Produção: Blank Banshee

No começo dos anos 2010, entre os cantos mais isolados de redes sociais como Reddit e Tumblr, uma estética nova ganhou espaço entre gifs e montagens. Era o Vaporwave. Uma espécie de híbrido entre as estátuas clássicas romanas e renders dos primórdios da computação gráfica: um limbo de excessos e cores neon. Aos poucos, este universo de extremos unidos começou a invadir os meios de produção musical. Quase como quem está compondo a trilha sonora para um filme. Assim, o Vaporwave explodiu – principalmente por seu processo simples (edição e manipulação de músicas já existentes) e as possibilidades infinitas que isso gerava.

A pretensão do movimento, no entanto, foi encarada com bastante descrença. As investidas eram lidas mais como “memes” do que como um verdadeiro gênero musical. Mesmo assim, houveram aqueles que enxergaram o potencial resguardado ali: especialmente no sentido de criar composições camaleônicas com fusões harmoniosas e experimentais. Patrick Driscoll, mais conhecido pelo pseudônimo Black Banshee, talvez seja o maior expoente dessa segunda leva.

Trabalhando a favor de uma construção distópica e etérea, a obra do artista tem entre suas características mais marcantes o exagero que, no seu caso, ironicamente, parece ser usado sob medida. Super compressão de ondas de áudio, reverbs infinitos, barulhos amplos, timbres distorcidos: tudo isso aparece combinado de forma a soar perfeitamente natural. Outro elemento primordial de suas produções é a maneira como ele assume o papel de um “garimpeiro”: Driscoll procura samples com esmero. Eles vêm de trilhas sonoras de video-games, comerciais antigos, discursos ripados do YouTube… Em Black Banshee 0 (2012), essa sua capacidade já estava em evidência e foi ela que corroborou para que o seu nome, dentro do Vaporwave, fosse extremamente respeitado – mesmo que ele nunca tenha categorizado o seu som como integrante do movimento.

Cinco anos depois do gênero ter sido “declarado morto”, o produtor retorna com Metamorphosis (2019) – uma curta, porém profunda, viagem que repensa a estrutura padrão dos discos. Aqui, Dricoll dá duas opções para o ouvinte: uma que divide o registro em 15 faixas e a outra que sugere uma audição ininterrupta, como uma grande mix. Quem escolhe a primeira versão (mais tradicional), contudo, perde um pouco da novidade.

Desta vez, Blank Banshee cria uma espécie de Ambient Music às avessas. Os flertes com o Hip Hop de Blank Banshee 0 dão espaço à uma fluidez maior. As batidas estão presentes, mas são acessórios. O protagonismo fica, na verdade, por conta dos silêncios entre as melodias e os timbres. São eles que conduzem a jornada proposta. E é aqui que os excessos anteriormente citados parecem caber como uma luva: de alguma forma, eles nos tornam pequenos diante da magnitude das construções sonoras do disco. Tudo isso em menos de vinte minutos. Ou seja, Black Banshee deixou claro que a ele não interessa a ideia de um LP convencional. O que está sendo oferecido é uma experiência sinestésica: uma aventura labiríntica que, em seus meandros, atravessa opostos como o experimentalismo e a música Pop.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.