Bomba Estereo - Ayo

Bomba Estereo - Ayo
  • Ano: 2017
  • Selo: Sony
  • Produção: Simon Mejia
  • # Faixas: 11
  • Estilos: Música Latina, Pop Alternativo, Eletrônico
  • Duração: 39:05
BBBBb

Sem muitas delongas e repetindo um pouco o que disse no artigo sobre a banda colombiana: Bomba Estéreo é um dos artistas mais arejados e contemporâneos em atividade no mundo. Sem exageros. Sua mistura de eletrônica e ritmos colombianos é leve, sensacional e mantém uma tradição histórica de inserção de traços culturais de uma periferia geopolítica/cultural na lógica hegemônica. Traduzindo: Tropicália, Semana de Arte de 1922, Bossa Nova, tudo isso vem do mesmo desejo de plugar a América Latina no mundo, de uma forma ou de outra. A atualidade fragmentada, líquida e conectada fornece o caminho para uma nova investida nossa, os periféricos, no mundo dos dominantes. Vem conhecer Ayo, vem.

Apesar de dançante e animadíssimo, este álbum tem tantos detalhes de produção nos arranjos, que recomendamos uma audição prévia em volume elevado e fones de ouvido. São blips e blops por toda parte, timbres de guitarras, violões, percussões de todas as formas, amarrados num universo em que o caos é controlado e administrado pela batuta de Simon Mejia, o cérebro pensante da banda. Ele fornece o painel colorido e multidimensional para a voz de Liliana Saumet, dentro de seu espectro insinuante/anárquico/sexy, passear desimpedida. O resultado, ainda que soe mais polido e "domesticado" que em trabalhos do início da carreira da banda, ainda está a anos-luz à frente do que é feito por aí. No Brasil, infelizmente, mesmo que vivamos uma certa onda latina atualmente, ainda nos privamos de conhecer e apreciar os artistas que estão em países fronteiriços. Esperamos que Bomba seja capaz de furar este bloqueio burro e trazer mais artistas do que se entende por "cena neocumbia", algo que está acontecendo na Colômbia, na Argentina e em outros lugares muito mais próximos de nós e da nossa realidade que Estados Unidos e Europa.

A música de Bomba Estéreo, mesmo que polida pelo passar do tempo, ainda traz essa mistureba de eletrônica e ritmos latinos, porém, tais ingredientes não dariam liga se não fosse pelo Rap, algo que está completamente assimilado na musicalidade do grupo. Lá pela quinta faixa de Ayo, Money Money Money, nos damos conta do quão bem Liliana "rappeia" ao longo da melodia, com refrão hipnótico, batidas sintéticas de baixo custo e samplers de caixa registradora e vocais de apoio dispersos dão o clima necessário para nos sentirmos irmanados neste mesma lógica de dinheiro, dinheiro, dinheiro, não necessariamente nos nossos bolsos. Além desta canção, fora o início climático e tecladeiro de Siembra, o que ouvimos são variações desta receita misturadora e plural. A faixa título, por exemplo, é cheia de guitarrinhas fluidas, totalmente caribenhas com conexão africana, que deságua no baticum sintético robotizado. O bom uso das cordas, aliás, é outro traço interessante do álbum, dando as caras novamente em Duele, mais pendente para o Reggae, devidamente adulterado em algum entreposto no meio do caminho entre Kingston e Bogotá.

Amar Así tem batidas e estrutura de Reggaeton, mas escapa por uma tangente de passeio litorâneo numa manhã ensolarada com a pessoa amada. Sopros e dança tomam o controle em Internacionales, enquanto Flower Power é un reggaeton para mover el culo, na verdade um libelo feminista de empoderamento e tributo a tempos mais arejados intelectualmente, tudo junto e misturado. Com título em homenagem a um povoado de pescadores cheio de praias paradisíacas, Taganga é outro exemplo de canção em que influências reggaeiras são reprocessadas por batidas eletrônicas mais convencionais, chegando a lembrar o timbre obtido por grupos como UB40 em tempos idos. Fechando o disco, Vuelve é canção climática, crescente, com estrutura de final feliz e sintetizando o caldeirão de influências, cores e nomes que habita e dá norte à banda.

Chegando ao país para abrir shows de Arcade Fire em Rio e São Paulo e subindo ao palco do Rock In Rio em 23 de setembro, ao lado de Karol Conka, Bomba Estereo é garantia de abertura de novos horizontes musicais para mentes curiosas. Não perca.

(Ayo em uma música: Taganga)

Bom para quem ouve: Ana Tijoux , Quantic , Karol Conka

Artista: Bomba Estéreo

Marcadores: Eletrônico, Música Latina, Pop Alternativo