Resenhas

Jennifer Souza – Pacífica Pedra Branca

Com sonoridade mais quente, segundo disco da artista mineira é um mergulho intenso e, ao mesmo tempo, repleto de sutilezas

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Ano: 2021
Selo: Balaclava Records
# Faixas: 9
Estilos: Indie Folk, Chamber Pop, Baroque Pop
Duração: 39'
Produção: Jennifer Souza e Leonardo Marques

Parece que, volta e meia, surge em Minas Gerais um mistério musical instigante. Nos anos 1970, o Clube da Esquina misturou a progressividade beatlemaníaca ao espírito quase xamânico das montanhas de Minas. Já nos 1990, o Skank compreendeu que o Pop mais chiclete possível também poderia ser fonte de originalidade e ambição musical. No meio dos 2010, um grupo de jovens resolveu ir para um lado mais agressivo, criando uma cena caprichada em referências do Shoegaze e Emo, destacando nomes como Jonathan Tadeu, Fernando Motta e El Toro Fuerte. E mais recentemente, beirando o final da década passada, alguns artistas retornaram à música mais intimista, enxergando no Indie Folk um campo fértil para mergulhos internos.

É desse lugar íntimo que Jennifer Souza vem. Integrante de bandas como Transmissor e Moon, a cantora e compositora se firmou dentro desse Folk há tempo considerável. Seu disco de estreia, Impossível Breve (2013), é fundamental para sacar sua arte – não de um ponto de vista apenas técnico, mas a respeito das sensações que evoca. Com predileção por arranjos brandos e suaves, a narrativa de Jennifer é quase traiçoeira. Quanto tudo parece sob controle, surge a intensidade, uma espécie de purgação repentina, que chega acompanhada, entretanto, de leveza musical. Após uma espera de oito anos, seu segundo disco de estúdio revela como o tempo refinou ainda mais essa dualidade entre introspecção e catarse que Jennifer carrega.

Pacífica Pedra Branca vai ainda mais fundo nessa autoinvestigação e, embora se mantenha o apego a texturas menos agressivas e mais etéreas, Jennifer preenche cada espaço da atmosfera, em meio a synths encorpados, notas quentes de sopro e guitarras contínuas. E tudo caminha por uma psicodelia sem exageros. O Folk ainda se destaca, mas ele abre espaço para a MPB, o Dream Pop e a Ambient Music, que somam recursos à introspecção de Jennifer, uma minuciosa curadora de referências.

“Ultraleve”, faixa de abertura, encontra conforto entre o piano quente e o ritmo apressado da bateria, em um delicioso contraste. Mesmo em ritmo menor, como em “Amanhecer”, os arranjos do disco ainda são muito bem preenchidos por ecos quase infinitos. Em “Crescente”, momento mais íntimo do repertório, as percussões são apenas detalhes que deixam um amplo espaço para que o piano e os metais possam se expandir. “Ser no Espaço a Minha Luz” é um dos exemplos de como a sonoridade do álbum caminha pela lisergia sem apelar para a extravagância – sempre trabalhando naquele controle, mas envolvendo totalmente o ouvinte. Com participação do cantor Tiganá Santana, “Oração ao Sol” encerra o disco em um momento quase ritualístico.

Pacífica Pedra Branca é, sem perder a leveza, intenso. A sensibilidade de Jennifer Souza, sob camadas de synths e escolhas precisas permeando a produção, é capaz de nos colocar em uma espécie de estado de transe. Como resultado final, o repertório é daqueles para ser apreciado por inteiro, como uma suspensão representada por nove canções.

(Pacífica Pedra Branca em uma faixa: “Oração Ao Sol”)

 

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.