Mallu Magalhães - Vem

Mallu Magalhães - Vem
  • Ano: 2017
  • Selo: Sony Music
  • Produção: Marcelo Camelo
  • # Faixas: 12
  • Estilos: MPB, Indie, Samba
  • Duração: 37'
BBBBb

Falar de um crescimento de Mallu Magalhães de um disco para o outro, no caso de seu Pitanga em 2011 para o novo Vem, não significa comentar apenas o amadurecimento que a artista passou no período, mas como sua música mostra-se maior em vários sentidos.

Logo que começa Você Não Presta - primeiro single do disco e sua faixa de abertura -, já fica clara a dimensão que seu som tomou durante esse tempo. Se Velha e Louca, talvez a canção mais marcante de Pitanga, apresentava uma formação de banda que, apesar da guitarra estridente, parecia se preocupar em deixar espaços em branco para a voz da moça, o Samba cheio de pompa e volume serve como um pano de fundo que preenche todos os cantos dos ouvidos na medida certa para seu vocal. Esse instrumental não precisa ceder espaço à cantora, ela sabe encontrá-lo.

E esse é outro dos notáveis crescimentos que Mallu apresenta. A maneira que ela impõe sua interpretação mostra um novo domínio de voz e como ela se comporta em função da poesia. Ela está mais segura para brincar com a métrica das palavras (em Culpa do Amor) ou com as notas alongadas (em Será que Um Dia) de uma forma em que a doçura pela qual é conhecida ainda esteja sempre presente.

Esses dois fatores - o volume das músicas e uma força maior no canto - atuam juntos para criar uma identidade própria para Vem dentro de sua discografia, uma cara que combina bem com o rosa quente de sua capa, visto que é de forte presença e ainda caracteristicamente feminino. Mallu apresenta-se como uma cantora grandiosa aos moldes dos grandes nomes do passado, e o sabor nostálgico, ou vintage, vem como uma acertada escolha estética para suas músicas.

Seja nos arranjos mais tipicamente brasileiros (Pelo Telefone e Casa Pronta, por exemplo) ou nos que trabalham referências daquele Indie que resgata o clima dos bailinhos de outrora (Navegador), existe uma qualidade no som que nos remete ao ontem, a uma canção Pop de cunho mais “tradicional”. Será que um Dia, o melhor exemplo disso, é o tipo de música feita por quem nasceu em uma época que já tinha ouvido Roberto Carlos e Tim Maia, colocando Mallu em paralelo com outras contemporâneas que trabalham esse mesmo imaginário e herança, como Céu e Tulipa Ruiz, de uma meneira referencialmente atual.

Para além das classificações de estilo, há que se dizer que Vem é uma coleção de músicas de diversas e marcantes belezas. Os arranjos e a produção (novamente assinada por Marcelo Camelo) chamam tanta atenção a ponto de não permitirem uma audição muito passiva do disco - querendo ou não, você se pega notando detalhes de algum timbre que entra aqui, o jeito que ela cantou tal verso ali, sempre com agradáveis sorrisos. É tudo de um gosto exigente e despojado, saudosista e dinâmico, mais encantador do que nunca.

O “lado-A”, ou primeira metade do álbum, traz um candidato a hit atrás do outro, com suas grandiosas canções de amor e Sambas agitados na medida certa, e mesmo a mais “discreta” Vai e Vem possui uma simpatia evidente (e remete bastante aos trabalhos anteriores da cantora, ainda que dentro das características novas). Já o outro lado mostra-se um tanto mais intimista, com referências do que Mallu viveu no Brasil e deve ter saudades - os títulos das belas Guanabara, São Paulo e Gigi denotam isso.

Essa segunda metade acalma um pouco os ânimos, mesmo com essas três citadas sendo ótimas músicas, e chega a dar sinais de excesso em I Love You, uma música relativamente menos expressiva que as dez anteriores, e na derradeira Linha Verde, que ficou tímida dentro do repertório. Ambas têm mais cara de faixas-bônus de um disco que seria melhor ainda tendo acabado em Gigi, só com pontos altos.

Se Pitanga mostrava que Mallu Magalhães não era mais menina, Vem é o trabalho no qual ela parece encontrar a força de sua voz em par com seu poder criativo, e melhor ainda é comprovar que as músicas refletirem esse mesmo clima. É um disco que mostra que ela nunca foi tão confiante em sua poesia (por poder impor seu vocal como o faz), tão consciente de sua nacionalidade (fruto do tempo morando em Lisboa) e tão feliz em sua saudade - seja ela em forma ou conteúdo.

(Vem em uma música: Pelo Telefone)

Bom para quem ouve: Liniker e os Caramelows , Laura Lavieri , Céu

Artista: Mallu Magalhães

Marcadores: Samba, MPB, Indie